A democracia europeia está viva

O aumento da participação, a mais alta dos últimos 20 anos, mostra que a Europa interessa e mobiliza

Anúncio exibido por europeístas na área externa do Parlamento Europeu, em Bruxelas.
Anúncio exibido por europeístas na área externa do Parlamento Europeu, em Bruxelas.BART BIESEMANS / REUTERS

A Europa interessa. Mobiliza. Isso foi demonstrado pelo aumento da participação neste domingo nas urnas. A mais alta dos últimos 20 anos. A democracia vive do confronto e do conflito. Na realidade, é o sistema que serve para organizar o confronto e o conflito e transformá-los em governos e políticas.

Só se vota quando cada voto conta. Nunca se havia ido votar na Europa em um clima de tanto pessimismo e até de incerteza sobre o futuro da União Europeia, com um dos parceiros, o Reino Unido, em processo de incerto divórcio, e a consolidação em quase todos os países de formações de extrema direita, hostis às transferências de soberania para Bruxelas.

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São dois os impulsos que levaram os cidadãos às urnas com maior intensidade do que em ocasiões anteriores. De um lado, a polarização induzida pela maré nacionalista e populista, especialmente forte na França e na Itália, países onde as formações de extrema direita são a primeira força. Por outro, o surgimento de um voto jovem e ambientalista, que foi expresso muito claramente na Alemanha, e colocou os Verdes como o segundo partido, superando a socialdemocracia, e na França, como o terceiro, acima das duas grandes formações do passado, Os Republicanos e o Partido Socialista.

Também aumentou a fragmentação parlamentar, especialmente intensa graças a ambos os impulsos centrífugos. As duas formações que constituíram as maiorias historicamente, populares e socialistas, deverão contar com os liberais ou com os Verdes, e inclusive com ambos, para a formação de maiorias parlamentares e, principalmente, para a seleção e nomeação dos altos cargos das instituições europeias.

O anti-europeísmo das diferentes formações da extrema direita em ascensão tomou um novo rumo, expresso na campanha eleitoral e resultado das dificuldades britânicas para completar o Brexit. Esses partidos já não querem deixar a União Europeia, mas tirar proveito de seus orçamentos e meios para mudá-la e até destruí-la por dentro.

Esse anti-europeísmo pesará e contará, mas dificilmente terá cadeiras suficientes para bloquear a atividade parlamentar. Entre outras razões, pelas divisões que dificultarão sua convergência em um único grupo, especialmente entre liberais e intervencionistas, pró-russos e antirrussos, e em alguns casos até mesmo por suas atitudes diferentes em relação aos Estados Unidos e Israel. A personalidade política mais castigada nestas eleições é o presidente francês, Emmanuel Macron, superado em votos por Marine Le Pen e enfraquecido, portanto, em suas intenções de liderar a atual etapa da construção europeia. Também ficou desgastada a grande coalizão que governa a Alemanha, cujos dois componentes somados, CDU-CSU e SPD, perdem quase 20 pontos. A dupla franco-alemã, que é tradicionalmente o motor da construção europeia, sai exaurida das eleições de domingo.

Matteo Salvini, o líder da Liga, aspira a se tornar o mais premiado nas urnas. Um prêmio com o qual pode lutar para encabeçar o Governo, graças ao sorpasso do Cinco Estrelas, e assim constituir uma voz poderosa no próprio Conselho Europeu, onde já estão dois governos de extrema direita como o polonês e o húngaro. Apesar de seu êxito, Salvini está aquém em seus propósitos de liderar uma forte oposição antieuropeísta em Bruxelas.

O euroceticismo e o nacionalismo populista levaram os cidadãos às urnas com mais força do que em outras ocasiões. Fica a dúvida de saber se uma presença fortalecida desse europeísmo anti-europeu nas instituições será um estímulo ou um novo freio. Mas isso já não dependerá dos eleitores.

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