EX-PRESIDENTE DA RENAULT-NISSAN

Carlos Ghosn: “No Japão me prenderam de surpresa e eu os surpreendi ao ir embora”

Em entrevista ao EL PAÍS, empresário acusa a Justiça japonesa de estar contra ele por ser “estrangeiro e conhecido” e afirma que agora o “pesadelo acabou”

Pontual, Carlos Ghosn deixa o barroco elevador no último andar do hotel boutique Albergo, um dos mais refinados do Líbano. Localizado no bairro cristão de Beirute, seu restaurante é um nicho privilegiado da alta sociedade local. Está acompanhado por sua mulher, Carole, e um robusto guarda-costas de barba espessa. “Em 45 minutos tenho que sair para uma ligação importante para o Japão”, se desculpa, pragmático, o ex-presidente da Renault-Nissan, após um aperto de mão. Entre gesticulações —a cada menção à Nissan as sobrancelhas ficam tensas— e alternando francês, árabe e inglês, ele inicia a entrevista nesta quinta-feira ao EL PAÍS. Aos 65 anos, Ghosn passou de ícone dos negócios a fugitivo da Justiça japonesa. Ele se diz vítima de um complô e reuniu um pequeno exército de advogados para defendê-lo no Líbano, França e Japão. Aposentado no país europeu, diz querer ajudar as “dezenas de milhares de vítimas da Justiça japonesa”.

Pergunta. Como é passar de um quase Deus nos negócios a um bandido no Japão?

Resposta. Dirigi a Nissan de 1999 a 2016 e depois fui presidente do conselho de administração. No Japão, estive cercado de boas palavras. Eu representava outra forma de gestão diante do modelo japonês, uma novidade. E, de repente, tudo mudou. De um dia para o outro, os promotores e uma pequena equipe da direção da Nissan começam a dizer o contrário. Fiquei estupefato. Por eu ter uma reputação tão forte, era difícil para eles se livrarem de mim sem destruir antes minha imagem. Por isso começaram a dizer que eu era um ditador, um ganancioso... Eu sou um homem determinado, não um ditador.

P. O senhor situa o ponto de virada em 2017, quando os resultados da Nissan pioraram. Então, de acordo com sua versão, o enredo começa a ser arquitetado.

R. Esse é o ano em que começo a pressionar mais a administração, exigindo um plano de ação após detectar um declínio nos resultados. Era meu dever. Mas surgiu certa fricção com a equipe da direção e, principalmente, entre Hiroto Saikawa [o diretor que o sucedeu à frente da Nissan] e [o espanhol] José Muñoz. O segundo queria uma estratégia mais combativa nos EUA, que eu compartilhava.

P. Por que se voltaram contra o senhor?

R. Porque era fácil. Sou um estrangeiro, sou conhecido, e jogaram tudo para cima de mim.

P. Depois de quase duas décadas no Japão, deveria conhecer bem os meandros da empresa e da Justiça, não?

R. Não, não, não. A Justiça japonesa é um ponto obscuro no país. Quando eu era chefe na Nissan, ouvi falar de casos surpreendentes, como o da vice-presidente da Toyota presa por ter encomendado remédios para a mãe, e eles terem entrado no país sem ser declarados. Para mim, pareceu estranho. Mas são fatos relativamente recentes. Quando cheguei ao país havia uma abertura e existia uma vontade de internacionalização. O Japão atual é muito mais fechado e mais nacionalista. Houve uma mutação.

P. Atribui o complô à tentativa de torpedear uma maior integração entre a Renault e a Nissan.

R. É evidente. Veja o que é essa aliança hoje. Durante os 17 anos em que a construí, você nunca terá ouvido falar de uma única discussão interna. E os resultados são duas empresas que afundam. Bem, a Nissan já afundou... Dobrou de tamanho entre 1999 e 2017. Hoje não tem uma visão clara e não sei por que alguém iria querer comprar a Nissan. Desde 2018, a Renault e a Nissan perderam um terço de sua capitalização em Bolsa, enquanto o índice das automobilísticas subia 12%. São cifras colossais. É uma hemorragia em massa.

P. Diz que fugiu da injustiça de um país onde 99,4% dos acusados ​​são condenados. Acha que no Líbano tem 100% de possibilidade de ser absolvido?

R. Não é certo que eu seja julgado no Líbano. Mas no Líbano, França ou Brasil existem leis para a defesa. Que no Japão 99,4% dos promotores ganhem as causas significa que 99,4% dos advogados perdem. Isso é dramático. A ministra da Justiça disse que o senhor Ghosn tem que ir ao Japão para provar sua inocência. Todos os advogados do mundo caíram em cima para lembrar que, em um sistema democrático, existe a presunção de inocência e que o que deve ser provado é a culpabilidade.

P. O que pensou quando pisou em Beirute, depois da fuga?

R. Acabou enfim o pesadelo! Vivi muitas traições, mas também vi gente com muita coragem, valentia e valor humano.

P. Por que escolheu 30 de dezembro para fugir?

R. Porque é um momento em que as pessoas relaxam, saem de férias, vão esquiar... Era o momento bom. Eles me surpreenderam quando me prenderam e eu os surpreendi ao ir embora.

P. Recusa-se a falar de como escapou, mas se acredita que o fez em uma caixa de instrumentos musicais, dois aviões particulares, milicianos libaneses...

R. Os dois únicos dados comprovados são que saí de minha casa no domingo ao meio-dia, aterrissei em Beirute em um voo privado de Istambul e entrei no Líbano com meu passaporte francês e meu documento de identidade libanês. Não direi mais nada.

P. Pensou que poderia criar um problema diplomático entre o Japão e o Líbano?

R. Não acho. Sou cidadão libanês e entrei legalmente no país. Eu me limitei a falar da Nissan e dos promotores em um plano pessoal, sem nomear nenhuma autoridade política japonesa. Não quero dizer que o Governo não esteja envolvido na artimanha, mas eu não quis falar sobre isso para evitar a deterioração das relações entre os dois países.

P. Por quanto tempo está proibido de deixar o Líbano?

R. Meu passaporte foi confiscado e, por ora, não posso viajar. Não tenho pressa de sair. Estou bem, entre amigos e a família em um país que aprecio. Não tenho pressa.

P. O senhor entrou com um processo contra a Renault para solicitar uma aposentadoria de cerca de 800.000 euros por ano [3,7 milhões de reais]?

R. Sem entrar em detalhes do processo, estou reivindicando os meus direitos na França, onde há uma Justiça independente. Não peço nada ilegítimo. Acho que a Renault me ​​tratou de forma incorreta e me negou meus direitos. Não ataco ninguém, só contra-ataco. O Japão me atacou ao me manter recluso por 14 meses. Sem me deixar falar com minha mulher nem com alguns de meus filhos. Não são modos. E tudo por quê? Porque não relatei um salário que nunca recebi?

P. Mantém a alegação de sua completa inocência?

R. Claro. Ou se é inocente ou se é culpado. Não há meio termo.

P. Em Beirute vive em uma casa que a Nissan reclama como propriedade da empresa.

R. Não é a primeira falácia que eles dizem. Esta casa é objeto de um litígio entre mim e a Nissan, está em mãos da Justiça libanesa. Foi feita para meu uso e no âmbito de uma compensação.

P. Qual seu plano para o futuro? Aposentar-se? Deixar os negócios?

R. Estamos longe da aposentadoria. Oficialmente estou aposentado na França. Isso não significa que fique inativo. Vou defender meus direitos lá e no Japão. A experiência japonesa me marcou. Há dezenas de milhares de pessoas que sofrem com esse sistema e não têm o privilégio de que conheçam seu caso, então acho que posso ser útil e dar uma mão.

P. Busca um papel político na crise libanesa? Um político propôs o seu nome como ministro da Energia.

R. Rejeito qualquer ambição política, que nunca tive. E não vou mudar de ideia nesta idade. Faço parte desta comunidade e, se minha experiência puder ser útil ao novo Governo, estou disposto a colocá-la a serviço do país. Fiz mudanças drásticas em três ocasiões, com a Mitsubishi, a Nissan e a Renault, com os resultados conhecidos por todos. A situação atual é difícil no Líbano, mas não é impossível sair dela.

Ao perguntar à mulher dele, Carole, se está a favor de que o marido assuma um papel ativo no Líbano, ela responde que sim: “Espero que possa arrumar a economia, porque é necessário. Este país precisa de alguém como Carlos”. “É o único ponto de discórdia entre nós", conclui o empresário antes de se preparar para o telefonema ao Japão.