Wendell Lira: “A pressão de ganhar é do Messi. Eu vou lá para curtir a festa”

Indicado ao prêmio Puskas, o brasileiro Wendell Lira conta como um gol mudou sua vida

Wendell comemora o gol que pode levar o prêmio.
Wendell comemora o gol que pode levar o prêmio.

Alguns jogadores marcam centenas de gols na carreira e ainda assim não ficam famosos. Wendell Lira precisou apenas de um para ficar mundialmente conhecido. Aos 26 anos, com passagem pela seleção brasileira sub-20 e nove equipes do futebol brasileiro, o atacante jamais imaginou que o gol feito em 11 de março pelo time do Goianésia na vitória por 2 a 1 sobre o Atlético-GO mudaria sua vida. Com salário de cerca de 8 mil reais por mês no contrato de um ano recém-fechado com o Vila Nova, de Goiás, ele estará em Zurique no dia 11 de janeiro, na festa de gala da FIFA, para concorrer pelo título de gol mais bonito do ano com Messi, que ganhou cerca de 10 milhões de reais mensais na temporada passada.

Wendell é o retrato de milhares de jogadores brasileiros, que disputam os campeonatos estaduais no primeiro semestre e ficam desempregados nos últimos meses do ano. A história dele, porém, tomou um rumo diferente graças a um voleio que pode torná-lo vencedor do Prêmio Puskás de 2015. Conheça um pouco da vida desse jogador que ficou famoso do dia para a noite na entrevista abaixo.

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Pergunta. Muita gente está te conhecendo melhor agora. Como você se apresenta?

Resposta. Eu sou um cara simples, humilde, estou batalhando atrás dos meus sonhos. Infelizmente a vida não foi muito boa comigo no futebol. Me machuquei no começo da carreira, quando estavam surgindo propostas muito boas. Espero que esse gol abra portas para mim e que eu consiga mostrar dentro de campo que eu sou importante para um time. E que eu consiga jogar na Europa.

P. Você joga em qual posição?

R. Eu jogo no ataque, mais pelas beiradas, na mesma posição do Neymar.

P. O que mudou na sua vida a indicação para o prêmio?

R. Muita coisa. Muita gente não me conhece e fica querendo saber um pouco mais sobre a minha vida. Minha rotina mudou bastante, quase não estou conseguindo levar a vida que eu levava antes. Por exemplo, eu faço fisioterapia todo dia de manhã cedo, um trabalho de fortalecimento muscular. Com essa repercussão, toda hora eu tenho que gravar alguma coisa pra alguma emissora, algum programa. Nos últimos dois dias eu praticamente não consegui fazer nada. Não consigo fazer o trabalho, não consigo voltar para casa. Ontem eu voltei para casa já eram 9 horas da noite. Hoje eu saí 6 horas da manhã e só estou voltando agora (7 horas da noite). Então está muito corrido. Hoje eu passei o dia inteiro gravando e atendendo telefonema.

P. E como tem sido essa nova rotina para você?

R. É bem cansativo. Eu não estou acostumado, então fico muito cansado. Mas é um cansaço gostoso, é uma coisa boa e vai ser para o meu bem. Então não tem como reclamar.

P. Se você ganhar, sua fama será mundial…

R. É muito louco isso, né? Foi tudo muito rápido, cara, é até difícil de acreditar.

P. O que você acha que te colocou entre os finalistas?

R. Na verdade foram três coisas. Primeiramente, Deus, que me abençoou e me deu a honra de fazer um gol tão bonito como esse. Em segundo lugar, o gol. Em terceiro, a torcida brasileira fez toda a diferença. A população realmente comprou essa campanha, todo mundo comprou a minha história e gostaram. Graças aos brasileiros eu pude estar entre os três.

R. Você está sentindo apoio dos torcedores?

P. Do Brasil inteiro. Estou recebendo mensagens de pessoas do Amapá, de Piauí, do Maranhão, Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro. Eu recebi mensagem de todos os lugares. O governador do estado de Goiás, Marconi Perillo, fez uma nota no Facebook dele pedindo pro pessoal votar. Tudo isso é muito legal, está sendo um sonho, até difícil de acreditar. Tanta gente importante que nunca ouviu falar de mim e agora está tentando me ajudar, fazendo campanha.

P. Como seu gol foi parar na FIFA?

R. Eles devem analisar os gols bonitos e que têm repercussão. Quando eu fiz o gol repercutiu bastante, teve muita gente divulgando. Eu fico muito feliz. Parece que eu estou sonhando mas o sonho é real, está acontecendo de verdade.

P. Você está com 26 anos e ficou três meses desempregado em 2015, de setembro até dezembro. Como é para um jogador ficar tanto tempo parado, sem jogar?

R. Isso infelizmente é normal no futebol brasileiro. A gente trabalha três, quatro meses e depois fica mais três, quatro meses desempregado. Tem sido muito difícil pra mim, espero não passar por isso novamente.

P. Como você faz para pagar as contas nesses meses que passa desempregado? Você trabalha com outra coisa?

R. Conto com a ajuda da família, um vai ajudando o outro e assim nós vamos levando. A gente vai controlando o que dá para pagar. Infelizmente quem opta por ser jogador fica nessa dependência de arrumar um clube. Você fica sem sua profissão quando acaba o contrato e o dinheiro que ganha vai embora muito rápido. Não trabalho com outra coisa, fico parado porque minha preocupação é manter a forma pra poder estar bem quando aparecer uma proposta. Espero que eu possa ajudar muita gente com essa história que estou vivendo agora, porque vida de jogador é muito complicada no Brasil. Minha esposa e minha filha, Marcela, que tem dois anos e 7 meses dependem de mim. Mas antes eram minha mãe e meus dois irmãos. Consegui comprar um apartamento e deixar para a minha família. Agora estou casado há quatro anos e meio e tenho que sustentar minha esposa e minha filha.

P. Financeiramente esse gol já fez alguma diferença na sua vida?

R. Financeiramente ainda não tive retorno, não. Até mesmo o contrato que eu fiz com o Vila Nova não era a melhor proposta em termos financeiros, mas eu preferi fechar porque é um clube grande, por tudo o que ele representa. O gol mesmo ainda não me deu dinheiro.

P. Não apareceu nem uma campanha publicitária?

R. Ninguém me procurou por enquanto.

P. Como você imagina que como será o dia da premiação?

R. Nunca fui para a Europa. Eu fui para o Japão em 2006 com a seleção brasileira sub-20 mas não tive o prazer de viajar para a Europa. Mas só de estar na premiação já é um sonho realizado.Vai ser um sonho. Vou tietar muito os caras, tirar muitas fotos, aproveitar o momento. Curtir. Quem tem a pressão de ganhar é o Messi, que tem nome. Eu vou lá pra curtir a festa e guardar para sempre esse momento.