Países ricos marcam o passo da economia em 2016

Crescimento em 2016 será mais sólido nos países desenvolvidos que nos emergentes

Luis Tinoco

“Seis anos depois de a economia mundial emergir da recessão mais ampla e profunda desde o pós-guerra, a volta a uma expansão robusta e sincronizada continua incerta”, explica Maurice Obstfeld, conselheiro econômico do FMI, no último World Economic Outlook publicado pelo organismo. “Além disso, os riscos de baixa para a economia mundial parecem agora mais pronunciados que há poucos meses”, acrescenta.

Como já ocorreu um ano atrás, o conceito que mais se repete nos boletins de previsões é o de divergência. Os países desenvolvidos terão um crescimento mais sólido que os emergentes, mas dentro de ambos os grupos também há diferenças. Os Estados Unidos o farão melhor que Europa e Japão; enquanto a Ásia gozará de melhores condições que a América Latina. Além disso, como as economias estão em distintas fases do ciclo, as diferenças em políticas monetárias se acentuarão. Enquanto os EUA já começaram a elevar taxas, uma receita que os especialistas acreditam que o Reino Unido copiará nos próximos meses, Europa e Japão manterão suas políticas expansivas pelo menos até 2017.

“Essa marcada divergência cíclica representa um grave risco econômico e deflacionista em todo mundo para o qual não existe um remédio óbvio, já que a margem oferecida pelas medidas de política monetária está quase esgotada e os preços das matérias-primas já se encontram em níveis baixos”, adverte Janwillem Acket, economista-chefe do Bank Julius Baer.

Por mais um ano os EUA serão a locomotiva do mundo. No entanto, a economia norte-americana começa a entrar em um momento muito mais maduro depois de um longo período de expansão. “A atual fase especuladora, que já soma seu sétimo ano consecutivo, está durando mais que sete dos dez ciclos especuladores registrados depois da II Guerra Mundial. Desses ciclos, o mais duradouro até hoje foi de quase dez anos”, recorda Simon Ward, economista-chefe do Henderson Global Investors.

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Em 2016, o grande desafio para os EUA – e em grande medida para o resto do mundo – será a gestão feita pelo Federal Reserve da normalização das taxas de juros. A política monetária do maior banco central do mundo tem um claro impacto nas condições de financiamento empresarial e na evolução do dólar. Um ritmo de altas mais rápido do que o desejável poderia constituir um freio para o crescimento norte-americano ao reduzir o crédito e encarecer as exportações. “O Fed é o fator-chave para as economias desenvolvidas”, afirmam funcionários do Bankinter. “Se continuar conseguindo convencer sobre seu enfoque suave com relação aos aumentos de taxas e acertar o ritmo e a profundidade que aplicará, tudo ficará mais fácil. Até agora tem conseguido, mas não pode se permitir o luxo de errar”, acrescentam. A pesquisa dirigida pelo próprio Fed prevê que as taxas chegarão no máximo a 1,25% no próximo ano, frente à situação atual que oscila entre 0,25% e 0,5%.

No que se refere à Europa, a recuperação se encontra em uma fase mais atrasada e incerta que nos EUA, mas o consenso do mercado prevê que o Velho Continente manterá uma tendência de aceleração gradual que o levará a registrar o maior crescimento desde 2011. “Esperamos que a economia europeia se acelerará moderadamente graças ao estímulo das políticas fiscais e a condições monetárias muito favoráveis”, ressalta David Semmens, analista do HSBC Global Asset Management. “Tanto as empresas como os lares europeus se beneficiam do petróleo barato e agora só falta uma melhora do mercado trabalhista para dar um impulso adicional ao consumo”.

Obama fala por telefone ao lado do vice-presidente Joe Biden.
Obama fala por telefone ao lado do vice-presidente Joe Biden.

Os ventos que impulsionaram a atividade na zona do euro em 2015 – queda dos preços da energia, depreciação do euro e baixas taxas de juros – vão se manter no próximo ano, mas sua contribuição para o crescimento será menor. Apesar do ambiente favorável, os especialistas advertem que a região continua sofrendo importantes desequilíbrios. “O investimento empresarial mostra sintomas de debilidade”, alerta Alejandro Vidal, diretor de estratégia de mercados do Banco March. “Este baixo ritmo de investimento reduz o crescimento potencial da economia, o que aliado a um nível de desemprego ainda elevado na região, poderia refrear mais do que o previsto o impulso do consumo”, acrescenta Vidal.

A Espanha e as urnas

A Espanha voltará a ser, dentro da zona do euro, um dos países que mais crescem em 2016. No entanto, o ritmo de melhora será moderado, segundo quase todos os prognósticos. A última estimativa do FMI fala de uma ascensão de 2,5% para o PIB espanhol frente aos 3,1% previstos para 2015. “A economia espanhola freará seu crescimento e o novo Governo saído das urnas deverá enfrentar importantes desafios de consolidação fiscal e reformas institucionais”, explicava Roberto Ruiz-Scholtes, do UBS, em uma nota aos clientes há algumas semanas. Os grandes riscos da economia espanhola, na opinião do consenso do mercado, continuam sendo o equilíbrio das contas públicas, o elevado endividamento (público e privado) e uma taxa de desemprego que continuará acima dos 20%.

Um fator que pode ter impacto na evolução econômica da Espanha em curto prazo é o resultado das eleições. No novo Parlamento, nenhum partido político tem maioria e se aproxima um longo e complexo período de negociações. Grande parte dos analistas recorda que o mercado não é amigo das incertezas, circunstância especialmente relevante no caso espanhol devido a sua dependência do financiamento estrangeiro. “Sem uma coalizão clara no Parlamento, a incerteza é alta e podemos esperar longas negociações entre os diferentes partidos. Isso é negativo para o mercado espanhol pois os investidores poderiam permanecer à margem até a situação se esclarecer, e não se avançará nas reformas até que se forme Governo”, opina Fabio Riccelli, gestor do fundo Iberia Fund do Fidelity.

Álvaro Sanmartín, economista do grupo de capital de risco MCH, destaca como fator positivo do resultado eleitoral na Espanha o fato de que os partidos “tradicionais” continuem sendo os dois maiores, o que pode dar tranquilidade ao mercado ao evitar outros cenários “mais perturbadores”. Em sua opinião, abre-se uma etapa política “interessante”, que pode gerar um pouco de instabilidade, mas que, se administrada com “inteligência”, pode até se revelar positiva. “Não descartamos que o PP, logo veremos se liderado por Mariano Rajoy ou não, consiga a abstenção de Cidadãos e do PSOE em troca de uma reforma constitucional que ajude a resolver alguns dos problemas e desafios que o país enfrenta. Talvez um Governo em minoria dessas características não consiga esgotar a legislatura, mas é possível que seja capaz de promover algumas reformas consensuais que claramente são necessárias”, conclui Sanmartín.

À parte os países desenvolvidos, a China se apresenta como a grande incógnita para o futuro da economia mundial. O Governo de Pequim, além combater importantes desequilíbrios internos (bolhas na Bolsa e no mercado imobiliário), tenta reorientar sua economia de um modelo que privilegiava a exportação e o investimento para um padrão mais baseado no consumo, incluídos os serviços. Em longo prazo essa abordagem garante um crescimento mais sustentável, mas em curto prazo pode gerar uma freada na atividade do país com o consequente efeito dominó nas demais economias.

“Durante 2015 a preocupação com a China foi uma importante causa de volatilidade no mercado. Acreditamos que houve uma reação exagerada e que a economia chinesa está longe de uma aterrissagem brusca”, afirma Michael Hasenstab, diretor de investimentos da Franklin Templenton. A maior parte das previsões indica uma taxa de melhora entre 6,5% e 6% para a China no próximo ano. “Em curto prazo, o país está se reequilibrando. Algumas das fontes tradicionais de crescimento como as manufaturas, o mercado imobiliário e o gasto público, frearam ou se retraíram; entretanto, novos motores começam a funcionar, como o setor serviços e uma nova geração de empresas privadas”, ressalta Hasenstab.

O ano que está prestes a terminar será o quinto exercício consecutivo em que diminuirá o crescimento das economias emergentes e as perspectivas para 2016 não preveem uma melhora substancial. As previsões para os mercados em desenvolvimento variam muito segundo o país e a região, mas em termos gerais se verão afetadas pelos baixos preços das matérias-primas, a desaceleração da China, a depreciação das moedas locais, o menor investimento estrangeiro e o alto endividamento de alguns países, além do efeito da mudança de política monetária por parte do Federal Reserve tanto nas moedas locais como nos fluxos de dinheiro mundiais.

“No próximo ano deveríamos ver alguma reação nos mercados das economias emergentes uma vez que as severas recessões de países como a Rússia ou Brasil serão menos intensas. Mas 2016 voltará a estar infestado de desafios para os emergentes devido à queda do preço das matérias-primas e à debilidade no comércio mundial. A economia chinesa deve continuar sua desaceleração, o que oferecerá pouco alento aos países produtores de commodities”, argumenta o Deutsche Bank em seu relatório de perspectivas.

A desaceleração das economias emergentes não impede, no entanto, que seu ritmo de crescimento médio continue sendo duas vezes superior ao dos países desenvolvidos, circunstância que, por repetir-se durante os últimos anos, aumentou o peso dessas regiões no PIB mundial.

Em 2015 o preço do petróleo despencou por causa do desajuste entre oferta e demanda. Os especialistas acreditam que esse cenário com a cotação do petróleo bruto em níveis historicamente baixos continuará ao longo do próximo exercício. As seis últimas empresas de análise que fizeram previsões sobre o Brent, o barril de referência na Europa, situam a faixa de preços para 2016 entre os 41 dólares da Westpac e os 60 dólares da Barclays. São níveis muito distantes dos 126 dólares que chegou a valer o barril em 2011.

“A Índia desfruta de uma posição privilegiada com relação aos demais emergentes”, ressaltam funcionários do departamento de análise do Bankinter. “Um dos aspectos positivos é o benefício da queda do preço do petróleo bruto, já que o país é um dos principais importadores e isso tem um impacto direto em dois de seus grandes desequilíbrios: o déficit por conta corrente e a inflação”, destacam esses especialistas. A inflação mais baixa permite ao Governo indiano aplicar uma política monetária acomodatícia e pôde reduzir as taxas de juros em 100 pontos básicos durante o último ano.

A geopolítica tem um impacto cada vez maior no futuro econômico. Como consequência, os boletins de previsões já têm seções específicas para reunir esses riscos. A BNY Mellon Asset Management adverte, por exemplo, que o cenário político terá “uma forte influência” sobre os mercados em 2016. Rowena Macfarlane, analista de dívida soberana do Standish, gestora integrada na entidade norte-americana, recorda que o núcleo da Europa se recuperou a um ritmo mais acelerado que os países da periferia, e a política europeia se polarizou como consequência da incerteza econômica. “Paira sobre a União Europeia a possível saída do Reino Unido, com a França e Alemanha mostrando suas preferências para que o referendo seja realizado em 2016, e não em 2017, ano de suas respectivas eleições presidenciais e federais”, diz Macfarlane.

No caso espanhol, além da incerteza com o resultado das eleições, existe um foco de instabilidade sem resolver: a Catalunha. “Em 2015 pudemos ver os partidos independentistas catalães liderarem outro movimento separatista. Nossa previsão é que a questão separatista catalã continue gerando manchetes na Espanha”, adverte a Standish. Também é provável que o debate sobre a saída da Grécia volte a surgir nos próximos meses. “Isso se deve ao fato de que as condições do resgate que o Governo de Atenas finalmente acabou por aceitar exigem mais austeridade e cortes de gastos, medidas que se revelam impopulares quando precisarem ser aplicadas”.

Natixis realizou uma pesquisa entre 600 investidores institucionais e a principal fonte de volatilidade para os mercados em 2016 serão os fatores políticos. “Há muitas frentes abertas que podem empurrar os mercados a uma nova montanha russa: o terrorismo, a crise de refugiados ou o começo de um novo ciclo eleitoral nos EUA são alguns deles”, concluem.

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