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Mercosul e Aliança do Pacífico ensaiam acordo contra protecionismo de Trump

Os dois blocos aprofundam suas relações econômicas com vistas a um mercado que representa 85% do PIB da região

Presidente Michel temer cumprimenta Enrique Peña Nieto, seu homólogo mexicano.
Presidente Michel temer cumprimenta Enrique Peña Nieto, seu homólogo mexicano. EFE

A América Latina está se aproximando da integração de seus dois principais blocos comerciais. Os presidentes da Aliança do Pacífico, formada por Chile, Colômbia, México e Peru, assinaram nesta terça-feira um plano de ação com medidas concretas e prazos que os encaminha para a integração regional e de livre comércio com o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). Esse primeiro passo dado pelos oito países em Puerto Vallarta, Jalisco, aponta para a formação de um mercado que concentra 79% da população da América Latina e 85% do PIB da região.

“O Mercosul e a Aliança do Pacífico não são sistemas idênticos em seus formatos e conteúdos. Tampouco são incompatíveis ou excludentes. Se engana quem diz que o são”, afirmou o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, um dos dois líderes do bloco sul-americano presentes no México, ao lado do brasileiro Michel Temer. A declaração do presidente lançou novamente pontes entre os dois grupos que se cortejam há anos, mas cuja aproximação começou a tomar forma no ano passado. “Enviamos ao mundo um sinal claro de que, juntos, promoveremos a integração regional e o livre comércio”, disse o presidente do México, Enrique Peña Nieto, que entregou a presidência pro tempore do bloco pacífico ao peruano Martín Vizcarra. Vázquez, o único presidente de esquerda presidente presente na cúpula, disse que a integração não é uma varinha mágica capaz de resolver os problemas, mas que poderia servir como instrumento para combater a pobreza, um dos principais problemas da região.

O documento assinado nesta terça-feira entre os blocos é um plano de ação que promove o comércio de bens e incentiva as pequenas e médias empresas, além da mobilidade de pessoas. Na noite de segunda-feira o México assinou um acordo de cooperação com o Brasil sobre assuntos aduaneiros. A Aliança também avançou em uma “redução de tarifas” e na formação de uma zona de livre comércio entre os quatro países membros, de acordo com o presidente chileno, Sebastián Piñera. Brasil e Chile também avançaram em uma negociação para um acordo de livre comércio.

O Mercosul nasceu em 1991 com uma ideologia protecionista e liderado pelos motores das maiores economias da América do Sul, Argentina e Brasil. O bloco também incluiu o Uruguai e o Paraguai para formar um mercado de 250 milhões de pessoas. Naquela época, o Brasil e a Argentina produziam tanto quanto a China. Hoje só geram um quinto do que o gigante asiático produz. A paralisia marcou durante muitos anos a dinâmica do Mercosul e obrigou seus membros a olhar para fora. Isso começou a se cristalizar com a guinada à direita que deram os Governos do argentino Mauricio Macri e do brasileiro Michel Temer, o que injetou dinamismo ao grupo. Um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) afirma que as exportações do Mercosul cresceram 13,8% em 2017.

Essas condições colocaram o Mercosul e a Aliança do Pacífico em sintonia. “Agora há condições concretas e reais para alcançar a integração”, disse Roberto Ampuero, ministro das Relações Exteriores chileno, em Puerto Vallarta nesta terça-feira. A famosa integração do bloco, disse o ministro do presidente Piñera, está agora mais perto de deixar de existir apenas no papel graças à vontade política que existe nos oito líderes. “Vemos com muito interesse o trabalho em conjunto e estamos confiantes de que vamos avançar muito rapidamente”, disse o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, na abertura da XIII cúpula da Aliança. “Renunciar ao possível, além de um erro, seria uma irresponsabilidade”, disse Vázquez, em seu papel de presidente do Mercosul.

Protecionismo como oportunidade

A janela de oportunidade foi ampliada pelas medidas protecionistas que Donald Trump impôs nos Estados Unidos e pela guerra comercial que iniciou com a China. “Estamos em um mundo totalmente diferente, com novas ameaças, como o protecionismo. Se as advertências do presidente Trump forem cumpridas, as tarifas voltarão aos níveis dos anos setenta. Não estamos falando de uma época distante, estamos falando de algo que está diante dos nossos olhos”, disse na noite de segunda-feira o presidente chileno, Sebastián Piñera, para incentivar seus colegas a incluir mais países no bloco comercial. A Aliança do Pacífico poderia acrescentar no fim do ano, como Estados associados, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Cingapura. O bloco também recebeu pedidos do Equador e da Coreia do Sul para se juntar ao grupo.

Juan Manuel Santos lembrou que quando o bloco comercial começou, em 2011, os quatro países promoviam, entre seus princípios, o livre comércio, a propriedade privada, a democracia e a integração regional. “Querem enfraquecer as relações multilaterais para trazer de volta relações bilaterais”, disse em referência ao protecionismo de Trump. “Isso pode ser aproveitado pela Aliança porque pode se tornar a antítese do que está sendo feito em todo o mundo atualmente”.

Esta é a última cúpula de Santos e Peña Nieto como presidentes, razão pela qual Piñera e Vizcarra insistiram na necessidade de gerar uma renovação da Aliança do Pacífico com os novos presidentes Andrés Manuel López Obrador, do México, e Iván Duque, da Colômbia. Piñera propôs concentrar esforços em inovação, tecnologia e empreendedorismo. “Tivemos tudo e, no entanto, não conseguimos aproveitar essa oportunidade”, refletiu. O presidente peruano Martín Vizcarra, reconheceu a importância das sinergias econômicas para o crescimento de seu país. “Devemos crescer e devemos fortalecer os mecanismos da Aliança do Pacífico. Esperamos os novos presidentes do México e da Colômbia para relançar a Aliança do Pacífico”, disse.

López Obrador se compromete com o livre comércio

Andrés Manuel López Obrador, que se tornará presidente do México em 1º de dezembro, cancelou na sexta-feira sua participação na cúpula. O menosprezo a um evento no qual havia confirmado presença no início de julho foi abrandado em Puerto Vallarta por futuros membros de seu Gabinete. Graciela Márquez, futura secretária de Economia, disse que o Governo do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) está comprometido com a integração e o livre comércio. O chanceler chileno, Roberto Ampuero, endossou essa postura depois de se reunir com Marcelo Ebrard, o próximo ministro das Relações Exteriores mexicano. “Acreditamos absolutamente na liberdade de comércio e no multilateralismo”, disse Ampuero, referindo-se aos pontos em comum. Ebrard disse que o México continuará no Grupo de Lima e na Aliança do Pacífico durante o mandato de López Obrador.