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Golpe na Turquia

Erdogan deve aproveitar para reforçar a democracia e unir o país

Apoiadores de Erdogan diante de telão.
Apoiadores de Erdogan diante de telão. REUTERS

O trágico balanço de mortos na intentona de sexta e sábado passados, 15 e 16 de julho, segundo os mais recentes números oficiais, ofusca a alegria diante do fracasso de um golpe de Estado tão insensato quanto inaceitável quando observado de qualquer parâmetro democrático. Por mais que sejam muitos e bem graves os problemas enfrentados pela Turquia, e realmente o são, tanto interna quanto externamente, nenhum deles teria sido solucionado com uma tomada de poder por parte dos militares. Ao contrário, nas atuais circunstâncias o triunfo do golpe e a eventual colocação dos destinos do país nas mãos de uma junta militar sem dúvida teria gerado uma espiral de violência, repressão e abuso dos direitos humanos de consequências incalculáveis.

É preciso aplaudir a reação tanto da população turca, que não se deixou amedrontar pelos militares e saiu à rua para desbaratar o golpe, como a firmeza das principais forças de oposição, que não hesitaram em colocar-se imediatamente do lado da institucionalidade e da democracia; sem esquecer o papel dos meios de comunicação, que uma vez mais demonstraram quão essenciais são como baluartes da democracia e das liberdades dos cidadãos.

O fracasso do golpe demonstra que a democracia turca deixou para trás os tempos em que os militares podiam fazer e desfazer a seu bel-prazer, ignorando a vontade da população democraticamente expressa nas urnas, uma maturidade que deve inspirar agora no presidente Erdogan e seus seguidores o desejo de unir o país sob uma liderança aberta e no interesse de todos, partidários ou não dele e de seu partido, o AKP.

Erdogan, que sem dúvida sai notavelmente reforçado desta intentona fracassada, tem todo o direito de investigar e depurar, até as últimas consequências, todos os elementos que, nos aparelhos do Estado, valendo-se dos instrumentos que os cidadãos colocaram em suas mãos para garantir seus direitos e liberdades, tenham se voltado contra eles. Pelo futuro da Turquia, e em honra à memória dos que perderam a vida opondo-se ao golpe, deve ficar claro que nenhuma instituição nem pessoa pode estar acima da democracia ou da Constituição.

Máxima esta que o próprio Erdogan e seus partidários deverão aplicar a si mesmos. Uma vez passado o momento do acirramento da tensão, que deu lugar a algumas imagens deploráveis de linchamento dos militares sublevados, é necessário que seja a justiça que, com plena independência, assuma a causa contra os golpistas e aqueles que os apoiaram. Neste sentido, nos preocupa a destituição, um dia depois do golpe, de milhares de juízes e promotores, e a detenção de dez magistrados do Supremo Tribunal. São fatos que podem minar ainda mais uma separação de poderes que já estava em questão antes do golpe, devido ao assédio contínuo de um Erdogan em claro movimento autoritário. O falido golpe deve servir para aprofundar a democracia, consolidar o Estado de direito e unir o país diante dos graves desafios que enfrenta, não para polarizar ainda mais a sociedade.

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