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A Europa no espelho

A Europa navega a duas velocidades, abraçando mudanças por um lado, e mantendo o 'status quo' por outro. A mudança amedronta, e os populistas se aproveitaram disso

Em imagem de novembro de 2016, nacionalistas de extrema-direita marcham pelas ruas de Varsóvia, na Polônia.
Em imagem de novembro de 2016, nacionalistas de extrema-direita marcham pelas ruas de Varsóvia, na Polônia.Czarek Sokolowski (AP)

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A cultura europeia hoje, talvez mais do que nunca, está dividida contra si mesma — entre o antigo e o novo, entre o tradicionalismo e o progressismo, entre o Oriente e o Ocidente, entre os que clamam por mudança e os saudosos dos valores conservadores de um passado autoritário. Semelhantes ao Brasil, os regimes autoritários eram os que moldavam o que seria a cultura das sociedades da Europa Central e Oriental.

A União Europeia projeta uma imagem de unidade, estabilidade e solidariedade como princípios fundamentais de sua própria formação. Uma cultura comum e um modelo de integração que definiram a imagem da Europa no cenário internacional como modelo a seguir. O Brexit e a crise dos refugiados talvez tenham sido os únicos eventos a questionar essa imagem. Mas o reflexo no espelho revela um ser europeu diferente, que despe suas várias camadas e deixa à mostra o cerne do problema. Um problema definido por uma cultura fragmentada e uma divisão Leste-Oeste, amplificada pelos movimentos populistas.

A cultura europeia comum, com valores compartilhados como democracia e os direitos humanos e com uma história compartilhada fortemente enfatizada pela União Europeia, tem uma profundidade meramente epidérmica. Os países outrora comunistas, devendo sua atual orientação cultural às ditaduras que controlavam a expressão cultural e o modo de vida, ainda preservam uma cultura de esquerda impregnada de ideias liberalistas. Os países da Europa Ocidental, com sistemas democráticos mais fortes, possuem uma herança mais liberal — não nos esqueçamos de que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão na França foi a precursora da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Nesse contexto, o populismo se alastrou pela Europa — da França e da Itália à Eslováquia, Hungria e Romênia. Mas, enquanto na Europa Ocidental a tendência populista foi contida — Nigel Farage, o engenheiro do Brexit, Marine Le Pen, que aterrorizou a União Europeia com a possibilidade de vencer as eleições presidenciais francesas, e Geert Wilders, que ficou em segundo lugar nas eleições holandesas, estão, por ora, reduzidos ao silêncio —, na Europa Central e Oriental o clamor populista ainda está no centro das atenções. Quatro países são liderados por populistas radicais: Polônia, Hungria, República Tcheca e Eslováquia. Em outros, as mensagens populistas estão claramente presentes no discurso político. O principal paradoxo e a maior preocupação? Os jovens, vistos como o farol da democracia, votaram em populistas nas últimas eleições. Tanto que, no dia 17 de novembro deste ano, os líderes da UE assinaram o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, um documento que estabelece 20 princípios que vão desde a igualdade de gênero até salários justos, em um esforço para recuperar a paz social.

As preocupações com a identidade nacional, ainda muito fortes nos países do antigo bloco comunista, as dificuldades econômicas e o medo constante em relação ao seu vizinho mais poderoso, a Rússia, provaram ser um terreno fértil para o populismo. É nesse contexto que os populistas jogaram a cartada da identidade nacional, e ganharam. Eles prometeram proteger a cultura nacional e preservar a unidade contra a ameaça externa — seja na forma de refugiados, comunidade LGBT ou a Rússia. E, naturalmente, a UE serve como garantia de proteção.

Um fato significativo a esse respeito é o movimento contra Soros, o magnata e filantropo que, por intermédio das suas Fundações Open Society, patrocinou financeiramente a abertura de países ex-comunistas à democracia, ao conhecimento científico, a uma sociedade civil fortalecida e à justiça social. Embora o movimento anti-Soros tenha se espalhado por toda a região, seu maior acusador é o seu país natal, a Hungria. As campanhas populistas que o retratam como inimigo público número um, interferindo nos assuntos internos do país, tentando islamizar a Europa ao apoiar a imigração ou mesmo influenciando nas eleições húngaras, são cada vez mais frequentes. Essas ideias se espalharam com bastante facilidade para outros países da região (Romênia e Polônia, especialmente), que, aproveitando-se dos temores xenófobos existentes entre a população, usaram Soros como arquétipo do inimigo para galvanizar a sociedade em uma direção favorável ao Governo.

Na Romênia, a questão que mais reflete essa tendência populista é a batalha pela definição de família, como se poderia esperar no contexto de um debate sobre os direitos LGBT. Embora a definição de família na Constituição romena não incorpore o gênero, uma recém-formada Coalizão pela Família defende um referendo para mudar essa definição constitucional, incluindo a noção de “casamento entre homem e mulher”. No futuro, se essa iniciativa for bem sucedida, uma possível legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo seria quase impossível. A sociedade romena — tradicional por formação e com uma população em envelhecimento, cujos valores vêm dos tempos comunistas e para quem a religião é a liberdade recém-descoberta após 1989 — está dividida sobre o assunto. Uma sociedade que quer o progresso, mas é contida por sua própria visão de progresso.

Cultura e política estão no centro do debate. Enquanto as entidades LGBT promovem seus direitos através de manifestações culturais em todo o país, a Coalizão pela Família também começou a usar o âmbito cultural como meio para propagar suas ideias. Um exemplo é o debate sobre a família tradicional realizado no Teatro Nacional de Bucareste, símbolo da cena cultural romena. O local escolhido suscitou certa polêmica nas redes sociais — afinal, deve uma relevante instituição cultural pública acolher debates com o potencial de promover o discurso de ódio e a discriminação?

O interessante neste caso é que, embora seja mais comum que as manifestações culturais LGBT sejam censuradas, isso também acontece com os poucos artistas que desafiam os direitos LGBT. O principal argumento utilizado é que eles promovem o discurso do ódio e a discriminação. É o caso de uma banda de hip hop que teve seu show numa boate cancelado após publicar um manifesto no Facebook defendendo que o casamento seja apenas entre um homem e uma mulher.

A iniciativa pelo referendo rapidamente inflamou as redes sociais, provocando uma variedade de respostas. E foi uma resposta pós-moderna à Coalizão pela Família (em romeno: Coalitia pentru Familie) que conseguiu intensificar ainda mais o debate: a Coalizão pela Baunilha (em romeno: Coalitia pentru Vanilie), uma iniciativa que propõe uma emenda constitucional que proibiria qualquer sorvete no país exceto o de baunilha, descrito como um sabor fundamental da sociedade. Além do trocadilho óbvio e da ironia, seu objetivo era servir como protesto no âmbito social, mostrando que dois mundos separados, a família e a baunilha, têm uma coisa em comum: uma invasão da liberdade de escolha. E a liberdade é, afinal de contas, o valor mais caro aos romenos, aquele pelo qual pessoas morreram em 1989.

A Europa está navegando a duas velocidades — Oeste e Leste —, abraçando mudanças por um lado, e mantendo o status quo por outro. A mudança, sob todas as suas formas, amedronta, é da natureza humana tentar resistir a ela, e os populistas se aproveitaram disso. Mas apenas uma cultura europeia compartilhada pode proporcionar um espaço para o debate democrático e a paz social.

Este artigo da romena Diana Trifu faz parte da série Diálogos Brasil-Europa, uma iniciativa de EUNIC - European Union National Institutes for Culture em São Paulo - para que intelectuais dos dois continentes debatam sobre o tema “Populismo e Cultura