Ameaça para o euro

FMI e Bruxelas percebem o risco de contágio do separatismo catalão

Oriol Junquera, vice-presidente e responsável econômico do Governo.
Oriol Junquera, vice-presidente e responsável econômico do Governo.MASSIMILIANO MINOCRI

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Seria ingenuidade ou negligência grave imaginar que a tensão independentista na Catalunha, instigada pelo Governo de Carles Puigdemont, não tem consequências nefastas para a economia espanhola e, em particular, para a catalã. Os fatos são claros: as reservas turísticas em Barcelona estão caindo entre 20% e 30%, as empresas catalãs mais emblemáticas mudaram suas sedes de lugar, existem indicadores preocupantes de queda do consumo imobiliário de curto prazo – que terá impacto direto e imediato na arrecadação fiscal da Generalitat –, a entrada de investimentos no mercado catalão está desacelerando e as instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertam para uma possível desaceleração da economia espanhola se o processo continuar ou estagnar sem solução à vista.

O Fundo Monetário Internacional, através de seu economista-chefe, Maurice Obstfeld, foi um pouco além desta análise: existe um risco de contágio econômico da crise catalã para outros países da zona do euro, começando por Portugal. É uma mudança qualitativa crucial na análise política e econômica da crise; indica, no mínimo, que as consequências do processo começa a ser consideradas elemento de risco para a economia europeia e passam do interesse nacional ou local para a órbita econômica global.

A hipótese do contágio não só não é inverossímil, mas parece mais provável do que as autoridades econômicas europeias e espanholas gostariam de reconhecer. A Catalunha é um fator de incerteza para a economia espanhola, a que mais cresce na zona do euro, em um momento delicado para a economia europeia. Em primeiro lugar, porque, pela primeira vez desde a grande recessão, a recuperação começa a mostrar um curso estável, embora ainda não esteja consolidada e não é momento de contratempos; depois, porque a sombra do Brexit será duradoura. Bruxelas, Berlim e Frankfurt não podem aceitar duas incertezas tão graves sobre a Europa, com origens quase gêmeas no impulso separatista.

A insistência de Obstfeld e de todas as instituições europeias no diálogo e na negociação para resolver a crise independentista encobre uma forte preocupação pela evolução econômica europeia. O fator chave é o tempo: se a crise continuar, aumenta o risco de contágio a outros países da região. O Governo já adiantou que vai revisar para baixo as previsões de crescimento em 2018 pela crise na Catalunha. O custo vai ser muito alto em termos de investimento, emprego e bem-estar.

A tensão independentista não é um jogo entre políticos sem custos econômicos para os cidadãos; pelo contrário, está introduzindo elementos de desestabilização no mercado europeu que, como o FMI e todas as instituições econômicas advertem, são potencialmente graves para o euro se não forem resolvidos com rapidez e claridade. A posição de Bruxelas é, por enquanto, de advertência. Mas os danos para a economia vão crescer com o correr das semanas e meses, e a posição pode endurecer. Jean-Claude Juncker foi contundente: “Não quero uma Catalunha independente; outros fariam o mesmo”. E isso define perfeitamente a estratégia europeia.

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