O que esconde Casey Affleck e por que ele pode tirar o Oscar de Ryan Gosling

O irmão de Ben Affleck sempre quis chamar atenção por ser apenas estranho. Agora, ele já não pode mais: seu personagem em 'Manchester à Beira-Mar' mudou tudo

Casey Affleck na entrevista.
Casey Affleck na entrevista.Michael Schwartz/ Ángela Esteban Librero

Estamos em Nova York, em um bar portuário ao lado da ponte do Brooklyn. Lá fora, chove torrencialmente; e, aqui dentro, está Casey Affleck (Falmouth, Massachussets, 1975), que tem recebido uma chuva de prêmios. Nesta semana, ele ganhou o Globo de Ouro de melhor ator por Manchester à Beira-Mar (que estreia no Brasil na quinta-feira, 19) e é o favorito ao Oscar, que será entregue em 26 de fevereiro (antes de Ryan Gosling, La la land). Chegou a hora, portanto, de tirar o rótulo de "o irmão de Ben Affleck" que ele recebeu do grande público, ou até mesmo o de "companheiro de baladas de Joaquin Phoenix", a quem dirigiu no falso documentário I'm still here (2010). Em termos de qualidade, sua carreira já tem credibilidade há muito tempo. Mas, desde sua estreia em Um sonho sem limite (Gus Van Sant, 1995), seus filmes sempre foram do circuito alternativo.

Escândalos do passado o estão perseguindo, como por exemplo o que a imprensa acaba de retomar, e que ele achava que já tinha terminado devido a um acordo extrajudicial: as acusações de assédio sexual a duas técnicas de seu filme 'I'm still here'

No entanto, o processo de ser um ator popular está começando a destruir algo em que ele trabalhou por muito tempo: a proteção de sua intimidade. Ainda no hall de entrada do estrelato, ele já tem sido perseguido por escândalos do passado, como o que a imprensa acaba de revirar, e que ele achou que já havia encerrado em um acordo extrajudicial: as acusações de assédio sexual que duas técnicas de seu filme I'm still here apresentaram contra ele em 2010.

Magdalena Gorka, diretora de fotografia, disse que Affleck deitou em sua cama e deu-lhe um abraço enquanto ela dormia; e a produtora Amanda White afirmou que o ator lhe havia agarrado à força depois que ela não quis ceder às suas insinuações. Ao falar sobre o assunto, o ator nos remete a um comunicado por e-mail que enviou ao EL PAÍS: "Depois do acordo, podemos afirmar que os conflitos foram resolvidos de forma satisfatória para as partes envolvidas e que os processos foram arquivados em 2010", diz o texto. O advogado de defesa das duas técnicas, Brian Procel, não quis comentar o caso ao jornal.

Alheio ao momento delicado, Casey parece passar por toda a fanfarronice das apostas sobre o Oscar usando seu jeito desinteressado como uma armadura; não se sabe se por acaso ou a contragosto. Ele não se acostuma e nem gosta de tirar fotos: é como um marinheiro em terra firme. Não gosta do sobretudo que um membro da equipe do jornal lhe dá para fazer uma foto, mas coloca mesmo assim. Pega a câmera e faz uma foto da figurinista e, meio sério, meio brincando, diz a ela: "Agora você entende a sensação".

Pergunta. Sua personagem em Manchester à Beira-Mar bebe muito. Tendo em conta que seu pai foi um alcoólatra que se internou em clínicas de reabilitação, qual é a sua relação com os vícios?

Resposta. Minha mãe era professora e meu pai, garçom. Sinto que minha infância foi bastante normal, embora eu não saiba como é a vida das outras pessoas. É verdade que sei bem o que significa isso do vício. Mas este personagem eu não acho que seja um alcoólatra - ele só bebe de vez em quando e perde o controle.

P. Eu me referia a você, na vida real.

Casey Affleck em uma cena de 'Manchester em frente ao mar', filme com a que pode ganhar seu primeiro Oscar.
Casey Affleck em uma cena de 'Manchester em frente ao mar', filme com a que pode ganhar seu primeiro Oscar.

R. Digamos que eu tive muita experiência com os vícios em minha vida e sei o que são. Por isso, tenho muito cuidado.

P. Você já concorreu ao Oscar como ator coadjuvante por O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, em 2008. Consegue se ver ganhando o Oscar de melhor ator por Manchester à Beira-Mar?

R. Duvido. A verdade é que quase nunca ganho nada. E há muita gente incrível por aí. Todo mundo merece ganhar.

Casey Affleck veste suéter Brooks Brothers, t-shirt Diesel e calça Valentino.
Casey Affleck veste suéter Brooks Brothers, t-shirt Diesel e calça Valentino.Michael Schwartz/ Ángela Esteban Librero

P. Seu irmão Ben Affleck já tem dois Oscars [roteirista por O Gênio Indomável e produtor por Argo]. Acha que ele te dará algum conselho?

R. Não, acho que não.

P. Você sente, de alguma maneira, que está à sombra dele, ou que ele ganhou todos os prêmios antes de você?

R. Não, não sinto que chego atrasado aos prêmios. O que sinto às vezes é que tenho muitas ideias e não faço nada com elas. Eu estava pensando em fazer aplicativos para telefones. Tenho um monte de ideias, mas às vezes penso que é melhor concentrar em apenas uma coisa porque, se não for assim, começo várias coisas e não acabo nenhuma. Mas eu gosto de sonhar com ideias novas. Acho que, em outra vida, fui inventor. E meus filhos [dois, de 8 e 12 anos, com a atriz Summer Phoenix - irmã de Joaquin Phoenix - de quem acaba de se separar] são um pouco assim, também. Eles inventaram uma mistura de grampeador e fita adesiva, que poderíamos chamar de grampeadesiva - você aperta como um grampeador, mas na verdade é uma fita adesiva. Mas acho que meu filho será jogador de futebol. Viajamos para a Espanha e fomos ver jogos de futebol em Madri e Barcelona. Atualmente, meu filho gosta mais do Cristiano Ronaldo que de mim.

Ben Affleck com seu irmão Casey na apresentação de 'Manchester beira-mar' em 14 de novembro.
Ben Affleck com seu irmão Casey na apresentação de 'Manchester beira-mar' em 14 de novembro.

P. E este aplicativo, o que seria?

R. Espero que não roubem a minha ideia (risos), mas queria fazer um aplicativo para localizar seu cachorro, como um GPS. Assim, se você perdê-lo, sempre saberá onde está.

Ao longo da entrevista, nota-se que a família e os animais são os dois assuntos com os quais Casey Affleck se sente mais à vontade. E, assim, ele faz uma releitura da própria carreira. Descobrimos, por exemplo, que ele conseguiu seu primeiro grande papel, em O Medo da Verdade, porque ninguém queria ser o protagonista da obra-prima de seu irmão Ben Affleck, e ele decidiu escolher alguém que conhecesse. Também é mais fácil entender o olhar azul, que ele esforça para manter jovial e inseguro, como se fosse um peixe fora d'água, falando de sua vida com um desconhecido. "Ainda sou jovem, tenho 41 anos. Mas acho que sou um bom pai. Para mim é o mais importante. Eu largaria tudo, mas jamais colocaria em perigo meu papel de pai. É algo incomparável", garante. E, embora tenha se separado recentemente da esposa, outra irmã de uma família cinematográfica (e muito hippie), Summer Phoenix, o ator se orgulha da amizade que eles ainda mantêm.

P. Como passou o fim de ano?

R. Summer e eu já não estamos casados, mas decidimos celebrar juntos. Somos bons amigos, nos damos bem. Minha ex-mulher, sua irmã, sua família e meus filhos. E também vieram meu irmão Ben, Jennifer [Gardner, ex-mulher de seu irmão], seus filhos e os pais dela.

P. O fato de você e Summer serem de famílias de atores ajudou em alguma coisa?

Affleck com seu olhar mais intenso. Veste caçadora Prada sobre camisola Brooks Brothers.
Affleck com seu olhar mais intenso. Veste caçadora Prada sobre camisola Brooks Brothers.

R. Nós simplesmente nos apaixonamos um pelo outro, mas acho que facilitou. Estar na mesma área torna as coisas mais fáceis. Ela é uma grande atriz.

P. E Joaquin Phoenix é seu melhor amigo. Vocês já se recuperaram da experiência de I'm still here e de tudo o que aconteceu depois que apresentaram o filme como documentário e era tudo ficção?

R. Claro! Continuamos sendo muito amigos. O que aconteceu com o filme foi completamente inesperado. Não queríamos fazer nada que enganasse a ninguém, mas as pessoas começaram a tirar suas próprias conclusões e nós perdemos o controle. Fizemos o filme daquela forma porque não podíamos pagar figurantes, e a maneira mais barata de fazê-lo era como se fosse um documentário, só por isso.

No dia da entrevista, Casey Affleck levantou cedo para a sessão de fotos, mas na noite anterior havia comemorado seu prêmio Gotham. Ele também acaba de ganhar como melhor ator no Festival de Gijón. Sou eu mesmo quem lhe dá a informação. "Tem certeza? Acho que eu já teria sabido. Pode checar outra fez?". Sim, ele foi premiado. Então, ele começa a brincar e - improvisando com o espanhol que aprendeu no México - começa a fazer um discurso. "Muchas gracias. Este premio es muy importante para mí".

No entanto, a manhã acabaria de uma forma ainda melhor: seu agente interrompe a entrevista dizendo, enquanto o colocava em um carro a caminho do aeroporto, que Casey havia ganhado também o prêmio do National Board of Review. Depois, ainda viria o Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama, e ninguém o impediria de estar na lista final de indicados ao prêmio da Academia de Hollywood pelo papel de sua vida em Manchester à Beira-Mar: Lee Chandler, um homem taciturno que guarda tragédias secretas em seu olhar arisco, e com suas emoções congeladas.

Dizem que ele começou a atuar porque era ruim no beisebol e porque lhe ofereceram um papel em uma obra de teatro com 17 mulheres, mas ele desmente. "Eu realmente gosto de atuar, gosto das pessoas no mundo dos atores, dos diretores, embora não ache tudo que esteja ao redor tão divertido. Digamos que gosto muito do que faço em meu trabalho, mas não gosto do caminho até o escritório. É como se eu perdesse duas horas dentro de um carro e passasse todo o trajeto reclamando". Affleck afirma, com seus cabelos revoltados, que, aconteça o acontecer, quer continuar tendo as férias de verão livres para viajar. Para poder acampar com os filhos, Atticus e Indiana, de 8 e 12 anos. Foi com eles que Casey viajou pela Espanha no verão passado, de acampamento em acampamento. "Foi muito difícil encontrar um camping em Barcelona, e acabamos em um que estava ao lado do aeroporto. Foi terrível. Não paravam de passar aviões", diz. E é fácil acreditar nele. Por isso, ele quer que, apesar das alegrias que Manchester à Beira-Mar estão trazendo, sua bolha de vida normal não estoure. "Hoje em dia, poucas pessoas me reconhecem na rua, e eu gosto que seja assim. Isso não afeta minha autoestima. Na verdade, quero que continue assim".

P. Tanto seu personagem de Manchester à Beira-Mar quanto você são da mesma região, em Massachussets. Você e ele têm esse "controle emocional" em comum?

R. Há um certo estoicismo naquela região, talvez seja pela geografia. O tipo de pessoas com as quais eu cresci parecem ter muita força na vida. Eu me identifico com o personagem, sim. Ele tem muitas feridas - de dor, de luto, de arrependimento - e não se permite expressá-las. Ele quer manter tudo isso consigo mesmo, porque sente que é o que merece. Não quer incomodar os outros, mas também não quer deixar de sentir tudo isso. Não quer chorar, nem falar do assunto, porque isso seria liberar-se. Ele se sente como uma bexiga cheia d'água, que, em contato com outras pessoas, acabará estourando e molhando a todos.

P. Mas você colocou muito de sua personalidade neste personagem. Ele parece feito sob medida para você, apesar de ter sido pensado inicialmente para Matt Damon.

R. Não acho que o filme teria sido muito diferente com ele. O roteiro de Kenneth [Lonnergan, também diretor] era assim. O que eu gostava era a quantidade de coisas que aconteciam ao mesmo tempo dentro de cada personagem. Ele explicava a maneira diferente com a qual cada um lidava com cada crise, como guardavam suas recordações, tanto as boas quanto as ruins. Os doloridos e os felizes. As pessoas levam a vida como podem: presos ao passado ou concentrando-se no presente.

P. Os personagens torturados são uma marca registrada. Eles têm a ver com sua personalidade real?

R. Você acha? Eu não sou uma pessoa muito torturada, ao menos não tanto quanto Lee. Para fazer este personagem, era necessário mostrar fragilidade e, embora fosse algo dolorido, foi um prazer fazê-lo. E, sobre a imagem que mostro para o público, não sei, a verdade é que não vejo todos os meus filmes. Gosto de isolar-me das opiniões das pessoas. É terrível saber o que o público pensa de você, inclusive quando é algo bom. Então, não sei o que as pessoas acham de mim.

P. E essa história de não ver seus próprios filmes?

R. Às vezes é melhor. Não posso dizer quais, é claro. Mas, embora tente trabalhar só nas coisas em que realmente gosto, não posso esquecer que vivo disso, que é meu trabalho. Não sou tão rico, não tenho milhões de dólares, então às vezes tenho que encarar meu trabalho apenas como trabalho. Eu não deveria ter dito isso. É claro, vivo tranquilamente, mas ser ator é minha forma de ganhar a vida, e nem sempre faço os filmes que gostaria de fazer. Por isso, às vezes prefiro nem ver alguns deles.

P. Agora você está preparando um filme em que é ator, diretor e roteirista, Light of my life.

R. Sim, é um grande erro fazer as três coisas (risos). Gosto de desafios. Às vezes tenho a tendência de me meter em trabalhos que acabam sendo muito difíceis, o que pode me levar a cometer erros, mas também significa que sigo meus instintos. Em todo caso, sempre é difícil saber o que você fez quando está tão envolvido com algo.