Só o Rio pode salvar o Brasil

Os Jogos Olímpicos são também sobre apresentar o país ao mundo, aspecto não alcançado pelo Governo do país

Desfile olímpico de alunos da rede municipal do Rio.
Desfile olímpico de alunos da rede municipal do Rio.Tânia Rego (Agência Brasil)

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Quando a Presidenta da República passou a flexibilizar o gênero do seu cargo, enxerguei ali algo interessante pois de fato o vocábulo tinha origem na premissa de que a função era para homens, não apenas no país mas ao longo da história. Salvo absurdos, a língua é dinâmica, é também a pátria. Haveria de convir uma nação mais afinada com o tempo atual.

A mandatária da nação apresentava então uma razão nova ao mexer com símbolos, inovando e provando do mesmo modo com atos. Chacoalhar a semiótica do país poderia ser uma boa, acreditava eu.

Passados mais cinco anos, depois de sequência grotesca de gafes, e memes de Internet, onde destaca-se “saudar a mandioca”, “mulheres sapiens”, “armazenar vento”, “respeito pelo ET de Varginha” e mais recentemente, a “mosquita" do Aedes, fica claro um certo desprezo pela inteligência da população, valendo-se de estratégias de comunicação sado-masoquistas.

O fato de sermos um país desigual e injusto, com muita exclusão, não significa que nossa população mais socialmente vulnerável seja estúpida ou incapaz de construções cognitivas mais elaboradas, pelo contrário, a luta cotidiana dá ao brasileiro a feição dos fortes, dos competentes, dos sagazes, da inteligência atávica, pois é nesta criatividade generosa que residem as forças da reinvenção nacional, e não nos poucos e seletos campeões nacionais inflados com recursos públicos.

Radicalize o acesso à cidadania e às oportunidades, e teremos uma geração de médicas, engenheiras, físicas, diretoras, gerentas, presidentas, chefas e até CEAs (liberdade poética minha). Essa força não nos tirarão.

O arquétipo criado pelo marqueteiro, hoje encarcerado em Papuda, era o da rainha, para a primeira campanha eleitoral, em 2010. Um signo acima da vida plebeia, da lei, ungido por deuses. Pois estamos agora cá perdidos num país-alice, através do espelho, com uma rainha vermelha a gritar aos subalternos: "Cortem-lhe a cabeça!".

A primeira cabeça cortada foi o impacto positivo geopolítico das Olimpíadas de 2016. Essa oportunidade perdeu-se. Mesmo a riqueza da alegria e da hospitalidade dos cariocas não serão suficientes para contornar a depreciação da imagem nacional, paulatinamente desconstruída, em sucessão inconsequente de despreparado, má gestão, e péssima habilidade retórica. Se por um lado parte dos investimentos financeiros vem do Governo federal, por outro seria como se houvesse cláusula que permitisse a depreciação da imagem do país vinculado a cada real gasto.

Os Jogos são também sobre apresentar o país ao mundo, inspirado pelo espírito olímpico e por uma ideia utópica de humanismo universal, aspecto não alcançado pelo governo central do país.

Contudo não coloquemos tal condução em bases exclusivas da inépcia, pelo contrário, pelos cantos surgem notícias, poucos difundidas, visto seus aspectos técnicos, mas que são estruturadas, coesas, demonstrando sofisticação, objetividade e eficácia: as novas flexibilizações para licitações públicas através do Regime Diferenciado de Contratações (RDC); a MP 703 que abranda a Lei Anticorrupção e os acordos de leniência.

Há uma inteligência sombria por detrás do memes das redes sociais: enquanto rimos dos vídeos, riem de nós.

Não podemos destruir a oportunidade destes Jogos. O risco já é imenso. Não teremos os resultados ambientais prometidos, a performance brasileira no quadro de medalhas não parece que será aquela que poderíamos ter, cujos centros de treinamento sem uso evidenciam.

Resta a cintilar o conceito que Barcelona ensinou ao Rio: a cidade deve servir-se dos jogos e não os jogos servirem-se da cidade. Que numa outra interpretação poderia também ser: o governo local pode representar o governo central. A cidade pode ser a imagem do país.

Nas novas condições urbanas criadas no Rio reside a oportunidade de demonstração de uma nova força geopolítica, onde o centro da cidade expressa nova monumentalidade e sinalização forte na direção da reconstituição dos arcabouços de planejamento urbano desta mesma cidade: menos e maior controle sobre a expansão da mancha urbana; mais, melhores e mais sistêmicas políticas territoriais que visem a integração; fomento à verdadeira reocupação residencial da centralidade histórica. Os fundamentos para esta construção estão lançados hoje no Rio. No mesmo centro onde nos reunimos pelas Diretas Já em 1984, onde reclamamos de cidades inacessíveis em 2013, teremos novos elementos de atração. Este é o melhor parque olímpico que há.

Este novo espaço público, conquistado sob uma via elevada rodoviária, sobre áreas militares vedadas a fruição, junto a baía que mirávamos de cima, a 70 km/h, e que agora vemos na velocidade do caminhar, ficando evidente e reais seus problemas; é neste novo lugar, que outras políticas precisam somar-se.

É necessário concentrar esforço na manutenção da qualidade do espaço público como esfera pública para todos, como lugar do pedestre, pelo seu ordenamento, pela segurança, tendo a possibilidade de geração de confiança. Onde a autoridade é firmada pela fiscalização e atitude altiva, não por bordoadas.

Neste espaço público do Centro do Rio, criado para 2016 e além, cabe a diversidade, a inclusão, a moradia acessível, a resiliência, a função social da propriedade. Cabem oportunidades para as pessoas. Cabe uma nação. Cabe o mundo.

Washington Fajardo é arquiteto e urbanista, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural.

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