Rotas Urbanas

Arte, música e ‘donuts’ no metrô de Nova York

Mosaicos em plataformas, a estação de Calatrava e um museu numa parada em desuso. Uma rota subterrânea

Retrato de Lou Reed feito pelo artista Chuck Close na estação da rua 86, em Manhattan.
Retrato de Lou Reed feito pelo artista Chuck Close na estação da rua 86, em Manhattan.Gary Hershorn (Getty Images)

Poucas coisas são mais nova-iorquinas que sua complexa rede de metrô. Se quisermos nos deslocar pela cidade eficazmente, vamos precisar passar um bom tempo embaixo da terra. E diariamente. Mas também é possível integrar o metrô aos nossos planos como uma atração a mais. Aqui vão algumas pistas.

Lou Reed na rua 86

Dada a quantidade de horas que os nova-iorquinos dedicam a viajar sob a terra, a Autoridade Metropolitana de Transporte (MTA) dotou o metrô de uma boa quantidade de obras de arte para o desfrute de todos. Por sua qualidade, muitas delas poderiam ser exibidas em museus de arte contemporânea. Os exemplos mais espetaculares, inaugurados em 2017, encontram-se ao longo da linha Q, no seu percurso pelo Upper East Side, acompanhando no subsolo o traçado da Segunda Avenida junto a alguns dos principais museus da cidade: o Metropolitan e o Guggenheim, entre outros. O mosaico e os ladrilhos são as principais formas de ornamentar o metrô da urbe norte-americana. Aguçando a vista, veremos com frequência elaborados frisos que indicam o nome das estações e que adornam as plataformas. É na rua 96 que o descomunal mural de azulejos de Sarah Sze, intitulado Blueprint for a Landscape, se transforma na epítome dessa forma artística. Seguem-no bem de perto os retratos à base de ladrilhos concebidos por Chuck Close na estação da rua 86: o grande rosto de Lou Reed nos saúda do saguão, assim como o do próprio Chuck Close, elaborado em mosaico. Cada fio da barba é composto por um fragmento diferente de pedra cinza.

Esculturas de Tom Otterness na estação de metrô da rua 14 com a Oitava Avenida, em Nova York.
Esculturas de Tom Otterness na estação de metrô da rua 14 com a Oitava Avenida, em Nova York.Alessandra Pezzotta (Alamy)

As figuras em escala real do brasileiro Vik Muniz (parte de seu projeto Perfect Strangers) aparecem constantemente nas selfies de quem passa pela estação da rua 72. São personagens anônimos elaborados com ladrilhos, de uma jovem médica até um sujeito vestido de tigre de pelúcia que segura na mão a cabeça da fantasia. Por último, Jean Shin homenageia os transeuntes da Nova York dos anos vinte e quarenta em Elevated, uma série de dioramas de mosaico e vidro instalados na estação da rua 63.

Um músico na estação Union Square, em Nova York.
Um músico na estação Union Square, em Nova York.Barcroft Media (Getty Images)

Shows na Times Square

Quem disse que para comer e beber bem é preciso subir à superfície? Na Columbus Circle, no extremo sudoeste do Central Park, encontra-se o Turnstyle Underground Market, um pequeno centro comercial e gastronômico onde comprar presentes e provar especialidades. Sob a Oitava Avenida, entre as ruas 57 e 58, o 16 Handles × Mochidoki serve mochi (bolinho de farinha de arroz) em sua versão gelada, com sabor de gergelim, pistache e outras delícias. Os donuts genuínos, fritos na hora e mais semelhantes à nossa ideia de rosquinha por seu pequeno tamanho e sua textura, são vendidos no Doughnuttery. Um espaço doce com sete acessos, onde se pode entrar sem precisar usar um bilhete de metrô.

Se da Columbus Circle percorremos duas paradas na linha 1 rumo ao sul desembarcamos nessa sala de espetáculos subterrânea que é a estação da Times Square. Lá pode ser vista a maior parte dos músicos que compõe o programa Music Under New York (MUNY), com a participação de bandas e intérpretes de todos os estilos, sempre de grande nível.

Interior do Oculus, projetado por Santiago Calatrava, em Nova York.
Interior do Oculus, projetado por Santiago Calatrava, em Nova York.Massimo Borchi (Getty Images)

The Oculus

Mais ao sul, na altura da rua 14, na estação onde confluem as linhas L, A, C e E, aparecem pelos cantos simpáticos bonequinhos e jacarés de bronze criados pelo artista Tom Otterness. Alguns deles, com suas cabeças em forma de sacos cheios de dólares, advertem à sua maneira para os perigos do capitalismo e das dificuldades da vida em uma megalópole como Nova York.

Se lá mesmo tomarmos a linha E até a estação do World Trade Center, saímos no The Oculus, um espaço projetado pelo arquiteto Santiago Calatrava que abriga um shopping center e um terminal de transportes. Por um momento teremos a impressão de estar dentro do esqueleto de um diplodoco, cuja espinha dorsal seria a claraboia no alto. Embora possamos ficar boquiabertos, alguns nos lembrarão que o preço elevado do projeto – 3,7 bilhões de dólares – causou polêmica entre os habitantes da cidade.

Um vagão de metrô de 1932 no Museu do Trânsito de Nova York.
Um vagão de metrô de 1932 no Museu do Trânsito de Nova York.Steven Greaves (Getty Images)

Um museu no Brooklyn

Depois de tanto metrô, o que seria melhor do que compreender sua evolução num museu dedicado aos transportes nova-iorquinos? Trata-se do Transit Museum, situado subterraneamente numa antiga estação do Brooklyn hoje em desuso. A visita é um plano ideal para famílias, pois as crianças (e os adultos) podem subir em reproduções de ônibus e em vagões de metrô de diferentes décadas do século XX. O museu nos ensina muitas outras coisas; por exemplo, o trabalho dos empregados do transporte subterrâneo nova-iorquino em momentos de crise para a cidade, como o 11 de Setembro e o furacão Sandy. Como não poderia deixar de ser, tanto na saída como no seu anexo, situado na estação Grand Central (na passagem do Shuttle), podem-se comprar canecas, camisetas, chaveiros, sacolas de tecido e mil outros souvenires do metrô e dos ônibus nova-iorquinos.

Mercedes Cebrián é autora da coletânea de poemas ‘Malgastar’ (editora La Bella Varsovia).

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