Nasa

Sonda ‘Parker’ inicia sua viagem de sete anos para chegar ao Sol

Durante sua maior aproximação à estrela, a nave estará a mais de cem milhões de quilômetros da Terra

O foguete Delta IV Heavy, com a sonda dentro, voa em direção ao Sol, hoje no Cabo Canaveral / No vídeo, momento em que a NASA lança a sonda Parker. (ATLAS) NASA/BILL INGALLS / HANDOUT EFE NASA/BILL INGALLS / HANDOUT EFE

Mais informações

Há sessenta e cinco anos, em seu curto conto As Maçãs Douradas do Sol, Ray Bradbury já descreveu a primeira expedição humana para obter uma amostra de nossa estrela. Pouco antes de decolar, o capitão ordena fixar o rumo em direção ao sul. A surpresa tripulação se queixa: “Mas capitão, no espaço não existem pontos cardeais”. Ao que ele responde: “Quando sua viagem te leva a regiões cada vez mais quentes e a temperatura aumenta dia a dia e o Sol está cada vez mais alto no céu você vai em direção ao Sul...”.

Nesse domingo, uma nave robô – a sonda solar Parker – muito diferente do que imaginou Bradbury decolou do Cabo Canaveral rumo ao sul. O mais ao sul jamais alcançado por um veículo espacial.

A viagem será longa. Contra todas as aparências, cair em direção ao Sol exige um gasto de energia muito, muito maior do que – por exemplo – ir a Marte. A razão é que a Terra gira em sua órbita muito depressa, a 100.000 Km/h; para chegar aos planetas interiores (Vênus e Mercúrio) e, evidentemente, perto do Sol, um veículo espacial precisa perder, e não ganhar, velocidade. Nesse caso, a sonda Parker deverá reduzir em quase 80% essa velocidade.

Não existe foguete capaz de exercer uma frenagem tão intensa. Por isso, a sonda seguirá uma trajetória que a fará passar sete vezes à pouca distância de Vênus. Normalmente, esse tipo de aproximação é feito para ganhar velocidade, como no caso em que se utiliza a atração de Júpiter para se dirigir aos confins mais remotos do Sistema Solar. Dessa vez, pelo contrário, Vênus servirá de freio. O que forçará com que a trajetória da Parker se transforme em uma elipse muito alongada, cujo extremo se aproximará cada vez mais do Sol. A altura mínima (ridículos 4 milhões de quilômetros) será alcançada em 2025.

Como é possível que a sonda não seja fundida? Principalmente graças ao seu escudo protetor, feito de fibra de carbono e capaz de resistir a temperaturas próximas aos 2000 graus. Além disso, está instalado com uma separação de quase um metro do restante dos equipamentos. Um metro de vazio é um ótimo isolante; enquanto nenhum instrumento sair da sombra projetada pelo escudo, podem se manter a confortáveis 35 graus.

Durante sua maior aproximação ao Sol, a Parker estará a mais de cem milhões de quilômetros da Terra. Nessa distância, o atraso nas comunicações será medido em minutos e, portanto, é impossível controlar sua posição com agilidade suficiente. Precisará ser autônoma e para isso leva uma série de sensores instalados logo atrás do escudo. Quando um deles detectar uma iluminação direta, pequenos motores se encarregarão de corrigir a posição para que a sombra da tela volte a proteger os equipamentos a bordo.

Os painéis fotoelétricos foram projetados de maneira que durante o periélio se escondam na sombra. É um modelo novo, refrigerado por um circuito de água à pressão, como o radiador de um carro. Mas nem com toda essa proteção poderiam resistir a poucos segundos de exposição ao calor do Sol em uma distância tão pequena. Só serão abertos quando sua órbita alongada a levar longe do perigo e o escudo esfriar antes do próximo mergulho.

Nosso Sol é a única estrela que pode ser estudada de perto. E possui alguns mistérios cuja origem se remonta a mais de um século e meio atrás. Como o paradoxo da coroa: Por que nessa região que corresponde à alta atmosfera do Sol o gás – muito tênue – está a milhões de graus de temperatura, enquanto na “superfície” somente chega a modestos 6.000 graus? O mecanismo que explica essa surpreendente transferência de energia continua sendo desconhecido. Talvez quando por fim completar sua viagem de sete anos a Parker ajude a desvendá-lo.

Rafael Clemente é engenheiro industrial e foi o fundador e primeiro diretor do Museu da Ciência de Barcelona (atual CosmoCaixa).

Debido a las excepcionales circunstancias, EL PAÍS está ofreciendo gratuitamente todos sus contenidos digitales. La información relativa al coronavirus seguirá en abierto mientras persista la gravedad de la crisis.

Decenas de periodistas trabajan sin descanso para llevarte la cobertura más rigurosa y cumplir con su misión de servicio público. Si quieres apoyar nuestro periodismo puedes hacerlo aquí por 1 euro el primer mes (a partir de junio 10 euros). Suscríbete a los hechos.

Suscríbete