É possível saber o status social de uma pessoa analisando o seu cabelo

A análise dos isótopos do cabelo permite determinar a dieta das pessoas e também se elas moram em um bairro nobre ou quanto gastam com cabeleireiro

Os salões de cabeleireiros contêm informações relevantes sobre a dieta humana.
Os salões de cabeleireiros contêm informações relevantes sobre a dieta humana.Claudio Alvarez/EL PAIS / EL PAÍS

Assim como nas amostras de gelo coletadas nas regiões polares é possível reconstituir a história climática da Terra, os cabelos que deixamos no chão de um salão de cabeleireiro podem indicar qual é a nossa dieta. E, com ela, o lugar que ocupamos na sociedade. Um estudo publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences explica como uma equipe de cientistas coletou amostras de cabelo de 700 pessoas em salões de beleza de 65 cidades dos EUA e de 29 áreas diferentes da região de Salt Lake City, no Estado de Utah. Os autores, pesquisadores da Universidade de Utah, observaram que a medição dos isótopos de carbono do cabelo permitia conhecer as diferentes dietas das pessoas, que também estavam relacionadas com o custo de vida em cada uma das áreas de Salt Lake onde cortaram o cabelo. Esses isótopos também possibilitavam estimar o custo de cada corte de cabelo.

Quase três décadas atrás, James Ehleringer e Thure Cerling, autores do artigo, começaram a investigar como a dieta dos mamíferos poderia ficar gravada em seus cabelos. Diferentes tipos de alimentos contêm variantes dos mesmos átomos com pesos diferentes (isótopos) e, quando os alimentos são decompostos em aminoácidos no processo da digestão, esses isótopos acabam fixados em todo o corpo, inclusive nos cabelos. Com essa técnica, além da dieta, eles foram capazes de determinar os lugares pelos quais uma pessoa viajou, porque a água em cada local possui uma mistura específica de isótopos. Outros pesquisadores, como Glen P. Jackson, da Universidade da Virgínia Ocidental, propuseram o uso dessas técnicas para identificar criminosos que deixaram cabelos na cena do crime, pois poderiam ser usados para esboçar seu estilo de vida e isso ajudaria na captura deles.

Em seus dados, os autores observaram que o sinal isotópico do milho estava marcado nos cabelos das pessoas de áreas com menor poder aquisitivo. Isso indica que as pessoas nessas áreas comiam carne de animais alimentados com esse tipo de grão, algo que acontece em fazendas enormes que produzem carne mais barata e de pior qualidade. Em outro aspecto do estudo, puderam comprovar que as porcentagens de isótopos de carbono e nitrogênio também poderiam estar relacionadas às taxas de obesidade, mais altas entre as pessoas mais pobres.

Em um comunicado da Universidade de Utah, Ehleringer argumenta que a análise do cabelo pode ser uma maneira mais adequada do que as pesquisas habituais para se conhecer a dieta da população. “Esse tipo de avaliação não é influenciado por lembranças pessoais ou falsas, que se refletiriam nas pesquisas de dieta. Como uma medida integrada e de longo prazo da dieta de um indivíduo, essa avaliação poderia ser usada para entender as escolhas alimentares de pessoas de diferentes faixas etárias e estratos socioeconômicos”, diz Ehleringer. Embora o que o pesquisador de Utah sugere faça sentido, a comparação entre os resultados de pesquisas para conhecer a dieta das pessoas e a análise isotópica de seus cabelos não deixa mal as primeiras. Em um estudo japonês de 2016, observou-se uma correlação significativa entre os resultados oferecidos pelos dois métodos.

Métodos como os que Ehleringer e Cerling ajudaram a desenvolver também serviram para a compreensão da dieta de indivíduos com os quais não era possível realizar entrevistas, como os seres humanos que morreram dezenas de milhares de anos atrás ou os bonobos e os chimpanzés. Entre estes últimos animais, como entre os clientes das barbearias de Salt Lake City, os isótopos do cabelo falam de diferenças sociais. Entre os chimpanzés, pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, na Alemanha, observaram que alguns poucos machos adultos consumiam uma quantidade significativa de carne em vez de se aterem às frutas e outros frutos que fazem parte da dieta para as fêmeas, os jovens e os machos menos dominantes.

Entre os bonobos, que, com os chimpanzés, são os animais mais próximos dos humanos, o status social também foi observado em seus pelos. Os jovens têm menos quantidade de nitrogênio, algo que seria explicado porque, em razão da posição inferior que ocupam no ranking de seu grupo, não costumam ser incluídos na repartição de carne. O cabelo revela que as diferenças sociais acompanham os ancestrais humanos há milhões de anos.

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