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Europa unida contra o desafio terrorista

O brutal atentado jihadista de Bruxelas exige uma resposta comum da União Europeia

Operação policial em Bruxelas depois dos atentados do 22 de março.
Operação policial em Bruxelas depois dos atentados do 22 de março.CHRISTIAN HARTMANN (REUTERS)

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O autodenominado Estado Islâmico voltou a acertar nesta terça-feira um golpe duríssimo no próprio coração da Europa. O duplo atentado jihadista cometido em Bruxelas, causando a morte de pelo menos 30 pessoas e dezenas de feridos, não significa apenas mais um atentado em uma das capitais da Europa (como os de Paris, Londres ou Madri), mas um verdadeiro desafio às instituições da União Europeia e, portanto, a todos os seus cidadãos, que podem ser vítimas da violência a qualquer momento.

Esse desafio exige uma resposta comum de todos os Estados membros da UE, incluindo medidas de caráter político, militar, policial e de inteligência. Se o velho continente pretende ganhar a guerra contra o terrorismo jihadista, terá de superar as diferenças nacionais e colocar em ação um plano autenticamente europeu que faça frente ao maior desafio –ao lado do da imigração—que tem adiante. Não se pode esquecer, além disso, que os refugiados que chegam à Europa fogem dos mesmos terroristas que atacam as cidades europeias.

Em novembro passado, após o massacre de Paris, o Governo francês abriu mão de solicitar a aplicação da cláusula de solidariedade prevista no artigo 222 do Tratado da União Europeia, que implicaria uma resposta coletiva e coordenada por parte da UE. Ao contrário, preferiu agir isoladamente, amparando-se no artigo 42, que colocava a resposta em um plano intergovernamental e fora das instituições europeias.

Quatro meses depois, essa decisão se mostra equivocada, levando-se em conta que é provável que os terroristas que agiram em Bruxelas fizeram parte dos mesmos comandos que assassinaram em Paris. Nem aquele nem este atentado procuravam atacar uma cidade ou um país, mas sim um grupo de Estados que desenvolveram um modelo de civilização livre, próspero, solidário e tolerante com todas as culturas.

Não estamos diante de lobos solitários nem de grupos marginais, mas sim de jovens europeus radicalizados que odeiam esse modelo e estão dispostos a matar e morrer em uma guerra sem limites. São comandos bem organizados, com apoios locais e uma formação militar na Síria e em alguns países da África.

A insegurança, a crise de asilo e refúgio e o aumento do populismo podem destruir o espírito europeu

A Europa enfrenta um desafio enorme e muito delicado, que não pode ser enfrentado de forma individual por seus estados membros. É preciso encará-lo em conjunto, para evitar que os erros evidentes de inteligência de alguns países possibilitem a ocorrência de novos atentados desse tipo.

A resposta exige, em primeiro lugar, um grande acordo político das instituições e de todos os países para atuar de maneira coordenada. Faz tempo que a União Europeia não possui fronteiras internas (embora, nos últimos meses, elas se tenham fechado por causa da crise dos refugiados) e se torna imprescindível buscar respostas europeias, pois a insegurança terrorista, combinada com a crise de asilo e refúgio –ao lado da ascensão dos diversos populismos--, pode derrubar o espírito que engrandeceu a Europa.

O desafio exige, também, medidas conjuntas nos terrenos militar, policial e de inteligência. É preciso agir militarmente contra o EI, quando e como for (e com o apoio de outras potências mundiais e dos países árabes atingidos), e policialmente contra os comandos que apenas aguardam a sua hora de matar. Mas, acima de tudo, é preciso aperfeiçoar os sistemas de inteligência e definir as regras do jogo na UE para investigar os milhares de cidadãos potencialmente perigosos. Sem violar o princípio da presunção de inocência, mas também sem nos fazermos de inocentes e amarramos as nossas mãos nas costas no momento em que a Europa inteira sofre uma ameaça nítida e clara.

Graças ao projeto europeu de integração, várias gerações de cidadãos não conheceram a guerra. Mas conhecem e sofrem, sim, o terrorismo, e terão de viver por muito tempo sob a sua terrível ameaça. É o sinal dos nossos tempos. Não se trata de iniciar uma discussão conceitual para saber se estamos em guerra ou não: o importante é ter claro que, diante de um novo modelo de terrorismo, selvagem e indiscriminado, as velhas respostas militares e policiais já não são suficientes.

Na Espanha, praticamente todos os partidos souberam responder com unidade, deixando de lado as disputas ideológicas ou pré-eleitorais, alinhados aos acordos assinados nos últimos meses contra o terrorismo jihadista. O Podemos, que se coloca fora desse grande pacto, deveria se dar conta de que de nada servem as mensagens de solidariedade quando se mantém como mero observador em uma luta na qual é preciso se comprometer.