O salto de Nadia e o choro de Misha

Demorei 40 segundos para convencer uma menina de cinco anos de que a Olimpíada era algo para não se perder

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Demorei 40 segundos para convencer uma menina de cinco anos de que a Olimpíada era algo para não se perder — mesmo que você tenha quase um século de escolhas pela frente. Estávamos em um restaurante, e ela estava reticente quanto à viagem para o Rio de Janeiro: não queria passar os dias longe das casas da mãe e do pai.

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As quatro dezenas de segundos vieram da tela do meu celular. Era preciso antes de tudo convencê-la com a melhor das imagens. Cabia o bom senso: ela não ficaria fascinada pelas passadas de Emil Zatopek em Helsinque, em 1952, nem por Abebe Bikila vencendo descalço a maratona de Roma, oito anos depois. O negro Jesse Owens desafiando a doutrina ariana de Hitler com seus quatro ouros em Berlim, em 1936, e os panteras negras de punhos cerrados do México, em 1968, convenceriam um adolescente idealista, mas não aquela garotinha. Era preciso despertar o desejo.

O meu havia sido tocado pela imagem do urso Misha chorando no encerramento dos Jogos de 1980, em Moscou. Tinha apenas quatro anos. Nesses 36 anos que seguiram, já me questionei se aquela Olimpíada, cujo boicote pelos Estados Unidos foi sustentado como retaliação pela invasão soviética ao Afeganistão um ano antes, não havia sido salva por aquele bicho cujas lágrimas caindo tortas pelo rosto (uma imagem que soa como um jogo de Atari diante das definições quase reais de qualquer franquia de game hoje em dia) marcaram minha geração. Nem mesmo o feito dos iatistas brasileiros, que voltaram a conquistar para o país uma medalha de ouro depois de um hiato de 26 anos, superou aquela imagem.

Meu celular então buscou para a menina “Nadia Comaneci 1976”. O vídeo com a série completa que rendeu a primeira nota 10 da ginástica dura 3min11s. No entanto, bastaram os 40 segundos iniciais para que a garotinha ficasse inclinada, com o rosto paralisado e a boca aberta. Apenas perguntou: “Ela é uma criança?”

Sim, Nadia tinha apenas 14 anos quando obteve o feito. Havia pensado e mostrado o que de fato acreditava ser um momento mágico da Olimpíada. E me surpreendi que aquilo, 40 anos depois, ainda fascina garotinhas. Três meses atrás, quando procurava ingressos para a Rio 2016, não tive dúvida que a prova de ginástica seria o mais próximo que chegaria em conseguir agradá-la. Os quarenta segundos do vídeo me trouxeram a certeza. A reação seguinte já não continha resistência: ela queria ver como eram os outros esportes. Pediu um jogo de basquete, outro de vôlei. Ela já estava empolgada.

É a imagem que fortalece os jogos. Não a de quem sedia. Montreal, no Canadá, salvou sua Olimpíada porque havia nela uma Nadia Comaneci. A história guarda em seus arquivos uma competição tensa, que sucedeu o massacre de Munique, em 1972, e suas 17 mortes, e ao auge da Guerra Fria— a escolha da sede preteriu Moscou e Los Angeles, que receberiam os Jogos Olímpicos nas duas edições seguintes.

A Olimpíada do Rio não acontece em um momento particularmente bom para o país. Há mais tensão na cidade do que propriamente felicidade por sediar os Jogos. Talvez o clima da abertura chacoalhe o carioca como aconteceu há quatro anos em Londres.

Mas existe uma competição em andamento. No meio dela, haverá exibições como aquela de 40 anos atrás. Será a primeira oportunidade de a garotinha guardar suas memórias olímpicas. São três semanas para que imagens equivalentes ao choro de um urso e à exibição perfeita de uma pequena e jovem romena não sumam desse filme que ela começa a rodar. Se o Rio obtiver esse feito, não será pouca coisa.

Marcos Sergio Silva é jornalista, cobriu animadamente a Olimpíada de 2012 e a Copa do Mundo de 2014. Foi editor da revista Placar entre 2008 e 2015.