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Outra derrota de Maduro

Forte apoio popular à oposição contra a Constituinte do presidente

Julio Borges discursa para venezuelanos após a vitória no referendo
Julio Borges discursa para venezuelanos após a vitória no referendo REUTERS

Os venezuelanos demonstraram de forma ampla no domingo ao presidente Nicolás Maduro que só é possível resolver o desastre econômico e institucional que vive o país através de uma solução dialogada que passe pelo respeito à legalidade. Que mais de 7,5 milhões de pessoas tenham vencido o medo da violência e voltado a transformar as ruas em uma manifestação contra o regime é um sinal claro do momento que o país está vivendo. A oposição anunciou ontem a próxima criação de um Governo paralelo de Unidade Nacional e convocou uma greve geral para quinta-feira.

Infelizmente é preciso contabilizar mais duas mortes perto de um centro de votação por disparos de esquadrões paramilitares. Estes costumam operar no ambiente do chavismo. As duas pessoas mortas elevam para perto de 100 o número de mortos desde que começaram os protestos diários contra Maduro por sua decisão de convocar unilateralmente para o dia 30 pseudoeleições a uma Assembleia Constituinte que, dado o sistema de candidaturas e designação, será completamente dócil ao governante chavista.

O número de votos contra esta convocatória – cuja legitimidade era o objeto do referendo – é semelhante à obtida pela oposição nas eleições legislativas de dezembro de 2015. Isto significa que a oposição ainda tem um respaldo das ruas semelhante – se não for maior, dada a precariedade de meios na consulta de domingo - a quando infligiu a maior derrota sofrida pelo regime nas urnas. A oposição conquistou a maioria na Assembleia Nacional e começou a aplicar escrupulosamente a lei – a mesma impulsionada por Hugo Chávez – para fazer da Venezuela um país governável. Durante todo esse tempo, a resposta de Maduro foi ilegal e antidemocrática. Ignorou as resoluções legítimas da Câmara em que reside a soberania nacional. Assediou parlamentares. Usou ilegalmente outros poderes do Estado, como o Judiciário, para retirar competências da Assembleia. Permitiu que ela fosse atacada por elementos próximos ao regime e que os deputados fossem evacuados a golpes. E agora quer criar uma Câmara paralela.

Alguns países importantes do continente americano, como os EUA, Canadá e México, já reconheceram a legitimidade da votação do domingo. A Espanha, que jogou um papel importante na liberação – embora ainda siga em prisão domiciliar – do político opositor Leopoldo López, também deveria se pronunciar a respeito.

Além disso, e por coerência, por amizade pelo povo venezuelano e por compromisso com os valores democráticos, o Governo espanhol deveria exigir de Maduro a suspensão da votação convocada para o próximo dia 30. Trata-se de uma armação que não vai ajudar a melhorar a dramática crise na Venezuela e só servirá para consolidar a situação insustentável. É preciso que Maduro saiba que se ele continuar, seu regime sofrerá sanções internacionais. O povo venezuelano não deve ser o único a pagar o pato.

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