Jogos Olímpicos 2016

“Os heróis do Brasil nas Olimpíadas de 2016 serão os atletas paralímpicos”

Especialista em Jogos Olímpicos, Lamartine DaCosta fala sobre preparativos para o Rio

Lamartine DaCosta discorda de projeção do COB.
Lamartine DaCosta discorda de projeção do COB.Marilia Cabral (Portal Brasil)

O esporte paralímpico brasileiro deve ser a boa notícia dos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Com resultados consistentes há alguns anos, bom planejamento e entidades privadas que preparam os atletas para competições internacionais, o Brasil pode figurar entre as cinco maiores potências nos Jogos de 2016. A previsão é do pesquisador e especialista em Olimpíadas, Lamartine DaCosta, organizador do Atlas do esporte no Brasil e do livro O Futuro dos Megaeventos Esportivos. “Os heróis brasileiros em 2016 virão dos Jogos Paralímpicos. O país já é uma potência. Têm centros de treinamento muito evoluídos, os resultados internacionais são muito relevantes e a expectativa é de que o país esteja entre os cinco maiores. Pode ser até melhor do que isso. Teremos outra festividade com a bandeira brasileira que será dos paraolímpicos, porque nos Jogos Olímpicos eu acho muito difícil”.

Ao contrário do que se pode pensar, e apesar do discurso vendido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de que o país se consolidará no Rio como uma das potências do esporte, os atletas olímpicos têm pouca chance de superar o resultado conquistado em Londres-2012, quando a delegação brasileira conquistou 17 medalhas e ficou apenas no 22º lugar. O número total de medalhas foi recorde, mas apenas três foram de ouro.

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Em julho de 2014, o COB projetou estar entre os 10 melhores em 2016, com 27 a 30 medalhas conquistadas. Diante dos últimos resultados dos atletas brasileiros em competições internacionais, porém, a colocação do Brasil não deve ser muito diferente do que aconteceu em Londres, segundo Lamartine. “O potencial brasileiro de medalhas no Rio é péssimo. O COB criou uma ilusão de potência olímpica e projetou mais de 20 medalhas. Não há nenhum dado seguro que confirme essa interpretação do COB. Muitos patrocinadores estão fazendo propaganda de apoio aos atletas brasileiros no sentido de que eles seriam heróis. É pura ilusão. O Brasil não vai se colocar muito melhor do que foi nos Jogos de Londres. O mesmo eu não posso dizer com relação aos paralímpicos”.

Em Londres 2012, os atletas paralímpicos conquistaram sete vezes mais medalhas de ouro do que os atletas olímpicos. Foram 21 ouros, 43 medalhas no total e a sétima posição no quadro de medalhas. O segredo do sucesso: o Comitê Paralímpico Brasileiro é a entidade que coordena as representações regionais, mas foram criadas no Brasil entidades privadas que tiveram sucesso na preparação dos atletas paralímpicos. “Em Londres 2012, o Instituto Superar, que é uma instituição do Rio de Janeiro, foi responsável por 70% das medalhas dos paralímpicos. É uma entidade que não é clube, não é federação, não tem relações internacionais. Ela simplesmente prepara atletas como um serviço prestado aos patrocinadores. Com isso houve resultado e os atletas são repassados para o Comitê Paraolímpico Brasileiro. Eu citei uma entidade mas devem ter mais duas ou três que fazem a mesma coisa. O Brasil tem todas as condições que mostram que quando há planejamento e organização, há resultado”, explica Lamartine.

Organização dos Jogos

Tão ou mais importante do que as conquistas dos atletas brasileiros é o legado dos Jogos para a cidade do Rio de Janeiro. E os problemas nessa área, apesar de terem diminuído bastante nos últimos dois anos, ainda chamam a atenção. Apesar de o Parque Olímpico, principal área de competições do evento, estar 95% finalizado, segundo a prefeitura do Rio, a maior obra de mobilidade urbana dos Jogos enfrenta problemas. A construção de uma nova linha de metrô, que deve de fato melhorar a qualidade de vida da população da cidade depois dos Jogos, é a bola da vez. Matéria feita pelo portal UOL no começo de dezembro mostrou que o custo da obra ultrapassou em 1,5 bilhão de reais a previsão do Governo estadual: passou de 8,8 bilhões para 10,3 bilhões. A saída foi solicitar ao BNDES mais um empréstimo, de 1 bilhão, para dar andamento ao projeto.

Enquanto o custo da principal obra sobe e o Governo ainda busca uma solução do problema, o prefeito Eduardo Paes se vira para contornar o escândalo da Baía de Guanabara. Escolhido para abrigar provas de maratona aquática e vela, o local é destino de redes de esgoto e está totalmente poluído. O prefeito havia prometido resolver o problema quando o Rio ganhou a disputa para sediar os jogos, mas não conseguiu cumprir a proposta. Medidas paliativas estão sendo tomadas para evitar a contaminação dos atletas, que estão assustados com a qualidade da água e foram instruídos a tomar vacina contra hepatite A antes das competições.

Além disso, as imensas instalações esportivas que estão sendo construídas para os Jogos serão um problema a ser administrado em 2017. Com custo elevado de manutenção, será preciso encontrar um meio de pagar as contas para a conservação dos espaços. Lamartine DaCosta diz que a situação pode ficar grave se não for bem conduzida pela prefeitura da cidade. “Vai ser muito difícil a utilização plena dessas instalações. Será criado um problema no Rio de Janeiro depois das Olimpíadas. A gestão de tudo isso é muito complicada. O custo de manutenção anual dessas instalações têm um valor internacional de cerca de 10% do custo total. É pelo menos 1 bilhão de reais a ser gasto com a manutenção, mas os custos certamente serão maiores do que isso. Isso vai complicar a vida da cidade e da população”.

A única solução, segundo Lamartine, seria transformar o Rio em uma cidade voltada para sediar pelo menos seis grandes eventos esportivos por ano. “O que recomendamos depois de muitos estudos é que o Rio de Janeiro poderá ser uma cidade mais dedicada a eventos esportivos. São 150 megaeventos esportivos por ano no mundo. Se o Rio ficar com 6, 7 ou 8 deles já dá para pagar a manutenção das instalações esportivas no fim do mês. Isso vai depender de planejamento e gestão, coisa que o Governo tem dificuldade no Rio de Janeiro e no Brasil inteiro”.

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