Por que as bundas de JLo e Shakira incomodam?

O show sensual de JLo e Shakira levanta questões complexas sobre a mulher. Será que seus traseiros sólidos, redondos, rebolantes, gloriosos, que se movem sem remorsos, incomodam?

Sr. García / Ilustración a partir de fotografía de Timothy A. Clary (AFP)

Antes das Kardashians, de Beyoncé, de Cardi B e da própria Jennifer Lopez, no Caribe tivemos Iris Chacón. Conhecida como a Vedete da América, essa artista de Porto Rico vivia para ver como, à sua passagem, caíam ao chão os queixos de homens, mulheres, gatos, cães, não importa, com seus espetáculos nos quais sempre houve escassez de tecido e abundância de carne. Chacón se transformou no epítome da figura feminina caribenha: voluptuosa, sensual e sexual, com um quadril capaz de derrubar edifícios. Desde menina eu a via na televisão e a imitava batendo as nádegas infantis a toda velocidade, da mesma forma como faria anos depois, quando, no meu casamento, dancei bomba com minhas amigas boricuas (porto-riquenhas), da Colômbia e do Brasil.

Todos na ilha se lembram do comercial de uma marca de coolant (o líquido de arrefecimento para carros) que Íris Chacón fez nos anos oitenta, no qual, brandindo suas nádegas para a câmera, lembrava a todos que ela tinha um “tremendo coolant” (termo que soa como a palavra espanhola para “bunda”) e que “de coolant eu entendo”. Em uma festa recentes em San Juan, a capital de Porto Rico, Íris, hoje com 69 anos, apresentou-se no palco principal com suas meias-calças e roupas de lantejoulas, demonstrando que continua sendo uma diva.

Figuras como ela são tão admiráveis como problemáticas. Sua projeção contribuiu para o estereótipo da mulher caribenha e −do ponto de vista americano− latina como um ser hipersexual e cuja única leitura possível pertence ao universo da animalidade. Ou seja, elas se integram à cultura apenas como corpos, nunca como indivíduos complexos, reduzidas aos limites da carne. Por outro lado, enquanto alguns as veem como mulheres que exploram a si mesmas através do corpo, há quem as celebre como o oposto disso. A mulher se apropria de seu corpo e faz com ele o que bem entende. Em tempos em que está tão na moda isso de nos “empoderarmos”, mulheres como Chacón e a longa lista de figuras do espetáculo que trabalharam uma estética similar −de Tongolele até Sofía Vergara− levantam uma série de questões incômodas tanto para quem as critica como para quem as celebra.

Será que pode ser chamado de empoderamento o uso de uma estética que serviu para a exploração das mulheres? Dançar, cantar e expor a sensualidade livremente e por decisão própria não pode ser, então, um ato empoderado e inovador? A título de que existem juízes para definir o que dá ou não dá poder a uma mulher?

Outro dia, uma amiga se surpreendeu quando eu lhe disse que a acompanharia de bom grado à consulta para aumentar os seios. Achou que eu a julgaria. Expliquei que o que me interessa é que seu corpo seja dela e que faça o que quiser com ele, mesmo que seja algo que eu não faria com o meu. Se o exercício de apropriação de seu corpo que uma mulher faz chega pela via do recato e da modéstia ao se vestir, maravilhoso. Se, pelo contrário, isso ocorre com ela envolta em tecidos brilhantes fazendo dança do ventre ou agarrada a uma barra girando suas curvas, duplamente maravilhoso.

Um grande grupo dos espectadores do show da nova-iorquina Jennifer Lopez e da colombiana Shakira no intervalo do Super Bowl parece não entender essas dinâmicas e atua como polícia de corpos caribenhos aplicando multas. A hipocrisia é absoluta. Incontáveis artistas americanos ocuparam esse mesmo e cobiçado palco, com menos roupa e sem provocar nenhum julgamento nem furor.

O problema é que essas pessoas não entendem uma máxima do Caribe: aqui o corpo faz cultura. O corpo pensa, articula e gesticula ideias, manifesta a história de forma contundente. Não é um mero consumidor ou um produto, é conceito e é ideia. A quebra no entendimento desse filtro para entender o mundo gera todo tipo de mal-estar.

Suas bundas incomodam: as redondas, rebolantes, vibrantes, sólidas, gloriosas bundas que movem sem remorsos duas mulheres maiores de 40 anos, mães e ícones da música latina e global por seus próprios méritos. Não incomodam apenas por reinar no império contemporâneo das nádegas, onde há quem pague milhares de dólares por implantes para chegar a ter um traseiro deluxe; incomodam porque, com sua presença, falam de tudo aquilo que é mais confortável ignorar. Essas nádegas falam da música afro-caribenha −Shakira dançou champeta e JLo perreou com J. Balvin−; incomodam porque remexendo os quadris líquidos nos fazem lembrar a mistura que somos, a herança árabe e a história imperial, escravista e dolorosa por trás disso. Causam incômodo essas bundas bilíngues, próprias de uma sensualidade ligada a uma cultura que tão alheia e intimidante para o espírito puritano inscrito na fundação dos Estados Unidos. Causam incômodo essas bundas desafiantes porque, mesmo rebolando de um lado para o outro, não deixam de nos lembrar que o sonho americano foi um fracasso para tanta gente e que Porto Rico −sua colônia mais antiga e esquecida− continuará gritando de suas entranhas para os EUA, e em um espanhol tão regional como o de Bad Bunny. Ou talvez, além de tudo isso, o que mais incomoda seja que contra todos os esforços de resistência, ali, no epicentro da metáfora mais eloquente da mentalidade imperial −o futebol americano, onde se avança conquistando terreno derrubando o que vier pela frente−, dois corpos de mulheres latinas têm o poder de falar em uma linguagem que não conhecem, a linguagem do Caribe, a insuportável plenitude das nádegas.

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