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Ciro defende Marília Arraes e mira eleitor “constrangido” com o PT

“Tirar alguns segundos de mim cortando o pescoço de uma jovem mulher pernambucana politizada, eu acho de uma violência”, diz cearense em São Paulo

Ciro Gomes na convenção do PDT, em 20 de junho.
Ciro Gomes na convenção do PDT, em 20 de junho.

Derrotado em sua tarefa de atrair o PSB para sua candidatura, Ciro Gomes partiu para um discurso mais fortemente ideológico para tentar conquistar um eleitor de esquerda, especialmente aquele que ele julga estar decepcionado com o PT. Na quarta-feira em Brasília, o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que sacrificaria candidaturas próprias em quatro Estados - Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Amapá – em troca da neutralidade do PSB, anulando assim, uma possível aliança dos socialistas com o pedetista. Naquela noite, Ciro Gomes afirmou, sereno, em entrevista à GloboNews, que ainda não havia sido comunicado da decisão do PSB, numa sinalização de que restava alguma esperança de reverter a derrota. Mas, nesta quinta-feira, em São Paulo, ele parecia mais conformado e com disposição para o ataque. Chamou o acordo de “golpismo” e de “facada nas costas”.

Em um hotel na região da avenida Paulista, falou com a imprensa por breves dez minutos antes de participar de um debate sobre os desafios para o próximo governo promovido pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco). Armado, anunciou que “nunca quis” o apoio do PT, que a possibilidade de ser vice em uma chapa com petistas era uma “aberração” e disse que pretende atrair eleitores do partido de Lula que estão decepcionados depois do que aconteceu. “Quero falar com o eleitorado simpatizante do PT”, afirmou. “Que não é de cabresto. Eles pensam que é, mas é o melhor eleitorado brasileiro e que deve estar hoje muito constrangido com o que a sua burocracia tem feito”.

O discurso talvez seja a única munição do PDT para atrair esse eleitor. Figurando em terceiro lugar nas pesquisas, a campanha de Ciro vive a escassez: tem pouco tempo na TV, pouco dinheiro e pouca representatividade nas redes sociais, principal ferramenta de mobilização de Jair Bolsonaro (PSL), que também contará com pouca participação na televisão.

Por isso, tentando capitalizar a frustração petista, principalmente no Nordeste, o pedetista falou três vezes da situação de Marília Arraes (PT) em Pernambuco. A neta de Miguel Arraes deverá ter sua candidatura ao governo do Estado anulada em troca do apoio do PT à reeleição do governador Paulo Câmara (PSB). O caso de Marília é o mais simbólico, já que ela teria chances de vencer a eleição e promete não desistir tão fácil. Sabendo de seu capital político, Ciro foi enfático. “O que essa moça tem a ver com isso? Ela merecia pagar esse preço? Será que o povo politizado de Pernambuco vai engolir essa providência golpista? Ninguém pode falar em golpe e praticar o golpe”, disse. Depois, chamou o acordo de “uma violência contra uma jovem”. “Tirar alguns segundos de mim cortando o pescoço de uma jovem mulher pernambucana politizada, neta do Miguel Arraes, eu acho de uma violência que, na minha longa estrada, nunca vi coisa igual”, disse.

Enquanto Ciro tentava demonstrar sua preocupação com Marília à imprensa, em Pernambuco a petista discursava durante o encontro estadual do PT. “A nossa candidatura é uma necessidade de resgatar a esquerda para um protagonismo político de Pernambuco”, disse. “E não uma falsa esquerda, uma falsa esquerda que vira para o lado da direita quando é oportuno e quando é melhor volta para a esquerda como se nada tivesse acontecido”, afirmou sob aplausos. Opositora ferrenha do governador, Marília alfinetou: “Não adianta tentar unir a esquerda por meio de chantagem, que é o que o PSB está fazendo. O PSB chantageia o PT pedindo para tirar uma candidatura que hoje faz parte da realidade da política de Pernambuco”.

Silêncio no PSB

A grande preocupação de Ciro ou de Marília parece não ter atingido o PSB. Em silêncio desde ontem, o partido não só não confirmou nada a Ciro Gomes, como também o diretório nacional não se pronunciou até o momento sobre ter aceitado – ou não - a oferta do PT. “Pior que uma decisão errada é não ter decisão”, criticou o presidente do PDT, Carlos Lupi.

O único diretório que se pronunciou até o momento foi o de Minas Gerais. Por meio de nota, os mineiros afirmaram que “a Direção Estadual do PSB tem entendimento contrário a essa decisão” de apoiar a candidatura à reeleição de Fernando Pimentel (PT) ao governo do Estado, abrindo mão de Márcio Lacerda (PSB).

Há cerca de um mês, Ciro Gomes disse ao EL PAÍS durante breve passagem por Pernambuco que o apoio do PSB à sua candidatura era “praticamente a garantia da eleição”. Naquele dia, ele havia se reunido com o governador Paulo Câmara e o prefeito do Recife Geraldo Júlio, ambos do PSB, para pedir apoio. Agora, na iminência de um possível isolamento, o PDT reage afirmando que ainda espera pelos socialistas. “Depende só deles”, afirmou nesta quinta-feira, por telefone, Lupi.

Mas, a jornalistas, Ciro reagiu naturalmente sem essa diplomacia do presidente de seu partido. “Esse negócio de barganhas subalternas me enoja”, respondeu, ao ser questionado o que o PDT teria para oferecer em troca de um apoio do PSB. “Esse comportamento está na base moral da corrupção”. Com os dedos das duas mãos, ostentou que já teria o apoio de ao menos oito diretórios estaduais do PSB. Mas não deixou de criticar os socialistas. “Esse jogo é chocante não porque o PSB está apoiando o PT, mas porque o PSB saiu da eleição, aceitou o constrangimento de se omitir do debate nacional”.

Em pouco mais de dez minutos de desabafo, Ciro Gomes, que tinha como possível vice o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB) - que agora pode ser candidato ao Senado em uma chapa com o PT em Minas gerais – tentou se mostrar tranquilo, afirmando ter um plano B. “Eu tenho um backup”, afirmou, sem revelar quem seria.

Ao final do evento, disse a uma plateia quase cheia: “Não vamos desistir do Brasil”. A frase foi a última declaração feita publicamente pelo candidato Eduardo Campos (PSB), em 2014, um dia antes de sofrer um acidente aéreo fatal. Virou o lema da campanha do PSB depois.

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