Qual seria o custo econômico de uma pandemia mundial? O armagedom em potencial dos vírus

Contaminação em massa com a gravidade da peste do século XIV levaria 5% do PIB global e milhões de vidas

Hospital dos Médicos sem Fronteiras em Paynesville (Libéria) durante a última epidemia de ebola.
Hospital dos Médicos sem Fronteiras em Paynesville (Libéria) durante a última epidemia de ebola.John Moore (Getty)

Mais informações

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que uma pandemia de moderada a grave custaria 570 bilhões de dólares. “É 0,7% da riqueza do planeta”, afirma José Luis Blasco, sócio da KPMG a cargo de Governança, Risco e Compliance. Mas uma epidemia de extrema gravidade, como a peste negra —a maior praga da história, que enterrou 200 milhões de pessoas no século XIV— cortaria 5% do PIB. Ou seja, cerca de 4 trilhões de dólares.

A ameaça parece próxima. A OMS publicou no ano passado uma lista de oito doenças (ebola, SARS, MERS, marburg, febre hemorrágica da Crimeia-Congo, febre de Lassa, febre do Vale de Rift e o vírus Nipah) que ameaçam se tornar uma epidemia junto com três (chikungunya, zika e uma febre asiática sem nome) que são um perigo próximo. Embora “a principal ameaça seja uma pandemia de gripe [influenza]”, defende Tony Barnett, especialista da London School de Higiene e Medicina Tropical.

O pior cenário

“É provável que a gripe ressurja, porque se trata de uma doença zoonótica transmitida pelas aves [incluindo as domésticas, aves de criação, vendidas no mercado], e ela provoca um forte impacto. Alastra-se com facilidade, causa mortandade elevada, e as vacinas demoram para ser produzidas”. E a gripe sozinha, caso aflorasse com virulência, custaria, segundo a Universidade do Sul da Califórnia (USC), 34,4 bilhões de dólares ao produto interno bruto norte-americano. E se a população não se vacinar, 45,3 bilhões de dólares.

O mundo do futuro se mostra preocupante. Em 2050 haverá 9,7 bilhões de pessoas. As cidades serão mais populosas, e a sociedade será uma placa de Petri que misturará pobreza, carência de infraestrutura básica, como a água, e desigualdade. Um ecossistema favorável a novos (e antigos) vírus que se espalharão com a facilidade proporcionada pelos tempos. Na primeira década deste século, mais de dois bilhões de passageiros viajam por ano de avião, contra cerca de 68 milhões nos anos cinquenta. Tendo em vista prevenir riscos atuais e futuros, a OMS criou um fundo de 500 milhões de dólares para ser usado em surtos de doenças infecciosas que tendam a se tornar pandemias. Um paliativo. “Sem dúvida haverá novos surtos. Por isso seria mais importante investir em infraestrutura sanitária, em sistema de vigilância de doenças, em desenvolver e distribuir medidas preventivas, como as vacinas”, argumentam Daniel Cadarette e David Bloom, professores da Escola de Saúde Pública de Harvard.

Obviamente é difícil parar o que ainda não existe. Vírus que sofrem mutação ou bactérias indiferentes aos antibióticos. É exatamente a resistência antimicrobiana que ameaça a vida e as contas do planeta. Um estudo financiado pela ONG Wellcome Trust revela que se até 2050 não forem tomadas medidas contra a resistência dessas cepas, serão perdidos 100 bilhões de dólares em produtividade e 10 milhões de vidas por ano. Mais mortes do que as provocadas em conjunto por câncer, diabetes, Aids, doenças diarreicas e acidentes de trânsito. A ameaça é tão verossímil que em setembro será discutida em Nova York na Assembleia Geral da ONU.

Além disso, há outro dano profundo. Mas intangível: a sobrerreação. O que é isso? Por exemplo “tirar as crianças da escola, evitar lugares públicos e locais de trabalho, mesmo que haja pouco risco de se infectar”, observa Fynnwin Prager, professor-assistente de Administração Pública da California State University Dominguez Hills. “Nossas pesquisas evidenciam que mudar os hábitos e evitar ir ao trabalho, viajar ou fazer turismo durante uma epidemia podem provocar perdas econômicas substanciais.” O SARS —que foi um vírus viajante— reduziu em 2% o PIB do Leste Asiático no segundo trimestre de 2003.

O medo da doença paralisa a vida e também a economia. E faz lembrar que são deixados à própria sorte milhões de seres humanos. Algo que tem remédio, e, além disso, um custo. Conseguir uma cobertura mínima universal da saúde exigiria o acréscimo de 100 bilhões de dólares aos 130 bilhões de dólares da ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD). Uma equação possível sob a aritmética da justiça. “Se todos os países de baixa renda aumentassem seus recursos fiscais em 20% [por exemplo, recuperando o dinheiro escondido em paraísos fiscais e eliminando as isenções para multinacionais] a lacuna financeira para alcançar a cobertura universal passaria de 100 bilhões de dólares para 28 bilhões de dólares", explica Rafael Vilasanjuan, diretor de Análise e Desenvolvimento Global do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal). Essa diferença poderia ser coberta pelo orçamento do Banco Mundial ou da ONU.

Custo em campo

Porque há um custo geral, mas também há outro, em campo. No Haiti, uma devastadora epidemia de cólera contabiliza desde outubro de 2010 pelo menos 9.000 mortos. Levaram para lá a bactéria (depois do terremoto do mesmo ano) as forças de paz da ONU. Sua erradicação custará 2 bilhões de dólares e muito sofrimento. Enquanto isso, no território da África Ocidental, instalações para tratar o ebola com 100 leitos custam cerca de 5 milhões de reais. A constatação da fragilidade dos fracos. “Os países com baixa renda são mais vulneráveis a epidemias e têm menos capacidade de mobilizar recursos para combatê-las”, relata Nikita Shah, economista da consultoria Capital Economics.

Só que às vezes, mais por acaso que por profilaxia, o desastre previsível não acontece. O zika vírus poupa a economia da América Latina porque seu maior impacto se dá no turismo, e a região depende pouco dessa atividade. No Brasil, epicentro do surto, representa apenas 0,3% de sua riqueza. Mesmo que a realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro aumente a preocupação. Não importa. Os vírus sofreram mutação. Já não são só um problema sanitário, e sim, acima de tudo, político. “A indústria farmacêutica quer que os governos financiem a inovação contra o zika e a resistência antimicrobiana”, critica Judit Rius, dos Médicos Sem Fronteiras. “Está bem, dizemos. Mas então precisam ser remédios baratos e para todos. E eles, claro, não podem fazer negócios.” As pandemias não entendem de livre mercado.