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O que você pode aprender com quem entrou no Google sem saber nada de tecnologia

Conheça a história de quatro funcionários do gigante de buscas

Ana Torres Menárguez
Da esquerda para a direita, Fran Ruiz, Anaïs Pérez, Miquel Trías, Carmen García e Javier Martín.
Da esquerda para a direita, Fran Ruiz, Anaïs Pérez, Miquel Trías, Carmen García e Javier Martín.©Jaime Villanueva

As perguntas estranhas feitas no processo de seleção do Google não são um mito. Calcular quantas bolas de pingue-pongue cabem dentro de um ônibus de dois andares era, até há alguns anos, um dos testes de lógica que o candidato precisava resolver in situ, na frente de seu entrevistador. O objetivo era analisar a sua habilidade para se sair bem de um problema inédito. O tema causou tamanho interesse que, em 2012, o autor norte-americano William Poundstone publicou o best-seller Are You Smart Enough to Work at Google? (você é inteligente o bastante para trabalhar no Google?), um guia em que enfrentava alguns dos desafios de lógica colocados com mais frequência pela empresa em suas entrevistas.

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Em abril de 2015, o principal responsável pelos recursos humanos do Google, Laszlo Bock, publicou Work Rules, um livro em que afirmava que perguntas desse tipo não serviam para se prever o comportamento dos candidatos nos seus futuros postos de trabalho. Em vez disso, a companhia passaria a utilizar outros métodos, respaldados por pesquisas, para tentar captar as possíveis reações dos entrevistados diante de situações reais.

Google busca novos talentos no Brasil

H. M.

O Google inaugurou nesta semana, em Belo Horizonte, um novo escritório focado em engenharia, o único da América Latina. Na contramão da crise econômica brasileira, com a ampliação da empresa na capital mineira, o gigante de buscas está à caça de novos talentos no Brasil e espera contratar cerca de 100 engenheiros nos próximos anos. O novo escritório será dedicado a pesquisa, desenvolvimento e controle estatístico das buscas dos usuários.

Hoje, uma de cada dez buscas que uma pessoa de qualquer lugar do mundo faz no Google possui um código desenvolvido pela sede de Belo Horizonte, inaugurada em 2005. Atualmente, trabalham no local engenheiros de software de 12 estados brasileiros e também de 7 nacionalidades.

O centro de Belo Horizonte foi fundado há 11 anos, após a aquisição de uma empresa criada por professores da Universidade Federal de Minas Gerais( UFMG), a Akwan, que desenvolveu um serviço de buscas e chamou a atenção do Google. Segundo a empresa, a presença na capital mineira é parte de um investimento contínuo e de longo prazo do Google no Brasil.

Além do novo endereço em Minas, o gigante de buscas conta com um escritório e um Youtube Space em São Paulo, onde também planeja abrir um Google Campus, um centro de inovação e empreendedorismo. Também estão nos planos da empresa a inauguração de um Youtube Space no Rio de Janeiro.

Hoje em dia, esse teste, conhecido como General Cognitive Ability, continua fazendo parte do processo, mas está mais focado na realidade do mundo dos negócios, explica Javier Martín, diretor de recursos humanos do Google na Espanha. Perguntar quantos aviões sobrevoam Madri nos horários de pico é uma das opções. “Não se pretende uma resposta exata, mas sim ver como o candidato pensa e raciocina, e sua capacidade de identificar as variáveis. No caso dos aviões, ele pode se referir ao número de companhias aéreas que operam no país ou às conexões realizadas no aeroporto de Barajas”, afirma Martín.

Aqueles que pensam em entrar para o Google têm de saber que não é necessário ser um especialista em tecnologia para consegui-lo. “Há muitos formados que não se candidatam aos processos de seleção por terem ideias preconcebidas equivocadas. Não contratamos apenas engenheiros de informática ou frikis da tecnologia”, acrescenta o diretor de recursos humanos.

A empresa recebe anualmente uma média de 2,5 milhões de inscrições para as suas ofertas de empregos.

É imprescindível ter um bom domínio do inglês; a primeira entrevista é por telefone, e nesse idioma. “Uma das nossas regras é de que a nacionalidade do entrevistador e a do entrevistado devem ser diferentes”, conta Martín. Os 200 funcionários da sede do Google na Espanha, que abriu as suas portas em 2005 no 26º andar da Torre Picasso, em Madri, realizam mais de 50% de suas comunicações diárias em inglês.

Não se entra para o Google enviando o currículo e ligando insistentemente para os seus escritórios. A única forma de se apresentar para as vagas abertas oferecidas pela empresa é pelo site Google Careers, em que se pode realizar buscas personalizadas e filtrar por cidade ou região.

Além das famosas instalações com salas providas de redes para descanso, pebolim e comida de graça a qualquer hora do dia, no Google é possível fazer estágios de três meses em qualquer uma de suas 70 sedes, localizadas em 40 países, ou pedir transferência. Em 2015, 10% da equipe da Espanha optaram por essa possibilidade. “Incentivamos os funcionários a mudarem de função a cada dois anos, e para isso lhes damos uma formação permanente. Cada um recebe pelo menos 10 horas de aulas por mês. Eles avançam no ritmo da tecnologia”, garante Martín.

O perfil de quatro funcionários espanhóis da sede de Madri mostra que é possível entrar na empresa tendo um diploma de letras e sem quase nenhum conhecimento de tecnologia. Eis as suas histórias:

Fran Ruiz (49 anos), diretor de relações internacionais

"Nunca imaginei que iria conseguir; eu sou de letras"


Em 24 de agosto de 2006, a capa da The Economist o levou a repensar sua carreira. O título da reportagem, Who killed the newspaper (quem matou o jornal), previa o fim do jornalismo impresso para 2043. Depois de mais de 19 anos como jornalista em vários veículos espanhóis, Fran Ruiz decidiu ampliar o seu perfil profissional. Dois anos mais tarde, matriculou-se em um curso de economia e administração de empresas da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, com três meses de duração. Pediu uma licença em seu jornal, na época a Gaceta de los Negocios, e a empresa assumiu os custos da matrícula, cerca de 4.500 dólares, mantendo o pagamento de seu salário durante esse período.


Essa viagem mudou o seu destino. Foi contratado por uma consultoria italiana de relações internacionais, em sua sede de Madri, e, um ano e meio depois, foi selecionado pelo Google. "Passei por sete entrevistas, e em nenhuma delas me fizeram perguntas esquisitas. Focaram na análise da minha capacidade de resolver problemas e de liderança", conta. Não se esperava dele que tivesse noções básicas de programação nem que soubesse como lidar com os produtos da empresa.


"É preciso acreditar em si e estar muito bem em relação aos idiomas, isso é o mais importante", destaca Ruiz, que acaba de completar seis anos de Google, durante os quais fez estágios temporários nas sedes da Califórnia, Londres, Dublin e Paris. "Nesta empresa, você é avaliado a cada seis meses em função dos objetivos que atinge; são muito exigentes, mas se preocupam muito com o seu crescimento profissional".

Miguel Trías (32 anos), analista

"Não tinha tentado antes porque não tenho formação em tecnologia"


"A escala do tempo no Google é totalmente diferente da de outras empresas. Há mudanças a cada seis meses, e o ritmo de aprendizado é brutal". Formado em Física, primeiro a fazer um doutorado na Espanha sobre ondas gravitacionais, Miguel Trías diz que "o Google sempre foi o top, mas eu nunca tinha tentado antes porque achava que só o pessoal de informática entrava na empresa".


Depois de concluir o doutorado, ele cursou um mestrado de administração de empresas. "Eu me dei conta de como são poucas as possibilidades que a Espanha oferece para uma carreira de pesquisador e tomei outro rumo", explica.


Das entrevistas de seleção, ele se lembra que não se centraram em seus conhecimentos específicos, mas sim na sua capacidade de resolver problemas. "Durante os cinco anos de carreira aprendi a enfrentar problemas complicados e a conceber soluções criativas. A física trata disso, e foi o que eles valorizaram". Na sede espanhola, a maioria dos funcionários se dedica ao setor de estratégia de negócios digitais, e Miguel já está de olho nos Estados Unidos, onde se concentram a maioria dos departamentos de inovação. "Em dois anos eu gostaria de integrar a equipe de inteligência artificial".

Anaïs Pérez (32 Anos), diretoria de comunicação

"Eu não tinha experiência no setor de tecnologia"


Anaïs Pérez foi selecionada para um estágio no departamento de comunicação do Google poucos anos depois de se formar. Era 2007 e já haviam passado dois anos desde a inauguração da sede da empresa em Madri. "Eu não tinha experiência no setor de tecnologia, mas eles procuravam alguém que entendesse como funcionam os meios de comunicação tradicionais e que soubesse criar conteúdo para gerar publicação".


Depois de se formar em jornalismo na Universidade Carlos III, ela fez estágio na Telecinco e na Rede Ser, viajando depois para o México graças a uma bolsa do Banco Santander. Trabalhou durante um ano em jornal local de Tehuacán. "Meu principal desafio ao chegar no Google foi traduzir uma linguagem e alguns conceitos ininteligíveis para os jornalistas". Sete anos e meio depois, foi nomeada diretoria de comunicação.


Durante a carreira, Anaïs melhorou o seu inglês com duas passagens de três meses na Irlanda e em Londres. "Quando você entra no Google, o ritmo de aprendizado do inglês se multiplica e em poucos meses você se torna capaz de falar sobre qualquer assunto nesse idioma".

Carmen García (32 anos), gerente de contas estratégicas

"Precisava me reinventar e me encaixei bem no Google"


O perfil de Carmen García se diferencia pela sua experiência internacional. Formada em Engenharia Industrial pelo ICAL, cursou um MBA na Índia e trabalhou durante mais de um ano no setor bancário de Nova York. "Por razões pessoais, voltei a Madri e decidi tentar o Google".


Carmen acredita que foi selecionada por causa de sua experiência na área de negócios e por seu espírito de reinvenção. Constavam em seu currículo, também, um ano e meio de trabalho em uma startup e quase dois anos na consultoria Deloitte. "Dentro da carreira de engenharia, falta formação em negócios, que é a carência existente em quase todos os engenheiros", avalia. Diferentemente das demais empresas onde trabalhou, ela acredita que no Google há estímulo para a mudança de funções e a realização de novas ideias sem medo do fracasso. "Permitem que você arrisque. A filosofia é no sentido de experimentar e avaliar os resultados. É muito difícil cair na monotonia ou se entediar"

As quatro entrevistas presenciais para entrar para o Google

Para participar dos processos de seleção, é preciso analisar os cargos oferecidos no site Google Careers e enviar a documentação solicitada. Se o perfil se encaixar, é feita uma primeira triagem mediante um telefonema em inglês.

Se o candidato passar por esse teste, seguirá para a etapa seguinte, que é constituída de quatro entrevistas presenciais. Cada uma é conduzida por um funcionário do Google, normalmente o responsável pelo setor da vaga que está sendo oferecida, o superior desse funcionário, alguma pessoa com uma posição semelhante e uma outra de outro departamento. Em cada um desses testes, realizados por funcionários de diferentes gêneros e nacionalidades, é aferido um tipo concreto de habilidade:

-Googleyness: analisa-se a capacidade do candidato de se encaixar bem na cultura corporativa da empresa. Mede-se a sua disposição para o trabalho em equipe e para o aprendizado autônomo, entre outros itens.

- General cognitive ability: consiste em uma série de perguntas sobre possíveis desafios e situações de vulnerabilidade relacionados com o mundo dos negócios, para analisar a capacidade de raciocínio e de encadear argumentos lógicos.

- Liderança: é focado na análise de sua capacidade de mobilizar o restante da equipe. O candidato é questionado com base em situações concretas em que liderou a gestão de alguma crise corporativa ou liderou uma equipe para resolver um problema concreto.

- Conhecimento técnico do trabalho a ser executado: nas palavras do diretor de recursos humanos do Google Espanha, Javier Martín, esta quarta entrevista é a que menos conta na hora de selecionar um candidato.

É possível também conhecer as ofertas para a realização de estágios nas diferentes sedes internacionais neste site.

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