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Dilma se divide entre o o mercado financeiro e os movimentos sociais

"Fora Levy" cresce na base do Governo, da qual ela depende para a defesa do impeachment

Dilma Rousseff em cerimônia neste dia 22 de outubro.
Dilma Rousseff em cerimônia neste dia 22 de outubro. AFP

Uma entrevista publicada no último domingo pelo jornal Folha de S.Paulo causou mais um alvoroço na delicada relação política brasileira. Rui Falcão, presidente nacional do PT, foi categórico: “Se Levy não quiser seguir a orientação da presidenta, deve ser substituído”. Referia-se ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e a um pedido que ecoa cada vez com mais força entre as bases sociais que apoiam o partido: é preciso mudar a política econômica com urgência.

O episódio foi mais um puxão no cabo de guerra onde se posicionam, em cada ponta, visões bastante distintas de Governo. De um lado, Levy, um economista da Escola de Chicago, neoliberal, cuja missão é tentar colocar a economia no eixo e que pretende fazer isso por meio de ajustes duros. De outro, o partido e os movimentos de esquerda, que compartilham de uma visão desenvolvimentista que acredita que para movimentar a economia é necessário continuar com políticas estatais de subsídios e criticam os cortes ordenados pelo ministro. Atada à corda está Dilma Rousseff, que não pode prescindir de nenhum dos dois apoios.

A presidenta sabe que precisa dos movimentos sociais, os mesmos que a ajudaram a vencer a apertada eleição do ano passado, para lutar nas ruas contra a ameaça de impeachment. Mas os interlocutores do partido não cansam de dizer nos bastidores que está cada vez mais insustentável pedir essa mobilização, enquanto o Governo promove cortes em áreas como habitação, educação, ou faz mudanças que atingem os trabalhadores. Os mesmos movimentos sociais que foram para as ruas em 21 de agosto para se posicionar contra o impeachment, criaram neste mês a Frente Povo Sem Medo, para lutar contra os ajustes fiscais, ainda que afirmem não concordar com a saída dela da presidência. Foi um baque para o PT, que tentava atrair os mesmos movimentos para a Frente Brasil Popular, lançada pelo partido dias antes para organizar as mobilizações contra o impeachment, que acabaram murchando.

Entre deputados e especialistas, a percepção é de que caso o processo de impeachment consiga ser aberto na Câmara, a pressão popular poderá exercer um papel fundamental e mudar votos de deputados que ainda fazem parte da base governista. Nesse momento, a luta nas ruas seria importante. Os movimentos sociais poderiam funcionar como o contrapeso da mobilização pró-impeachment, mostrando que Rousseff ainda tem apoio de camadas que têm grande força de mobilização –o que poderia funcionar como um recado de que a saída dela da presidência poderia levar o país ao caos social.

Mas para defendê-la nas ruas, os movimentos pedem um preço alto: Dilma Rousseff teria que se livrar de Levy, parar com os ajustes, e adotar medidas como a taxação de grandes fortunas –algo que o Governo prometeu fazer, mas não conseguiu tocar por falta de base no Congresso para levar adiante uma medida que desagrada as camadas conservadoras. Pelo apoio, seria preciso também voltar a adotar a política desenvolvimentista que caracterizou a área econômica do partido desde o início do Governo Lula, conforme deixou claro na semana passada a Central Única dos Trabalhadores (CUT), movimento sindical ligado ao PT, que apresentou publicamente uma proposta de mudança econômica, que chamou de “solução para a economia brasileira”.

O problema é que Rousseff não pode abrir mão de Levy. Ou melhor, do que Levy representa para o mercado. O ministro é visto como o salvador da economia. Alguém necessário, justamente, para afastar o país da política desenvolvimentista considerada equivocada pelo setor econômico, que levou o país à situação em que se encontra hoje a economia, com gastos públicos, que passaram do limite e agora deixaram um rombo no orçamento. E Rousseff não consegue governar sem o apoio do capital, que é quem precisa investir para a economia voltar a crescer. “Quando ela acabou o mandato anterior, havia um caos absoluto, principalmente na área fiscal. Levy foi secretário da Fazenda do Rio, onde promoveu um ajuste fiscal tão forte que o Estado ganhou grau de investimento. Ele entrou no Governo com essa missão, de colocar a economia nos trilhos, de fazer o ajuste”, afirma o professor de finanças do Insper, João Luís Mascolo. “O mercado sabe que a saída dele e a volta ao modelo anterior geraria um caos absoluto e completo, ainda mais com essa dívida pública e com esses juros”, ressalta, fazendo eco à opinião de outros especialistas da área.

Diante do "Fora Levy", que ganha cada vez mais força dentre os movimentos e o partido, Rousseff deixou claro que o ministro fica. "Eu acho que o presidente do PT pode ter a opinião que quiser, mas não é a opinião do Governo", afirmou ela, em um recado direto a Lula, o mentor dos pedidos de saída do economista. De quebra, o recado serviu também para os movimentos sociais, que reagiram com mais críticas a essa postura. Diante do difícil equilíbrio, já há quem diga, especialmente no setor econômico, que a única solução para esse impasse, seria a presidenta sair de vez do PT.

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