Andrew Bird, sempre em busca da canção de amor perfeita

Em novo disco, o cantor registra o nascimento do primeiro filho, o câncer da esposa e de paixão Foi gravado às altas horas. E regado a uísque

O rosto de Andrew Bird aparece nitidamente abatido graças ao traumático descobrimento de que se é um quarentão durante pelo menos uma década
O rosto de Andrew Bird aparece nitidamente abatido graças ao traumático descobrimento de que se é um quarentão durante pelo menos uma décadaJesse Lirola

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Aos 42 anos de idade, Bird criou o seu disco mais heterodoxo. Ao menos no que se refere ao processo, pois logo se percebem, nele, os tiques e os toques de genialidade que caracterizam o artista prolífico, imperfeito, iconoclasta e admirado que ele é hoje, duas décadas e 16 álbuns depois de sua estreia. O novo trabalho, que acaba de ser lançado, responde a uma necessidade a mais: as canções contêm sentimentos desencontrados e simultâneos, como a felicidade de ter tido seu primeiro filho e o golpe da notícia de que sua mulher está com câncer.

“Mudar para Nova York para descansar a cabeça, ter um filho e ao mesmo tempo vivenciar a doença de minha mulher, tudo isso me levou a enfrentar a mortalidade na própria família. Foi um acúmulo brutal de sentimentos, e eu queria que o disco refletisse isso”, lembra o músico. “Por isso é que interferi em todo o processo, desde a primeira melodia até a última mixagem, passando pela produção. E com uma nova banca, mais direta, mais bruta. Este precisava ser o meu trabalho mais honesto, pois o que eu conto nele sou eu”.

Mudar para Nova York para repousar a cabeça, ter um filho e ao mesmo tempo vivenciar a doença de minha mulher, tudo isso me fez enfrentar a mortalidade em minha própria família. Foi um acúmulo brutal de sentimentos

Atenção: não se deve cair na tentação de considerar que este é o seu disco mais maduro. “Não gostaria que escrevessem que este é o disco em que Andrew Bird aparece crescido e adulto, pois isso não é verdade. Ele fala de um momento vital, mas não deve ser relacionado com a idade. Continuo sendo relativamente jovem. O mesmo músico de sempre”.

Bird afirma não ser um artista comprometido, mas, logo em seguida, se desmente: “Escrevi sobre o racismo, a violência policial em Chicago e a falta de sentido de ainda haver pena de morte em meu país. Mas não gosto de misturar aquilo que faço com temas políticos. Acabam saindo umas canções deprimentes demais”. E conclui: “Componho a partir de alguma emoção real. O que vem depois é imprevisível”.

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