Opinião
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Um tempo extraordinário

Não são bons tempos em muitas áreas. Mas, em meio ao tom lúgubre que domina as notícias, existe uma força transformadora

Este aniversário coincide com um momento de explosão do jornalismo. Vivemos uma época de intercâmbio maciço de informação, de amplo interesse pelas notícias, de comunicação global e instantânea, de enorme impulso criativo, uma etapa que este jornal aborda com o entusiasmo característico de um veículo que sempre quis estar na vanguarda de seu tempo. Vemos as mudanças gigantescas que estão acontecendo no campo da informação como um desafio e uma oportunidade. Uma oportunidade de levar nosso trabalho a muito mais pessoas, de conhecer melhor nossos leitores, de intercambiar nossos pontos de vista com eles, de responder de forma mais precisa a suas necessidades e seus gostos. Para isso, estamos nos transformando ao ritmo e com a intensidade que exigem os tempos, ou seja, a toda velocidade e de forma muito profunda.

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Estreamos, por ocasião deste 40º aniversário, uma nova Redação que responde às exigências de nosso trabalho na atualidade: digital, multimídia, concebida para nos permitir maior flexibilidade, melhor colaboração entre os profissionais mais diversos que hoje são necessários para a elaboração de nossos produtos. Hoje, trabalham junto com nossas equipes tradicionais designers, analistas de dados, desenvolvedores, editores de vídeo, especialistas SEO, peritos em redes sociais, jornalistas de dados… Todos eles enriqueceram nossa proposta. Mas também modificaram nossos hábitos, nossos horários, e até mesmo nossa linguagem. Hoje falamos mais de post que de corondel. A forma de fazer o EL PAÍS em pouco se parece com a de 40 anos atrás. Na realidade, em pouco se parece com a de alguns anos atrás.

Alguns veem nessa transformação enormes riscos para o jornalismo. Não digo que o caminho esteja livre e que não existam ameaças. A maior é a do desemprego e do empobrecimento da profissão jornalística. As novas formas de jornalismo ainda não encontraram um modelo de negócios que garanta a sobrevivência de empresas rentáveis com amplos quadros de funcionários. Não sei se isso voltará a existir. A tecnologia permitiu o florescimento de novos meios de comunicação com recursos mínimos, mas também destruiu milhares de veículos tradicionais em muitas partes do mundo e pôs em situação delicada todos os grandes jornais internacionais. Os problemas econômicos obrigou as empresas a reduzir as folhas de pagamento e remanejar estruturas claramente obsoletas.

Essa realidade não deveria nos levar a considerar a tecnologia um inimigo do jornalismo nem da qualidade da informação. Às vezes, o catastrofismo sobre as consequências da transformação em curso revela simplesmente o medo de ficar para trás. Não encontro nada menos jornalístico que a recusa a adaptar-se aos novos tempos. Pretender fazer as coisas como antes, embora a realidade exija insistentemente outra coisa é antijornalístico e é, sobretudo, suicida. Há anos a realidade já nos disse que os leitores estavam deixando de ler notícias no jornal de papel e que preferiam fazê-lo nos novos dispositivos a seu alcance: os computadores, os tablets, os smartphones. Hoje, mais da metade dos 16 milhões de leitores mensais que fazem do EL PAÍS o maior jornal mundial em espanhol leem no celular. Ressalto que isso nos obriga a mudar as formas de fazer as coisas, mas de maneira alguma desvirtua nossa função nem põe em risco a qualidade de nosso jornal. Em meu escritório na nova Redação do EL PAÍS coloquei uma das fotos mais emblemáticas da noite de 23 de fevereiro de 1981, aquela de um grupo de pessoas lendo avidamente exemplares do EL PAÍS sentadas na escadas do Hotel Palace, a poucos metros de onde acontecia o pior momento de nossa democracia. Escolhi essa foto para não esquecer jamais a razão pela qual este jornal existe: fornecer informação que permita à sociedade democrática defender-se das ameaças que sempre a espreitarão.

Vemos as mudanças gigantescas que estão acontecendo no campo da informação como um desafio e uma oportunidade

Um veículo com a extensão e a variedade do EL PAÍS serve, hoje, para muitas outras coisas. Para facilitar o diálogo e o entretenimento, por exemplo. Hoje fazemos isso com a ajuda de robôs e ferramentas tão sofisticadas que eu mesmo não entendo. Mas não acredito ser possível que, um dia, uma dessas máquinas faça uma notícia da mesma forma que um redator do EL PAÍS. O dilema entre o progresso e a tradição não é novo nem se limita ao jornalismo. A transformação digital é, provavelmente, o maior desafio que a humanidade vive desde a revolução industrial, e nenhum setor está a salvo, por mais que agora desfrute da passividade irresponsável em que o jornalismo permaneceu durante décadas. É, portanto, dolorosa e difícil de aceitar. Mas se deixarmos de lado o medo e nos lançarmos, com o espírito de um bom repórter, a descobrir a apaixonante proposta que temos pela frente, a variedade de meios para contar as coisas e contá-las melhor, com maior profundidade e de maneira mais atraente, entenderemos a grande oportunidade que temos diante de nós.

Não são bons tempos em muitas áreas que temos de cobrir diariamente como jornalistas, nem dentro nem fora da Espanha. Mas, em meio ao tom lúgubre que domina as notícias, pode-se notar uma força transformadora que nos permite conceber o futuro com esperança, a força representada por aqueles emigrantes que desafiam humilhações e maus tratos para proporcionar a seus filhos uma vida melhor, ou por aqueles milhares de jovens no México, na Índia ou no Brasil que imaginam um futuro criando aplicações que tornam nossa vida mais fácil. E no que se refere ao jornalismo, basta dizer que existem lá fora, neste momento, milhões de leitores olhando uma tela esperando para ler, ver ou ouvir o que tivermos para contar. Contemos a eles algo interessante.