Facebook compartilhou dados sensíveis de usuários com mais de 150 grandes empresas

Nova investigação de 'The New York Times' revela o trato com tecnológicas enquanto a rede social defendia a privacidade

Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, prestes a depor no Senado dos Estados Unidos em abril.
Mark Zuckerberg, presidente executivo do Facebook, prestes a depor no Senado dos Estados Unidos em abril.AFP

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O Facebook compartilhou os dados de seus usuários com mais de 150 empresas. Apple, Amazon, Microsoft, Netflix e Spotify aproveitaram diferentes acordos com o Facebook para usar os dados de seus usuários em vários serviços. Enquanto o Facebook cortava o acesso a aplicativos como o Cambridge Analytica, que reuniu dados de usuários para tentar influenciar as eleições de 2016, oferecia tratamento prioritário para outras grandes empresas de tecnologia em acordos que ainda estavam ativos em 2017.

Em troca, o Facebook obteve informações mais detalhadas de seus usuários, que usava, por exemplo, para promover sua função "Pessoas que talvez você conheça", que sugeria pessoas conectadas ao usuário em outras plataformas.

As revelações vêm de uma nova investigação do The New York Times, que analisou 270 páginas de documentos internos e falou com mais de 50 empregados e ex-empregados do Facebook, além de funcionários de outras empresas.

A novidade evidencia a falta de preocupação no Facebook com a segurança dos dados de seus usuários. De acordo com essas revelações, eles nunca foram a prioridade da empresa, mas sim um instrumento para continuar crescendo. Agora, o Facebook tenta anular, corrigir ou retocar acordos passados, além de fazer declarações bombásticas: a privacidade é "o fundamento da nossa empresa", disse há menos de uma semana Carolyn Everson, vice-presidenta de Marketing, na abertura de uma loja temporária em Nova York sobre, precisamente, privacidade. Esses gestos visam disfarçar que o pilar dos negócios da empresa se baseia em traficar dados, e será mais complicado compartilhá-los a partir de agora. É uma nova era para todos os gigantes digitais.

Os acordos do Facebook com outras empresas eram de três tipos. Primeiro, com fabricantes de aparelhos, que chamavam de "integração". O próprio Times já havia revelado em junho a existência desses acordos, que remontam a antes da criação de um aplicativo do Facebook para celular. O Facebook também permitia o acesso aos dados do usuário sem o seu consentimento explícito. No entanto, a integração do Facebook aos sistemas operacionais dos dispositivos exigia o compartilhamento de dados, de modo que isso era até certo ponto inevitável.

Em segundo lugar, por um recurso chamado "personalização instantânea". Aplicativos como o buscador Bing, da Microsoft, ou sites de críticas de restaurantes, Yelp, ou de cinema, Rotten Tomatoes, tinham acesso aos dados de amigos do Facebook para ver o que haviam dito de tal filme, o que tinham pesquisado ou se haviam feito comentários sobre um restaurante. Esta função foi lançada em 2010 e encerrada em 2014, embora o Bing, o serviço de streaming de música Pandora e o Rotten Tomatoes continuassem a ter acesso aos dados.

E em terceiro, havia acordos específicos com empresas. O texto do Times não deixa muito claro os benefícios concretos do Facebook nesses acordos, além de "conseguir mais usuários" ou detalhes sobre suas atividades em outras plataformas, mas as concessões a seus parceiros eram notáveis. O Spotify e a Netflix podiam integrar as mensagens do Facebook em suas plataformas para compartilhar músicas ou recomendar séries, mas isso também lhes dava acesso a ler mensagens privadas dos usuários. Agora todos correm para limitar os danos. A Netflix, em uma declaração a The Verge, admitiu que entre 2014 e 2015 ofereceu essa opção por intermédio do Messenger, mas "em nenhum momento tivemos acesso a mensagens privadas de pessoas no Facebook nem pedimos a capacidade de fazer isso”.

A Amazon também tinha um desses acordos para conhecer os amigos e seus dados de contato. A empresa de Jeff Bezos não revelou o objetivo do acerto, mas disse que tratou todos os dados "corretamente". Em 2015, a Amazon suprimiu a resenha de um romance feita por um usuário porque violava as condições do serviço. O motivo que a Amazon lhe deu foi que ele conhecia o autor do romance, algo que só era verdade porque ele o seguia em uma página no Facebook. A revelação nos permite imaginar que a Amazon tinha a opção de cruzar resenhas com dados do Facebook para eliminar resenhas que suspeitava terem sido escritas por um amigo do autor.

O Facebook insistiu várias vezes em que "não vendia" os dados dos usuários e que as permissões para essas trocas de informações eram legais. Embora também afirme que se confundiu e alguns desses acordos com outras empresas permaneceram acessíveis anos após o seu final. Mas o padrão de comportamento é sempre o mesmo: a privacidade não é a prioridade. É algo que explodiu em 2018, muito depois de anos de uso indevido. O Facebook tem agora um grave problema de marca que pode chegar a afetar o produto.

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