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Abatido por bolsonarismo, PSDB se engalfinha e libera filiados no segundo turno

Partido não deve apoiar Bolsonaro nem Haddad, mas filiados estão livres para definir suas próprias alianças. Candidato do PSL ganhou em todos os Estados em que os tucanos disputam segundo turno

O ex-governador Geraldo Alckmin
O ex-governador Geraldo Alckmin, no dia 30 de setembro. REUTERS

Os pífios resultados e a perda de eleitores para o PSL de Jair Bolsonaro abriram uma crise sem precedentes no PSDB, que nesta terça-feira decidiu a posição que o partido vai seguir no segundo turno das eleições presidenciais. Em um encontro tenso em Brasília e marcado por bate-bocas, os dirigentes tucanos decidiram liberar seus filiados e candidatos a escolher se apoiam Bolsonaro ou Fernando Haddad (PT), ou ainda se declaram neutralidade no embate eleitoral final. Enquanto a ala moderada de fundadores do partido, de matriz social-democrata, defendia a neutralidade no segundo turno, os chamados "cabeças pretas", grupo de lideranças mais jovens e alinhados com o tom radical do capitão reformado do Exército, pressionaram pelo apoio a Bolsonaro. De fato, a balança pende para a candidatura de extrema direita. Entre os seis tucanos que disputam um segundo turno para governador, a tendência é que eles fechem com o capitão reformado do Exército ou fiquem neutros. Afinal, nesses seis Estados —São Paulo, Roraima, Rondônia, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais— Bolsonaro foi o presidenciável mais votado.

"Não apoiamos nem PT nem o candidato Bolsonaro", declarou o candidato derrotado à Presidência Geraldo Alckmin, que disse também que o posicionamento é coerente com a linha que sua candidatura adotou na campanha. "Já vínhamos pontuando que os extremos não são a solução", disse ele. Na segunda, o fundador do partido e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também disse que não apoiaria nenhum dos dois, mas deixou a porta aberta para apoiar Haddad.

Na reunião do partido, em Brasília, nem todos seguiram Alckmin. "Eu já falei que, mesmo com todas as dúvidas, o PSDB não pode participar da volta do PT ao poder", declarou o deputado Nilson Leitão, atual líder da legenda na Câmara. "Apoiar o Bolsonaro é evitar o retorno do PT".

O maior expoente do campo bolsonarista dentro do PSDB é João Doria, o recém-chegado no partido que é candidato ao Governo de São Paulo. Já na noite da apuração, ele anunciou que apoiaria o presidenciável do PSL. "Tenho lado. Tenho posição. PT não! A partir de agora, apoiarei Jair Bolsonaro e venceremos o segundo turno. Vamos lutar para a esquerda não voltar!", declarou em seu Twitter.

"Traidor eu não sou"

A declaração ajudou a esquentar os ânimos de vez entre Doria e Alckmin. "Traidor eu não sou". Foi assim que Alckmin respondeu ao seu ex-afilhado político e ex-prefeito de São Paulo no momento mais tenso da reunião das lideranças tucanas nesta terça.

Os embates entre Doria e Alckmin dão o tom do abatimento dos tucanos com os resultados eleitorais. Se a onda Jair Bolsonaro varreu o país no último domingo, com exceção dos redutos eleitorais do PT no Nordeste, foi no PSDB que ela causou os maiores estragos. Não só Alckmin obteve apenas 4,76% dos votos válidos como a bancada tucana na Câmara Federal minguou: em 2014, o PSDB havia eleito 54 deputados. No domingo, fez apenas 29 e perdeu espaço justamente para o PSL de Bolsonaro.

O bate-boca entre Doria e Alckmin ocorreu no momento em que Doria, que disputa o segundo turno das eleições para o Governo de São Paulo, exigia uma autocrítica da direção do partido diante da derrota. Nesse momento, Alckmin deixou de lado o seu tom mais comedido e acusou o correligionário de ter sido um dos entusiastas da entrada do PSDB no governo Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff. "Temerista não era eu, era você", disse Alckmin. O embarque dos tucanos na administração do emedebista é apontada como um dos principais motivos do desgaste do PSDB junto ao eleitorado. Talvez por isso, Alckmin também adiantou nesta tarde que o PSDB será oposição no próximo governo ganhe quem ganhar.

O uso da palavra "traidor" não é por acaso. Ao longo do primeiro turno, Doria nunca se empenhou na candidatura de Alckmin. Na medida em que o ex-governador não decolava nas pesquisas, o ex-prefeito deixou de participar de eventos da campanha do seu padrinho político. Adotou um discurso muito mais alinhado com o de Bolsonaro do que com o de Alckmin, tanto que em São Paulo criou-se uma um termo próprio para esse fenômeno: o voto bolsodoria.

O racha criou fissuras dentro da própria estrutura partidária do tucanato. O prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, defendeu nos últimos dias que Alckmin deixe a presidência do PSDB, mesmo que seu mandato só termine no final do ano que vem. O ex-governador não quis comentar: "Não faço política pela imprensa".

O grupo liderado por Doria acredita que o estilo moderado e pouco enfático de Alckmin foi fundamental para a derrocada do partido. Avaliam, por exemplo, que a legenda deveria se adaptar ao novo perfil do eleitor de direita no Brasil e abraçar bandeiras "linha dura" na área de segurança pública. O próprio Doria verbalizou esse ponto durante o primeiro turno, ao dizer que, em seu governo, a polícia iria "atirar para matar" em casos de enfrentamento. Nilson Leitão, por sua vez, diz que é a favor de penas mais duras para casos de invasão de terra no País e pede a redução da maioridade penal.

O avanço dos "cabeças pretas" tenta ser contido principalmente por membros históricos da legenda. Eles argumentaram que formalizar apoio a Bolsonaro traria ainda mais prejuízos ao partido. Lembraram ainda que o presidenciável do PSL cresceu justamente numa onda contestação do sistema político, do qual o PSDB é um dos maiores expoentes. Em São Paulo, por exemplo, o endosso de Doria a Bolsonaro não foi retribuído. O senador eleito Major Olímpio, um dos homens de mais confiança do candidato do PSL, já afirmou que não haverá qualquer apoio do presidenciável a Doria. "Era capaz de nós declararmos apoio ao Bolsonaro e ele renegar esse apoio", desabafou um parlamentar do partido nesta terça.

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