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Tribuna
São da responsabilidade do editor e transmitem a visão do diário sobre assuntos atuais – tanto nacionais como internacionais

Precisamos aprender a ler como se ouvíssemos música

Não há sentido mais disponível do que a audição e, por isso, não é preciso nenhum esforço da atenção para morrer junto com os violinos, violoncelos, contrabaixos

The Kinks em uma imagem de 1965.
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Profissionais de todas as áreas deveriam, de vez em quando, se interrogar sobre a importância do assunto a que se dedicam. No caso da literatura, a pergunta é bem mais pertinente do que são frequentes os esforços para respondê-la. E o pior: quando nos empenhamos em defender que romances e poemas ainda valem a pena, somos frequentemente hiperbólicos – um claro sintoma de desespero – e parecemos considerar menores outras formas de arte. Mas o objetivo deste artigo não é fazer um mea-culpa bonachão, exaltando todas as artes como igualmente admiráveis. Lamento dizer, mas a música é uma forma artística superior a qualquer outra.

É evidente que essa é uma discussão velha e meio besta, mas há algo de imediato e irresistível na música que nenhuma outra arte compartilha e que vale tomar como um ideal. Não há sentido mais disponível do que a audição e, por isso, não é preciso nenhum esforço da atenção para morrer junto com os violinos, violoncelos, contrabaixos e o próprio Tchaikóvski ao final do último movimento de sua Pathétique. Tampouco é necessário entender inglês para sentir nossa simultânea pequenez e enormidade quando dançamos ao som de This Time Tomorrow, dos Kinks. E, mesmo a compreendendo, ler a letra de Vapor barato não tem nada a ver com o espanto de ouvir Gal Costa cantá-la.

O escritor argentino Jorge Luis Borges começa a penúltima das palestras que deu em Harvard, entre 1967 e 1968, citando uma famosa frase segundo a qual toda arte aspira a ser música. Borges argumenta que a razão para essa superioridade é que a música é composta, de modo indissolúvel, tanto pela estrutura melódica quanto pelos afetos que deram origem a ela e dos afetos que ela desperta.

Eu poderia, com certa dose de lirismo e cafonice, dizer que o mundo seria melhor se fosse feito, todo ele, dessa mesma substância. Desconfio gravemente de quem não gosta de música. Isso significa que sou obrigada a desconfiar de gente como João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos. Aquele, em entrevista, se definiu como um “poeta visual” e afirmou: “Realmente não gosto de música, nunca gostei”. Ríspido, Graciliano, no seu Autorretrato aos 56 anos, entre outras características, enumerou, a respeito de si: “Não gosta de frutas nem de doces./ Indiferente à música.”

O que eles pensariam se soubessem que os movimentos tristes e duros de Paulo Honório articulam, involuntariamente, também o corpo do leitor? Ou que o curso enlameado do Capibaribe – inspiração para o espetáculo atual de Deborah Colker – tem a capacidade de fazer dançar? Em qualquer hipótese, eu diria a eles que a música nem sempre é fluida, e que a dança nem sempre diverte, mas que ambas são vida em estado bruto, esse estado que eles próprios perseguiram em suas obras. Graciliano me chamaria pernóstica, safada, idiota, xingamentos que o narrador de São Bernardo dispensa a um redator que havia “acanalhado” suas memórias, ao tentar transformá-las em “literatura”.

Não consigo evitar pensar que, pela indisponibilidade à conexão afetiva, quem não gosta de música carece de empatia pelo outro (essa qualidade tão ausente nestes tempos de desumanização do diferente!). Mas João Cabral e Graciliano são pontos fora da curva. Ambos construíram obras às quais não falta humanidade – e que despertam o olhar generoso para o desigual. Mesmo sem nenhuma outra razão para isso, prefiro acreditar que eles faziam parte do 1% da população mundial que sofre de amusia, um distúrbio cerebral que impede que o cérebro processe melodias adequadamente.

Há uma coincidência curiosa. Graciliano disse não gostar nem de frutas nem de música. Já Jorge Luis Borges, no poema Nostalgia del presente, escreve: “Que não daria eu pela ventura/ [...] de compartilhar o agora/ como se compartilha uma música/ ou o gosto de uma fruta”. O argentino lamentava lhe caber a sina de produzir “poesia intelectual” – um lamento não infundado, que dá novo gosto à palestra de Harvard, na qual argumenta que, para chegar perto da música, a poesia retorna as palavras ao papel de instrumentos mágicos, o qual tinham ao nascer. A língua não é uma invenção dos dicionários e acadêmicos, diz ele. Não veio das bibliotecas, mas “dos campos, do mar, dos rios, da noite”. Houve um tempo, imagina Borges, em que a palavra “luz” reluzia, e a palavra “noite” era escura.

Produzir esse efeito é o que deseja a literatura, sobretudo a poesia: o significado é algo que se adere ao verso, não a fonte de sua potência: “Sentimos a beleza de um poema antes mesmo de começarmos a pensar em seu sentido”, ele conclui. Concordo – e desconfio de quem lê poemas e romances apenas para extrair deles o significado tanto quanto desconfio de quem não gosta de música. Acho que são pessoas que, quando expostas ao mágico, giram nos calcanhares e fogem correndo.

De qualquer forma, o que entendo como um efeito musical da literatura – a capacidade de ativar nossos corpos à revelia de qualquer esforço racional – não é só mágica. Diversos estudos, nas ciências cognitivas, apontam que, ao lermos ou ouvirmos uma narrativa, são despertadas nos nossos cérebros as mesmas áreas ativadas quando, para valer, realizamos as ações narradas ou sentimos as sensações descritas. É como se, inconscientemente, estivéssemos emulando, em um eco sutil, aquilo que nos é contado. O romancista Daniel Galera conta ter se baseado nesse tipo de descoberta para construir passagens narrativas que, aparentemente desnecessárias, teriam por ambição convocar o corpo do leitor ao universo de seu Barba ensopada de sangue.

Ao considerarmos que temos, cada um de nós, repertórios próprios de movimentos e sensações, e de associações entre uns e outros, percebemos que as consequências desse tipo de efeito sensorial e motor são virtualmente irrastreáveis. Cito a literatura, mas, em toda experiência de arte, estamos, desejavelmente, aqui dentro nos movendo à melodia do outro: compartilhando de suas sensações e de sua subjetividade. Toda arte quer ser música, e toda experiência de arte quer ser dança.

Por que, então, literatura? Por que estudar e defender algo que tantas vezes parece démodé, artificial, elitista? Algo que só raramente, numa conjugação afetiva imprevisível entre texto e leitor, consegue ser música? Ainda não sei, mas amo a imprevisibilidade. E sei reconhecer os momentos em que a literatura não basta. Penso, por exemplo, na perplexidade diante do amor, que aparece nos versos de Adriana Calcanhotto: “Depois de ter você/ poetas para quê?”.

E penso em coisas mais brutais. Logo após dar o título “Literatura ainda?” a uma palestra que faria, fiquei sabendo do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes (há quase dois meses, e ainda sem resolução). Uma pesquisadora de literatura se sente ridícula nesses momentos: não só diante do horror dessas mortes, mas também diante da força indelével de Marielle. Naquele instante, contudo, o título da palestra parecia especialmente pertinente. Literatura ainda? Não precisamos de gestos mais concretos? Sim e, também, de literatura – ainda –, e devemos continuar a entender e explicar por quê. Mas, naquela noite do dia 14 de março, antes de tentar transformar o assombro em gesto, só me restava invejar o sopro com que Caetano Veloso encerra “Tigresa”: como deve ser bom poder tocar um instrumento...

A quem esperava um comentário a respeito da posição política de Borges, digo que não entro nessa discussão. Mas advirto que, dando-se um google em Borges + política, há entradas que levam tanto ao site do ultraliberal Instituto Mises quanto à página do marxista PSTU. Um conselho amigo: não clique em nenhuma delas.

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