Shakhtar Donetsk

“É difícil sobreviver sem sua cidade e torcedores”, diz diretor do Shakhtar

Diretor do Shakhtar fala sobre o dia a dia da equipe, que joga longe de seu estádio

O diretor-executivo do Shakhtar Donetsk, Sergei Palkin.
O diretor-executivo do Shakhtar Donetsk, Sergei Palkin.

O diretor-executivo do Shakhtar Donetsk, Sergei Palkin, tem motivos para se orgulhar. Aos 45 anos, é o primeiro administrador na história da Champions que coordena o êxodo de um clube por causa de um conflito bélico. A manobra foi um sucesso. O Shakhtar novamente lidera a Liga da Ucrânia. Mas Palkin não se sente eufórico. Pelo contrário, se mostra melancólico.

Pergunta. Os militares profissionais dizem que as saídas do campo de batalha são as operações mais complexas de se executar.

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Resposta. A situação que enfrentamos é única na história do futebol. Como clube é muito difícil sobreviver e competir onde você não tem sua cidade, seus torcedores, sem seu estádio, sem o seu campo de treinamento... Honestamente, estamos muito cansados. Você pode ficar assim por alguns meses, mas não mais de um ano. Principalmente quando é impossível fazer planos, porque não sabemos quando poderemos voltar a Donetsk. Lemos as notícias e dizem que as coisas se desenvolvem de forma positiva, que há negociações. É bom que já não nos matamos uns aos outros.

P. Nenhum clube no mundo promoveu mais brasileiros nos últimos anos. Qual é a receita para integrá-los?

R. Os latino-americanos levam uma média de dois anos para se adaptar à Ucrânia. Bernard nos custou 40 milhões... e está mostrando seu melhor nível depois de dois anos. Quando contratamos brasileiros e os trazemos aqui, às vezes os torcedores olham para eles e se perguntam como é possível que os tenhamos contratado. Do nosso ponto de vista são pessoas completamente diferentes: o jogador que vemos, o que compramos, o que desenvolvemos e o que temos agora. O problema é quando você tem um ou dois brasileiros. Quando você tem quatro, cinco, seis... O período de adaptação fica mais curto, porque fazem companhia uns aos outros. As famílias se reúnem. Formam uma comunidade.

P. Por que brasileiros e não uruguaios ou argentinos?

R. Nosso presidente gosta do jogo bonito. E essa é a natureza dos brasileiros. Quem se importa apenas com os resultados, por mais esmagadores que sejam, se você não transmite algo mais?

P. Muito poucos clubes vendem jogadores por mais de 170 milhões de euros (673 milhões de reais) em cinco anos. Esse ganho reflete a estratégia?

R. Não. Com os brasileiros começamos a competir melhor, a dar show. E com o tempo percebemos que poderíamos desenvolvê-los e vendê-los por muito dinheiro aos grandes clubes da Europa. Agora somos a única equipe europeia que tem mais de dez brasileiros contratados.

P. Pode-se dizer que a Confederação Brasileira de Futebol deve muito ao Shakhtar, pois descobriu jogadores importantes: Willian, Fernandinho, Douglas, Fred...

R. Nós nos perguntávamos: por que não são convocados para a seleção? Diziam que não podiam assistir aos jogos da Liga da Ucrânia. No século XXI! Era ridículo! Para a CBF, a Ucrânia era um país impossível de se localizar, cujas façanhas esportivas nunca eram transmitidas no noticiário. Fomos nós que entramos em contato para avisá-los que tínhamos alguns jogadores realmente bons, e assim começaram a prestar atenção neles. Mesmo assim, não ficaram totalmente convencidos até que foram contratados pelo Chelsea, Bayern, City... Depois disso começaram a prestar atenção no Shakhtar.

P. Qual modelo de captação na América do Sul?

R. Contratamos Luis Gonçalves como chefe dos olheiros, que havia estado no Porto, onde criou uma rede de compra e venda de brasileiros, gerando muito dinheiro. Criamos um sistema especial de monitoramento de jogadores que ajustamos a cada mês. Porque coordenar os relatórios dos olheiros é difícil. Você não pode perder tempo negligenciando os jogadores.

P. Em que medida o estímulo de sair do Shakhtar eleva o nível de jogadores que, uma vez fora, perdem a motivação?

R. Todos estão jogando com um bom nível. Para mim, agora Willian é o melhor jogador do Chelsea. Tenho certeza de que Costa pode melhorar muito. Tem uma cabeça boa. É impossível ser um bom jogador sem uma cabeça boa. Voltamos ao início: os brasileiros que não se cuidam são geralmente aqueles que estão isolados e se sentem solitários. Se conseguem formar uma comunidade, agem como se tivessem um cérebro em comum. Alguns entram e outros saem, e a comunidade permanece. Permanece o know-how: como viver e como competir.