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Cientistas do mundo saem às ruas para defender investimentos em pesquisas

Políticas de Donald Trump no início do mandato geram preocupação entre a comunidade científica internacional

Marcha pela Ciência em Nova York, nos EUA.
Marcha pela Ciência em Nova York, nos EUA. REUTERS

Lydia Villa-Komaroff não participa de uma manifestação desde que protestou nos anos 1960 contra a guerra do Vietnã, mas neste sábado será uma das líderes da Marcha Internacional pela Ciência em Washington. Essa doutora que dedicou sua carreira à biologia molecular e à promoção da educação científica entre os hispânicos em partes iguais, viu em sua juventude duas grandes universidades lhe fecharem as portas por ser mulher. Neste dia 22 de abril, quando se celebra também o Dia da Terra, voltará a sair às ruas como uma das organizadoras da manifestação que espera igualar a demonstração de força da Marcha das Mulheres realizada no dia seguinte à posse de Donald Trump. O protesto, no entanto, é mundial: cientistas foram às ruas em várias partes do mundo em defesa dos investimentos em pesquisas científicas, como em Londres, Berlim, Paris, Amsterdã, Sydney, Madri e no Rio de Janeiro.

Villa-Komaroff afirma que os cientistas norte-americanos têm visto como o país, desde bem antes da chegada do presidente republicano, apoia cada vez menos sua profissão. “A percepção da importância da ciência para criar políticas está em queda”, lamenta. “Apesar de todos os aspectos da vida moderna terem sido transformados pela ciência, o apoio popular tem caído”.

A comunidade científica dos EUA tem visto ainda como esse apoio tem diminuído também a nível governamental. O último golpe chegou pelas mãos do Governo Trump. Villa-Komaroff enumera as muitas razões pelas quais os cientistas protestarão em Washington neste fim de semana, desde o desaparecimentos de dados em páginas do governo federal na internet às propostas para reduzir a proteção ao meio ambiente.

Os organizadores afirmam que a marcha é “uma celebração da ciência” como “um pilar da liberdade humana e da prosperidade”

Os organizadores da Marcha pela Ciência defendem que a convocação é “uma celebração da ciência” como “um pilar da liberdade humana e da prosperidade”. Entre seus objetivos está a reivindicação de que os políticos baseiem suas medidas em dados científicos e demonstrados em nome do interesse público. “Precisamos respeitar e respaldar as pesquisas que nos ajudam a entender o mundo”, defendem.

“Muitos de nós estão consternados pelos sinais que [o Governo] enviou até agora”, afirma Villa-Komaroff. Entre outros, ela cita “a nomeação de líderes de agências que desconhecem o conhecem muito pouco sobre como funcionam essas mesmas agências e que, em alguns casos, são contra a sua própria missão”. Villa-Komaroff se refere à designação, por exemplo, de Scott Pruitt como responsável pela Agência de Proteção Ambiental.

Manifestantes em Londres neste sábado.
Manifestantes em Londres neste sábado. AFP

Pruitt não acredita que o homem seja responsável pela mudança climática. Em seu cargo anterior, como promotor geral de Oklahoma, abriu 14 denúncias contra a Agência e defendeu sua eliminação. Em seus primeiros meses no posto, Pruitt apoiou a abolição do plano de Obama de luta contra a mudança climática e de consideração de fatores ambientais nas políticas implementadas pelo Governo. “É preocupante que algumas das propostas para eliminar regulações provoquem um aumento da poluição da água que bebemos e do ar que respiramos”, afirma.

Os cientistas norte-americanos têm visto como o país, desde bem antes da chegada do presidente republicano, cada vez menos apoia sua profissão

Villa-Komaroff analisa a situação atual a partir de duas perspectivas: como cientista e latina. Desde 1973, pouco depois de concluir sua especialização no prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ela lidera uma organização para promover estudantes de origem mexicana e nascidos no México em carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. “Muitos de nós somos imigrantes ou filhos de imigrantes e vivemos preocupados com as políticas contra a imigração adotadas pelo Governo”.

Como no caso da Marcha das Mulheres em Washington, os organizadores da manifestação reiteram que a ciência é o motivo principal para sair às ruas, mas os participantes terão também muitas outras razões – da igualdade de acesso à educação até a promoção da diversidade. “É importante mostrar a importância de utilizar todo o talento que este país pode oferecer”, diz a doutora. “Quanto mais diversa for uma equipe científica, mais opções vai considerar para resolver um problema.”

Em Berlim, manifestantes na Marcha pela Ciência.
Em Berlim, manifestantes na Marcha pela Ciência. EFE

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