Somos todos ‘especialistas’: a era de ouro dos palpiteiros olímpicos

Comediante mexicano faz sucesso parodiando a forma como falamos sobre esportes

Segue uma crítica do estilo esportivo de Michael Phelps: "Um dos segredos da natação está no ombro. Por isso eu nunca me arrisquei muito, com minhas costas não dá… Tenho mais corpo de ginasta. Mas esse Phelps é um torpedo, hein?". Dos saltos ornamentais: "O lance é cair sem espirrar muita água. Tá vendo? Esse aí espirrou muito, 300 ou 400 ml, é uma espirrada média. Acho que vão dar um 6. Bom, deram 8. Quase, errei por só dois pontos". Da esgrima:  "É um esporte muito legal. Eu gostava muito e até fiz umas aulas, mas não conseguia lidar com isso de usar máscara. Eu me sentia preso. Não conseguia respirar bem". Dos 100 metros rasos: "São a mãe de todas as provas". Do tênis de mesa: "E isso, o que é?". De ginástica de trampolim: "Caiu mal. O importante é cair bem. Com os pés". Levantamento de peso: "Você lembra que outro dia estávamos carregando a geladeira e eu disse 'com os joelhos, com os joelhos?' Pois é, pra ele faltou fazer isso".

Los Olímpicos también se juegan desde el sofá, opinando.

Gepostet von Alex Fernández am Montag, 8. August 2016

Após nove dias de Olimpíada, você certamente já viveu esta situação. “Todo mundo adora opinar, e nos tornamos eruditos do esporte”, diz o comediante mexicano Álex Fernández por telefone ao EL PAÍS. Uma dessas situações inspirou um vídeo dele no qual representa o típico telespectador de Olimpíada e seus palpites de aspirante a comentarista esportivo. O esquete, divulgado por ele no Facebook, já soma mais de 500.000 reproduções em uma semana.

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Fernández, de 30 anos, largou sete anos de uma carreira em marketing para se dedicar à comédia. Garante que, nesse vídeo, ri de si mesmo. “Quando eu estava vendo a final de saltos sincronizados de 10 metros dava opiniões sobre os respingos e a inclinação do mergulho”, diz. “Eu me achava um dos juízes, mas estava era dizendo um monte de idiotices.”

Entretanto, o comediante notou que não era o único. “Mais tarde nesse dia, quando saí para almoçar, as pessoas ao meu redor estavam comentando sobre os saltos de trampolim, com opiniões muito parecidas. Mas onde mais se dá palpite é nas redes sociais. Esta Olimpíada é a primeira que acontece após a verdadeira explosão das redes, e isso significa que há mais opiniões. É isso que eu gosto nelas, que todos têm um espaço para opinar, e vira um galinheiro.”

Às vezes, entretanto, as opiniões podem passar do limite, segundo ele. “Para mim, não vale criticar os atletas mexicanos, é como ir a outro país e cuspir na embaixada do México”, diz Fernández. “É uma honra representar o seu país nos Jogos Olímpicos, e são 125 milhões de mexicanos que estão competindo. Também não é legal insultar as pessoas. Uma coisa é usar o humor, que é uma forma de refletir a realidade, mas não vale que alguém, que certamente é um gordo com barriga de cerveja, recrimine uma atleta por seu peso.”

Embora as redes sociais tornem isso mais evidente, os mexicanos sempre gostaram de dar palpites sobre tudo, diz o comediante. “Não só sobre esportes. Lembre-se da última reunião familiar à qual você compareceu: todo mundo dá sua opinião sobre qualquer assunto, é uma coisa cultural. Sempre fazemos juízos de valor, então gostamos de chamar a atenção”, comenta. “Certamente alguém no Twitter acredita que alguém no Comitê Olímpico Mexicano lerá o seu tuíte o convidará para ser juiz.”

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