Seleccione Edição
Login
TRIBUNA

Cada um no seu lugar ou todos juntos e misturados?

O diálogo com uma escuta verdadeira parece ser a única possibilidade que temos ao nosso alcance para abrirmos novos caminhos

Cada um no seu lugar ou todos juntos e misturados?

Junho de 2013 marcou uma mudança de perspectiva no cenário político brasileiro, quando mais de um milhão de pessoas, juntas e misturadas, mobilizadas pelas redes sociais, saíram às ruas para demandar mais qualidade de vida, sem as palavras de ordem de partidos ou movimentos sociais, mas com a voz do protagonismo e a autoria da autonomia cidadã.

Essa mesma autonomia e protagonismo, no entanto, também geraram verdadeira guerra durante a campanha presidencial de 2014, em torno de posições governistas versus oposicionistas e, desde então, tem gerado posturas rancorosas e violentas, que se espraiam sobretudo pelas redes sociais, onde a falta de diálogo impede avanços na direção de saídas para as crises que assolam o Brasil nesse momento.

A velocidade das mudanças tecnológicas do mundo atual, a quantidade sem fim de informações, a pasteurização de um conhecimento descontextualizado, a dispersão e a fragmentação das experiências adquirem concretude nas inovações tecnológicas que permeiam o dia a dia das pessoas.

Considerada como libertária por alguns, a Internet passa a ser o centro de gravidade da sociedade, onde se localizam a autonomia do indivíduo, sua auto-organização e a recusa de restrições coletivas. Configura-se como espaço para democratização do conhecimento, que se torna acessível a todos, de modo a quebrar barreiras antes intransponíveis.

A vida virtual possibilita também a diversidade de públicos, reunificados por uma circulação mais fluida e aberta que gera uma multiplicação de enclaves, grupos ou tribos que se reagrupam por novas lógicas que não a proximidade espacial.

A democratização da palavra abre o espaço da visibilidade, especialmente, nas redes sociais, onde a maioria dos novos emissores fala de si mesmos, revelando o exibicionismo e o espetáculo, também característicos de nossa era. É a transformação do universo anônimo em um espaço familiar na busca de reconhecimento.

Comparada a um bazar que tem de tudo e de forma desordenada (Dominique Cardon), a Internet possibilita, de um lado, o agrupamento de coletivos frágeis e cooperações fracas; e de outro, mobilizações imprevistas de baixo para cima e coletivos heterogêneos, que não querem obedecer a um centro nem repetir palavras de ordem, como vimos em manifestações em diversas partes do mundo e no Brasil, em junho de 2013, e, de certa forma, na ocupação das escolas públicas no estado de São Paulo por estudantes, no segundo semestre de 2015.

É justamente no contexto dessa contemporaneidade, marcada pela modernidade líquida (Zygmunt Bauman), individualização, rapidez, fragmentação, inovações tecnológicas e porosidade do espaço da sociabilidade, que assistimos aos radicalismos de toda sorte. A Europa está atravessada (literalmente) pelo acolhimento/repúdio aos imigrantes e refugiados. Os Estados Unidos unem a temática dos imigrantes à dos negros dentro da rivalidade entre republicanos e democratas na corrida eleitoral.

No Brasil, desde as eleições de 2014 assistimos à destilação de ódios que opõem de forma concreta PT X PSDB, desdobrando-se em vários outros radicalismos como: elite X povo; esquerda X direita; liberais X visão estatizante; conservadores X progressistas; grandes X pequenos; privado X público ou estatal, etc. A lista é extensa, chegando até a questões menores que, não raro, ganham espaço desproporcional na mídia.

Várias são as hipóteses explicativas para esse fenômeno, tais como a perda das tradições e do sentido de acolhimento e pertencimento do mundo contemporâneo, que acabam por gerar essa necessidade de interação nas redes sociais como paliativo para cobrir essa falta. Nas redes sociais, localizamos pessoas e grupos que pensam e agem como nós, rompendo a sensação de solidão e, ao mesmo tempo, nos fortalecendo e nos empoderando.

Ao se sentirem fortes e reconhecidos e sem o peso da autoridade ‒ ao contrário, com aval da sociedade, que dá autonomia, liberdade, garantindo a máxima de que todos podem ‒, todos têm voz e espaço. Assim, a palavra nas redes sociais por vezes adquire um traço extremamente agressivo, gerando inúmeras situações de violência pública. Impera a total falta de diálogo, de escuta do outro, que, ao ser taxado com algum rótulo, não tem legitimidade perante o bloco opositor. Parecem ser em vão as tentativas de diálogo, de esclarecimento, de debate de ideias, como ilustra o caso recente do bate boca na rua com o cantor e compositor Chico Buarque.

Amartya Sen discute, de forma aprofundada, como as questões de identidades, que geram violência, se multiplicaram no mundo inteiro. A identidade pode ser fonte de generosidade e riqueza e, ao mesmo tempo, de violência e terror, como vimos recentemente com as ações do Estado Islâmico e da Al-Qaeda. Cada pessoa pertence a vários grupos como parte de instituições, tais como família, escola, clubes, associações, trabalho etc., onde desempenha identidades específicas. Ora, nenhuma delas isoladamente pode ser considerada a única daquela pessoa. A liberdade de decidir nossas lealdades e prioridades aos diferentes grupos aos quais possamos pertencer é uma liberdade especialmente importante, que temos razão para reconhecer, prezar e defender.

Nossas identidades estão apoiadas na pluralidade do mundo hoje, e a importância de uma identidade não elimina a importância da outra. Mesmo dentro de uma mesma cultura vamos encontrar variações internas, diferentes atitudes, comportamentos e convicções. Pertencer a uma comunidade pode ser forte, mas isso não elimina outras identidades. É preciso respeito às várias identidades que o sujeito possui (e sempre possuirá) simultaneamente.

Sabemos que a cultura não é um elemento determinante, estanque e imóvel, mas que interage com outras determinantes da percepção e ação social. A liberdade aumenta as escolhas e as possibilidades de pertencer a várias culturas e identidades. Nesse contexto, os radicalismos devem ser debatidos, abrindo-se as possibilidades de escolha.

Nos tempos atuais, parece prevalecer a determinante de CADA UM NO SEU LUGAR E COM OS SEUS, e no Brasil isso não é diferente. Exemplos variados nos dão conta disso, desde as grades que cercam e separam os condomínios de alto luxo, passando pelo enfrentamento aos “rolezinhos” de jovens moradores de periferia, que buscam fazer valer seu direito à cidade, até casos pessoais, como durante a campanha presidencial de 2014, quando grupos diversos tentaram desconstruir minha trajetória profissional na educação e nas ciências sociais, afirmando que minha história familiar (vista como única identidade possível) não me permitia superar uma visão de classe na luta por mais justiça social em uma sociedade sustentável.

Nesse contexto, estão presentes a falta de pensamento, o vazio contemporâneo propulsor de agressividade e violência e a necessidade de preservação de um espaço comum, ou seja, um espaço público de convivência. Um espaço de interações entre singularidades diferentes.

Márcia Tiburi, ao falar desse vazio geral, destaca que estamos evitando os questionamentos e o diálogo pelo isolamento dentro das comunidades virtuais, pois as pessoas sentem verdadeiro desespero em se verem navegando em mar aberto. Todos preferem ancorar na ilha que já conhecem, em nome do mito da segurança ou do conservadorismo. Dessa forma, o outro ameaça nossas certezas, exige demais e põe em cheque nossos valores e afetividades. Ouvir o outro é insuportável nos dias de hoje, revelando nossa impotência para o diálogo. Conversamos com nossos pares e saímos felizes, pois somos contemplados narcisicamente.

Essa impotência para o diálogo, para ouvir o diferente precisa ser quebrada, ao menos por aqueles que não pretendem ficar ilhados, olhando o barco afundar, mas ainda acreditam em utopias e insistem na busca por alternativas. Uma citação de Isak Dinesen aponta para a recuperação da narrativa nos dias atuais, quando ele diz que todas as mágoas são suportáveis quando fazemos delas uma história, ou contamos uma história a respeito.

A narrativa pressupõe um narrador e um ouvinte, é o espaço entre as pessoas, da interação social, do espaço do público do mundo comum, apontado por Hannah Arendt. Narrativas têm o poder de fazer pensar, ler, lembrar. Apresentam o potencial não apenas de contribuir para a inteligibilidade e o conhecimento do mundo, mas sobretudo de possibilitar o encontro com o sentido do mundo, com seu legado, com as pessoas em suas ações e palavras que nos antecederam, assim como com seus conhecimentos. Hannah Arendt enfatiza que narrativas permitem o encontro com o passado, não para trazê-lo de volta, exatamente como era, mas a fim de descobrir o sentido, como pérolas que nos são trazidas e apresentadas após o mergulho na nossa herança simbólica cultural e histórica.

Nossa busca incessante pelo sentido das coisas, por um lugar de pertencimento ao mundo passa por pensar o mundo no espaço público, isto é, a partir do ponto de vista do outro, no espaço entre as pessoas, na interação com o outro, a partir das nossas diferentes identidades, como apontou Amartya Sen. O diálogo com uma escuta verdadeira parece ser a única possibilidade que temos ao nosso alcance para abrirmos novos caminhos possíveis para alcançarmos uma melhor qualidade de vida como gritaram milhares de pessoas em junho de 2013, mas com a utopia de todos juntos e misturados.

Maria Alice Setubal, a Neca, é formada em ciências sociais pela USP, com mestrado em ciências políticas pela mesma instituição e com doutorado em psicologia da educação pela PUC-SP. Preside os conselhos do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e da Fundação Tide Setubal. É autora, entre outros, do livro Educação e Sustentabilidade – Princípios e valores para a formação de educadores (Editora Peirópolis, 2015). Foi assessora de Marina Silva na campanha presidencial de 2014.

MAIS INFORMAÇÕES