‘Job sharing’

Divido meu emprego e meu salário

Compartilhar um cargo entre dois funcionários é uma tendência que ganha adeptos na Europa

Caroline Pusey (à esq.) e Heather McNaughton, que dividem o comando do departamento pessoal do Ministério de Defesa britânico.
Caroline Pusey (à esq.) e Heather McNaughton, que dividem o comando do departamento pessoal do Ministério de Defesa britânico.

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Esta nova faceta da economia colaborativa não para de conquistar adeptos em alguns países europeus, onde o trabalhador exige uma flexibilidade cada vez maior para poder conciliar o emprego com outros aspectos da sua vida ou com outros trabalhos. As empresas que oferecem isso estão cada vez mais convencidas de como é benéfico contar com duas cabeças pelo preço de uma. Juízes, professores universitários, políticos, jornalistas e até clérigos anglicanos são algumas das profissões que se atreveram a aderir ao job sharing. Suíça, Reino Unido, Alemanha e Austrália são países onde compartilhar o trabalho se tornou uma fórmula relativamente frequente. No Brasil, o sistema não está presente nem nas empresas nem na administração pública.

Funciona assim: duas pessoas dividem entre si a carga horária de um mesmo posto de trabalho, em dias ou turnos consecutivos. Dessa forma, por exemplo, uma chefe como Pusey trabalha de segunda-feira a quarta-feira, e sua colega ocupa a mesma chefia de quarta-feira a sexta. A dupla combina um sistema de organização e comunicação que se repete semanalmente. No caso de Pusey e McNaughton, toda terça, no final do expediente, elas conversam por telefone durante uma hora. A quarta é o dia em que ambas se encontram no escritório e concentram as reuniões da semana. E na quinta começa o turno de McNaughton. Elas têm uma conta de email conjunta, uma só mesa e um só número de telefone fixo. Mantêm, além disso, um firme compromisso de respeitar as decisões da outra metade e nunca enviar ordens contraditórias aos subordinados.

Pusey vê muitas vantagens, e também para seu empregador. “São duas cabeças pensando pelo preço de uma. Quando há problemas difíceis, somos dois perfis diferentes para solucioná-los. Além disso, quando volto na segunda-feira ao escritório estou revigorada e cheia de energia para trabalhar”. Evidentemente, seu salário, antes equivalente a 323.500 reais por ano, se ressente de forma proporcional às horas que deixa de trabalhar, mas Pusey garante que vale a pena, levando em conta o que teria que pagar a uma pessoa para cuidar dos seus filhos durante essas horas, mais o preço intangível de deixar de vê-los.

Não há dados oficiais sobre esta fórmula de trabalho, já que nas estatísticas eles aparecem como empregos em meio período. Mas há estimativas, como as de um estudo da Robert Half, grande multinacional de recursos humanos, segundo o qual 25% das empresas europeias oferecem vagas compartilhadas. O percentual varia segundo os países. No Reino Unido, chega a 48% das empresas; na Alemanha, 15%; na Holanda e na Bélgica, 23%; e na Áustria, 19%. O estudo, que colheu informações de 1.200 empresas de diversos países da Europa, saiu em dezembro de 2014. Desde então, as plataformas de trabalho compartilhado proliferaram.

“São duas cabeças pensando pelo preço de uma. Quando há problemas difíceis, somos dois perfis diferentes para solucioná-los”, diz uma executiva

A administração pública do Reino Unido promove essa maneira de trabalhar e publica um manual no qual estimula os funcionários a compartilharem cargos, ajudando-os a apresentar candidaturas conjuntas. Explica, além disso, como são feitos os processos seletivos, incluindo uma entrevista simultânea com os dois candidatos. “Compartilhar trabalho pode ser muito satisfatório, mas exige flexibilidade, confiança e bom trabalho em equipe”, conclui o manual. Há também um site oficial onde os candidatos podem buscar potenciais colegas de vaga. O sistema também funciona no setor privado e em profissões com jornadas habitualmente intensivas, como o jornalismo. Anushka Asthana e Heather Stewart, por exemplo, compartilham desde o ano passado o cargo de editoras de Política do jornal britânico The Guardian.

Caroline Gatrell, professora de gestão empresarial da Universidade de Lancaster, ressalta que no Reino Unido esse sistema está mais presente em universidades e órgãos governamentais, e um pouco menos no setor privado. E acha que um empecilho à sua maior difusão é a inércia da cultura trabalhista dominante. “Muitos empresários têm medo de romper o padrão de trabalho das 9h às 17h, mas há muitas maneiras de se trabalhar”.

Na Alemanha, o trabalho compartilhado também registra uma expansão. “Compartilhar o emprego já é parte da agenda política na Áustria e na Alemanha, e não há eventos de recursos humanos que não dedique um espaço a esse tema", conta por telefone, de Berlim, Jana Tepe, codirectora da Tandemploy, uma empresa de recursos humanos dedicada ao trabalho compartilhado. Ela diz que na sua plataforma digital há 5.000 pessoas registradas em busca de dupla para trabalhar, das 40.000 que passam por seu site mensalmente.

Tepe trabalhava há três anos numa agência de empregos convencional quando recebeu um currículo de duas pessoas que desejavam dividir um único posto de trabalho. Aquilo lhe pareceu um pouco insólito, mas despertou seu interesse, então entrevistou os candidatos. Para sua surpresa, eles tinham um plano muito detalhado de como pensavam em compartilhar a vaga. Aquela experiência a estimulou a criar a Tandemploy.

Líder político em meio período

A política também sucumbiu aos novos modelos profissionais. Um exemplo é Jonathan Bartley, colíder do Partido Verde britânico. Bartley tem um filho deficiente ao qual precisa dedicar bastante tempo, mas não queria renunciar à liderança partidária. “Assim posso fazer o que me apaixona e me ocupar do meu filho”, diz, por telefone. Algo parecido acontece com Caroline Lucas, com quem compartilha a direção dos greens, e que dedica metade do seu tempo ao seu distrito eleitoral.

As motivações de Bartley são também filosóficas. “Este sistema permite que os políticos tenham outras ocupações e estejam em contato com a vida real. Além disso, possibilita que pessoas com outras profissões participem da política.” Para ele, no entanto, essa mudança cultural é lenta e exige responder constantemente à mesma pergunta: tudo bem, mas quem toma as decisões no partido? A resposta é sempre a mesma: “Os dois”. Concedem entrevistas juntos ou separados, conforme a agenda, e o mesmo acontece com os comícios. “Veja, as pessoas precisam trabalhar, mas também precisam de qualidade de vida. Quando você estiver para morrer, não dirá: lamento não ter trabalhado mais e passado menos tempo com minha família e amigos. Pelo contrário.”

A Suíça é, depois da Holanda, o país europeu com a maior taxa de emprego meio período, 36,5% dos postos de trabalho em comparação com 15,6% da Espanha e 26,85% da Alemanha, segundo dados da Eurostat. Não admira que um suíço pergunte qual é sua porcentagem de trabalho, ou seja, se você tem uma jornada completa (100%), ou de 80%, 50%... Thomas Geiser, professor de direito trabalhista da Universidade de St. Gallen, na Suíça, defende esta flexibilidade, mas não se cansa de destacar as vantagens do job sharing, em parte porque a cultura laboral suíça já interiorizou essa maneira de trabalhar. “Aqui você pode ter um cargo de responsabilidade por meio período. Tem muita gente que trabalha 80% ou não trabalha um dia por semana. Para um tribunal de 10 juízes, por exemplo, escolhemos 15, porque alguns deles trabalharão 50%. É algo muito frequente.” Para Geiser, um dos inconvenientes de compartilhar o trabalho é que, se um membro da parceria vai embora, algo relativamente comum em ambientes de trabalho tão dinâmicos, o outro tem de encontrar um novo parceiro.

A PTO, uma associação suíça dedicada à “otimização do tempo parcial”, destaca em um de seus estudos o chamado job sharing intergeracional. Há pessoas em idade de se aposentar que gostariam de continuar trabalhando em sua área, mas não necessariamente em tempo integral. Compartilhar a função lhes permite trabalhar 30%, por exemplo, e ao mesmo tempo atuar como mentores para os menos veteranos, que ocupariam os outros 70% da vaga.

Já na Espanha, compartilhar o trabalho está longe de ser uma opção do leque laboral. A redução da jornada, muitas vezes, relega os trabalhadores que fazem essa opção a tarefas secundárias — principalmente as mulheres. Um porta-voz do Ministério do Trabalho espanhol disse que o trabalho compartilhado como tal não existe, e que, de qualquer forma, o debate no país é outro. “A prioridade na Espanha é a estabilidade, que está associada a uma jornada de oito horas. É preciso ter em mente que estamos vindo de cinco anos de crise.” Destaca-se, no entanto, que em 2013 houve a aprovação de uma reforma que facilita o acesso a pensões, depois de uma decisão do Tribunal Constitucional no mesmo ano, que considerou discriminatória a contagem das horas trabalhadas em jornadas de meio período. Na Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE), não há informações de que os empresários espanhóis recorram ao emprego compartilhado. A saída gradual da crise, no entanto, poderia alterar as prioridades de boa parte dos trabalhadores.

Segundo a Eurostat, 63,2% dos trabalhadores de meio período na Espanha estão nesse tipo de emprego porque não conseguem trabalho em tempo integral. O restante decide voluntariamente não trabalhar a jornada completa, porque tem outras necessidades ou desejos. Eles, assim como seus colegas do norte da Europa, provavelmente querem se manter na sua categoria profissional e continuar fazendo o que sabem e para o que servem.