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Estratégica no passado, Venezuela é agora “elefante na sala” do Mercosul

Para analistas, comércio bilateral em crise não deve ser afetado por distanciamento do Brasil

A resistência do Itamaraty do interino Michel Temer em aceitar que a Venezuela assuma a presidência do Mercosul – posição endossada por outros membros, como a Argentina e o Paraguai – reflete o mal estar do bloco em relação à forma como a forte crise econômica e política do país vem sendo conduzida internamente. “A Venezuela se tornou o grande elefante na sala. Ninguém mais quer sair na foto ao lado do Nicolás Maduro”, diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV. Ainda que a presidência do Mercosul seja meramente simbólica e não confira grandes poderes ao país, Maduro poderia usar uma cúpula do grupo para mostrar ao mundo que a Venezuela não está isolada politicamente. “E esta é uma vitória diplomática que ninguém do bloco está disposto a conceder neste momento”, analisa.

Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante comemoração do dia da independência.
Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, durante comemoração do dia da independência. AP

A proposta do ministro das Relações Exteriores interino José Serra, apresentada nesta terça em Montevidéu, é que o comando da Venezuela seja ao menos postergado até agosto. Serra evitou citar a situação política e preferiu se concentrar no argumento de que o país de Maduro ainda não cumpriu com exigências antigas do bloco, como a adesão ao acordo tarifário. A resposta foi quase imediata. Poucos minutos depois, a ministra de Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez, classificou como "insolentes e amorais" as declarações em seu Twitter. "Serra se soma à conjura da direita internacional contra a Venezuela e viola princípios básicos que regem as relações internacionais", em alusão ao impeachment de Dilma Rousseff, considerado golpe pela gestão Maduro.

Longe da escalada verbal, o argumento de Serra a respeito das regras tarifárias é frágil, já que o Mercosul tem tolerado brechas nas regras de vários sócios e a própria Venezuela já presidiu o bloco, em 2013. Seja como for, os analistas se dividem quanto à conveniência da manobra.“Desde que ingressou no Mercosul, em 2012, a Venezuela não se enquadrou nas exigências. As violações são toleradas. Então tudo é possível do ponto regimental”, explica Stuenkel. O professor da FGV considera a saída do ministro do Itamaraty, intermediária em relação à oposição radical do Paraguai e em busca de negociação com os demais sócios, adequada porque o Brasil não poderia se colocar como protagonista num movimento anti-Venezuela enquanto enfrenta seus próprios problemas internos. “O processo do impeachment no Brasil é bastante delicado do ponto de vista democráticoe ainda não se concluiu”, destaca. Para Stuenkel, a Venezuela teria se tornado “ainda mais vulnerável e imprevisível” ao negar ajuda humanitária de outros países frente ao desabastecimento de produtos básicos para a população, que vão desde alimentos até artigos de higiene pessoal. Também ao reprimir violentamente protestos da oposição. “A relação bilateral com a Venezuela deixou de gerar benefícios mútuos. Neste momento, essa parceria só causa problemas para o Brasil e instabilidades para o bloco”, defende.

Na visão do analista de Vagner Parente, consultor sênior da Barral M Jorge, no entanto, o Brasil não deveria tentar impedir que a Venezuela presida o Mercosul, principalmente porque não há critério legal para isso. “Claro que o Mercosul enfrenta muitos problemas há anos, mas nada justifica rompimento institucional do bloco”, diz Parente.

Segundo o analista político Marcelo Suano, fundador do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (Ceiri), a permanência da Venezuela no grupo tem enfraquecido o “já moribundo” bloco. “Não apenas pelo descumprimento dos quesitos mínimos para ingressar no Mercosul, que minou a credibilidade do grupo, mas também porque a economia venezuelana está quebrada e em nada acrescenta do ponto de vista de consumo e de produção para os demais membros”, afirma. Segundo ele, caso Maduro se mantenha no poder, as relações comerciais na região serão enfraquecidas cada vez mais.

Papel econômico e diplomático do Brasil

Em 2006, quando começaram os preparativos para que a Venezuela ingressasse no Mercosul, o cenário era completamente diferente. Por muitos anos, o país foi um parceiro estratégico para o Brasil, enquanto o principal comprador de produtos de alto valor agregado do país na região. De fato, o maior consumidor de insumos brasileiros está na Ásia, a China. Mas o interesse chinês se restringe a produtos agrícolas e minerais, as chamadas commodities, cujos preços são altamente voláteis no mercado internacional e inferiores ao de produtos industrializados. “A Venezuela eleva a qualidade das exportações brasileiras”, explica Stuenkel, da FGV. Quase metade da lista exportações do Brasil para a Venezuela é composta de máquinas e equipamentos e de produtos industrializados do segmento alimentício e químico.

Desde 2012, contudo, com o agravamento da crise econômica na Venezuela, o fluxo de comércio com o Brasil caiu mais de 40%, passando de 6 bilhões de dólares para 3,7 bilhões, segundo dados de 2015 compilados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - um declínio que não aconteceu só com o Brasil.

A perda de atratividade da Venezuela enquanto parceiro comercial se estende também para o segmento empresarial. “A dívida do Governo Maduro com as empresas brasileiras passa de 5 bilhões de dólares atualmente e não há a menor garantia de pagamento”, estima Suano, do Ceiri. Para Vagner Parente, da Barral M Jorge, a atuação diplomática tem que levar em conta não apenas o curto prazo. “O rompimento com a Venezuela não seria estratégico nem para o setor privado, nem para o Governo brasileiro. No longo prazo, a Venezuela é um mercado importante para o Brasil. Quando a crise acabar, o país vai precisar de tudo e nós precisamos estar preparados para vender”, analisa.

No longo prazo, Stuenkel, da FGV, concorda que as relações com a Venezuela devam ser preservadas, para que nenhum país assuma o papel do Brasil nas relações comerciais, mas acredita que o momento enfrentando por Maduro representa uma “janela de oportunidade” para um posicionamento mais rígido com o país. “As relações com Maduro sempre foram conturbadas, mesmo com a Dilma Rousseff. Mas a Venezuela já não tem mais condições políticas e econômicas para retaliar o Brasil”, destaca.

No plano diplomático, a crise gêmea - no Brasil e no bloco - já deixa suas marcas e pode marcar uma retração estratégica do Itamaraty na região, de acordo com Maria Regina Lima, professora e pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. "O que me parece muito preocupante é que Nicolás Maduro prefere hoje tratar da crise venezuelana com um enviado norte-americano, Thomas Shannon, apesar de ele representar um Governo ideologicamente oposto (do que com lideranças da região). Os Estados Unidos certamente vão ocupar o espaço deixado pelo Brasil”, adverte a professora. Para ela, o discurso pró-negócios da gestão Temer, “esquecendo o Mercosul político e social”, significa “jogar por terra tudo o que foi feito em prol do protagonismo brasileiro na região” e também dos esforços para “deixar aos sul-americanos a solução de seus problemas”.

Com informações de Camila Moraes

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