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Sobre Messi, Freud e os argentinos

O país do craque é o único lugar do mundo onde ele é mais questionado do que reverenciado

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Mas na Argentina as coisas são sempre diferentes e mais complicadas do que parecem.

Há duas sextas-feiras, Messi jogou com a camisa alviceleste um amistoso contra a seleção de Honduras. Foi em San Juan, uma província na divisa com a cordilheira dos Andes, na fronteira com o Chile, onde os moradores nunca tiveram, e provavelmente nunca mais terão, a chance de ver uma estrela mundial dessa magnitude, ainda mais acompanhada por muitas outras figuras de destaque. Apesar disso, o estádio estava meio vazio. E não é a primeira vez que isso acontece.

Em nenhum lugar do mundo Messi recebe essas desfeitas.

Por que vem? Se ganhou tudo, se está claro que é o melhor jogador do planeta...

Todo o relacionamento de Messi com os argentinos tem sido cheio de mal-entendidos. A Argentina é o país que o deixou ir embora: ninguém viu nele a joia que era, e sua doença praticamente o forçou ao exílio na cidade do clube onde foi reconhecido desde muito pequeno. Quando já era um juvenil de 16 anos, seus anfitriões, aqueles que tornaram possível que ele fosse o que é, ofereceram a ele defender a seleção espanhola. Messi disse que não e começou um caminho tortuoso para ser aceito na seleção argentina: apresentou vídeos de seus golaços, pediram que enviasse partidas completas, se submeteu a essa nova humilhação, o deixaram esperando por dois anos, até que se convencessem de que era bom. Ele esperou, sem saber que anos depois teria de enfrentar acusações de amarelão, suspeitas porque não cantava o hino nacional no início das partidas, e estádios que, às vezes, não enchem para vê-lo.

Por que vem? Se ganhou tudo, se está claro que é o melhor jogador do planeta, o que tem a fazer no único lugar do mundo onde recebe mais questionamentos do que reverências, críticas do que aplausos, suspeitas do que homenagens? Em um de seus artigos, Freud repudiou o que ele mesmo chamou de "psicanálise selvagem", isto é, a mania de aplicar seus ensinamentos a qualquer um, em qualquer contexto. Em respeito a tal mestre, este artigo não vai cair na tentação de explorar se, em algum lugar de sua alma, Messi não é ainda um menino que tenta, obstinada e compulsivamente, ser aceito por uma mãe cruel que rejeita suas buscas infrutíferas por afeto. Mais ainda, se poderia acrescentar, agora que descobriu que o pai estava lhe enganando em assuntos contábeis.

Claro que essa relação também diz algo sobre os argentinos. Ninguém repreende em nada Di María, Aguero, Higuaín ou Mascherano, que é o mais amado. Jogam bem ou mal, e a vida continua. Messi, no entanto, é comparado o tempo todo com Diego Maradona, ou, pior ainda: é comparado com a lembrança do melhor Maradona. Isso é, ao mesmo tempo, uma honra e uma imensa carga. Faz um quarto de século que a Argentina sente falta do homem que deu a seu povo algumas das mais intensas emoções de suas vidas. Maradona os engrandecia com seus triunfos, os afundava depois em depressão com seus tropeços maiúsculos, e novamente voltava a inflar seu Orgulho Nacional com suas ressurreições heroicas. Nos lugares mais ridículos do mundo, eram elogiados: "Argentino? Maradona!". Os argentinos pedem a Messi para continuar essa história. E, em vez de um herói maltratado, ciclotímico, cheio de caprichos e que maltratava, aparece um profissional sutil, o melhor deles, de um esporte jogado em equipe, onde alguém só pode se destacar se existirem outros que colaborem com ele.

Compará-lo com o melhor Maradona é, ao mesmo tempo, uma honra e uma imensa carga

Por respeito a Freud, então, não se especulará aqui sobre a dependência de um povo com o fato fortuito de que nasça em seu meio um um herói salvador, a projeção sobre ele de suas esperanças e frustrações, sua resistência a entender que, talvez, o sucesso depende de um trabalho a longo prazo, de muitas pessoas, que fracassam repetidamente antes de obter a glória, se um dia a alcançarem. Se essa história tivesse um final feliz, um dia, em um estádio importante da Argentina, deveria ser com uma bandeira gigante com uma legenda que dissesse: "Perdão, Lio. Não te merecemos".

Mas imaginar finais felizes na pátria desejada por Messi é como acreditar em Papai Noel ou na existência do inconsciente.

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