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COLUNA

Um muro para o Rio?

Crivella gostaria de ver o Rio abraçado por um muro, como o de Jerusalém, “para que não entrem armas ou drogas”. Parece uma provocação neste momento de crise global

Operação policial na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, em 20 de novembro.
Operação policial na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, em 20 de novembro. Efe

Levantar um muro no Rio de Janeiro como era feito nas cidades da Idade Média. Essa é a ideia do prefeito recém-eleito da cidade, o evangélico Marcelo Crivella após sua recente visita a Israel.

Crivella gostaria de ver o Rio abraçado por um muro, como o de Jerusalém, “para que não entrem armas ou drogas”, como confidenciou, ao voltar de sua viagem, a líderes judeus e evangélicos, de acordo com a publicação da coluna Radar e que repetiu nos últimos dias.

O prefeito eleito não é um novato na política, pela qual transita há mais de vinte anos. Deveria saber que o Rio não precisa de um muro para evitar que as drogas e as armas cheguem aos traficantes. Os facilitadores desse comércio já estão no interior. Os maiores responsáveis pela entrada de drogas e armas, os cúmplices dos traficantes, aqueles que abrem as portas da cidade e da prisão, não vivem nas favelas.

São esses personagens invisíveis, muitos deles às vezes parte da política, que gozam de impunidade e andam em carros blindados e seguros.

Para combater o tráfico de drogas e armas, o Rio não precisa construir muros. Precisa desmascarar aqueles que alimentam esse comércio internacional e os amigos das facções criminosas que atuam dentro das prisões.

Esses sonhos à la Trump de levantar um muro no Rio, (e por que não em todo o Brasil), parece uma provocação neste momento de crise global.

Cada muro evoca medo da liberdade, vontade de fechar as portas a quem é diferente e visto como criminoso. Os muros são o símbolo da irracionalidade.

Os muros físicos são levantados quando perdemos a razão. E a razão não pode estar detida nem sequestrada.

O medo do outro nos obriga a também levantar muros ideológicos e políticos. E quanto mais muros levantarmos, mais nos sentimos inseguros.

A liberdade é a que salva. O medo mata.

"Para combater o tráfico de drogas e armas, o Rio não precisa construir muros. Precisa desmascarar aqueles que alimentam esse comércio"

A insólita ideia de levantar um muro no Rio me faz lembrar a experiência desagradável que vivi quando cruzei o Muro de Berlim, e a felicidade de vê-lo desmoronar seis meses depois. Lembro que era o aniversário da minha filha Maya. Uma dupla comemoração.

Na verdade, o Rio não precisa ser murado. Já é. Existe um muro entre a cidade rica e a pobre, a dessas mil favelas com quase dois milhões de habitantes que formam o outro Rio.

Essa cidade que, há décadas, sofre violência e morte.

A sorte do Rio rico é que aqueles que vivem e sofrem atrás desse muro das favelas não desce para a cidade, ou apenas desce para trabalhos humildes. É quase seu escudo. São boas pessoas, trabalhadoras, sofridas, vítimas do pecado dos outros.

Se isso acontecesse, se esse muro desabasse, a outra cidade, a dos hotéis de luxo e das praias famosas, a que abriga os reais responsáveis pelo tráfico de drogas e armas perderia sua alegria e algo mais.

O Rio é uma cidade divertida e iconoclasta, com vocação de liberdade. Qualquer muro a sufocaria física e moralmente.

A cidade maravilhosa só precisa dos muros das prisões para abrigar os corruptos e os responsáveis pela violência e a morte de inocentes.

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