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“Os Estados Unidos criaram a classe média e agora a estão destruindo”

Economista diz que a expansão monetária nos EUA “foi pouco eficaz para criar empregos”

Joseph Stiglitz
O professor de Economia, Joseph Stiglitz, no campus da Universidade de Columbia, em Nova York.

Joseph Stiglitz (Gary, Indiana, 1943) fala com o tom de professor e o aprumo de quem ganhou o Nobel (em 2001) tanto quando se trata da economia norte-americana quanto da europeia, e até mesmo das eleições catalãs. De seu escritório na Universidade de Columbia, em Nova York, ele se enfurece contra um dos seus grandes cavalos de batalha, a desigualdade nas sociedades mais ricas. Acaba de lançar The Great Divide (A Grande Divisão – inédito no Brasil), onde trata essa questão. Um grande ponto de inflexão, para ele, foi a greve dos controladores de tráfego aéreo na era Reagan, que cortou direitos sindicais. Outro grande mal para a economia é a austeridade aplicada na Europa, que, segundo ele, quebrou a unidade do euro. Depois vai pegar sua pasta e caminhar encurvado pelo campus de Columbia até sua casa.

Pergunta. Você defende que o Federal Reserve (Fed) não eleve as taxas de juros até 2016. Que tipo de recuperação é essa que não pode suportar um preço do dinheiro a 0,25%?

Resposta. Não é uma recuperação. Em Jackson Hole [uma reunião anual de bancos centrais mundiais] havia jovens vestindo camisetas com o slogan “Recuperação de quem?” Era a recuperação do 1%, porque os afro-americanos não se recuperaram, os salários norte-americanos não se recuperaram... Basicamente não há recuperação, as coisas estão melhores do que antes, mas há um déficit de 3,3 milhões de postos de trabalho.

P. No mercado dos professores, você seria parte desse 1%, certo?

R. Talvez, não sei.

P. Para uma melhor redistribuição, deveria ganhar menos ou pagar mais impostos?

R. Temos que melhorar as duas fases de distribuição. Temos uma grande desigualdade nos salários, mas também não fazemos um grande trabalho quando se trata de redistribuir com o sistema de impostos. Não acho que haja muitos professores nesse 1%, acho que existem principalmente banqueiros e executivos de empresas. E essa concentração de renda tira dinheiro que poderia ser gasto em investimentos, por exemplo. O estilo de vida da classe média já não é acessível para a classe média norte-americana, os filhos deles não conseguem mais entrar na faculdade, não dá para pagar, muitas pessoas perderam suas casas, as trabalhadoras não têm licença maternidade... Os Estados Unidos criaram a classe média e a estão destruindo.

P. O aumento da desigualdade é tão político, não é a globalização o maior motivo?

As medidas expansivas foram pouco eficazes na geração de empregos

R. A tecnologia é importante, e também a globalização, mas os EUA têm mais desigualdade que qualquer outro país, enquanto a Suécia e a Noruega têm menos, quando as leis da economia e da tecnologia são as mesmas. A Suécia está entre os mais globalizados e com tecnologia, mas com menos desigualdade, então talvez devemos lutar por uma sociedade mais igualitária. Quando existe tanta diferença, isso faz você pensar que o mais importante não é a globalização ou a tecnologia, mas as políticas. Há muitas normas que mudam muitas coisas. Por exemplo, o presidente de uma empresa deveria ganhar o que quiser sem perguntar nem sequer aos acionistas? Ou sem nem explicar adequadamente o quanto ganha?

P. Você acha que a expansão quantitativa –o QE, por sua sigla em Inglês– aumenta a desigualdade na Europa?

R. O QE nos EUA fez com que subisse o preço dos ativos nas mãos dos mais ricos e os aposentados, que dependem dos títulos públicos, ficaram mais pobres. Mas foi pouco eficiente na criação de empregos. Na Europa a situação é parecida e a verdadeira questão é saber se vai compensar a criação de emprego. Em países onde o desemprego é um grande problema, como a Espanha ou a Grécia, o efeito dominante é a austeridade. A esperança do QE era que essa liquidez se traduzisse em mais investimentos e gastos, mas o motivo pelo qual não teve mais êxito nos EUA foi porque o sistema bancário não estava funcionando muito bem. O problema na Espanha ou na Grécia é cem vezes pior. Seus bancos estão tão devastados pela perda de dinheiro, que é muito difícil retomar os empréstimos. Não espero que o QE leve a muito crescimento na Espanha ou na Grécia.

P. Não vê a Espanha fora da crise.

R. Não, é incrível que haja pessoas dizendo que a Espanha deixou a crise para trás pelo fato de que o desemprego passou de 25% para 23%. Em qualquer outro contexto esse 23% seria considerado um desastre, e os 50% de desemprego juvenil é outro desastre. Não sei como o Governo pode dizer que foi um sucesso, é como ter um cara que estava quase morto, e você está feliz por ele não ter morrido, mas continua quase morto.

P. Conhece a pressão independentista nas eleições catalãs?

É incrível dizer que a Espanha dobrou a esquina da crise só porque o desemprego passou de 25% para 23%

R. Sim, vejo isso como o resultado do erro da política econômica alemã, impondo a austeridade e levando ao forte desemprego. Há uma destruição do tecido social, dá para ver o que aconteceu na Grécia ou na França. Isso é mais saudável do que o aumento do fascismo, mas para mim é outro sintoma da destruição política que criou austeridade.

P. Que consequência vê para a Espanha?

R. Muita gente acha que se trata de destruir aquilo pelo que muita gente lutou na guerra civil, por uma república espanhola. Depois da ditadura havia uma esperança de recriar este país, e as pessoas veem que esse sonho que se restabeleceu nos anos setenta está ameaçado agora.

P. E o que implicaria para a economia?

R. A zona euro é um projeto fracassado, de modo que é apenas um aspecto a mais do seu fracasso. Supunha-se que ela deveria unir as pessoas, e agora está inclusive dividindo os próprios países. Atualmente a pergunta é se deve haver mais ou menos Europa, e de verdade desejo que haja mais, porque esta casa construída pela metade está criando muita destruição econômica e política. Na Europa se diz que o euro é a Europa, mas o euro é um pedaço de papel. Se tivesse funcionado bem, se não tivesse sido arruinado pela austeridade, pelas ideias, pelo mandato único da inflação… O BCE só está preocupado com a inflação, ao passo que o problema são os 50% de desemprego juvenil.

P. Mas, uma vez criado o euro, não dá para voltar atrás. Ou dá?

O crescimento do independentismo na Catalunha é consequência das políticas europeias de austeridade

R. Sim, dá, acredito que deveriam seguir em frente, mas a impossibilidade dos últimos cinco anos me tornou menos otimista. Há maneiras de voltar atrás, de dizer que este foi um experimento prematuro, e podemos criar um euro flexível, um euro espanhol, um grego, um euro para o norte, outro para o sul... Devemos reconhecer que a atual direção é um fracasso. Na Espanha pagaram muito caro esse pedaço de papel. Havia duas razões para o euro: a prosperidade e a união. E o que aconteceu? Há recessão, um desastre econômico e divisão.

P. Então destruir o euro não seria tão desastroso.

R. O sistema atual é um desastre, quase qualquer outra coisa seria melhor, e isso seria melhor.

P. Até mesmo quebrar a zona do euro seria melhor?

R. Sim, melhor.

P. A nova vitória de Tsipras na Grécia é um sucesso da troika ou um fracasso?

R. A austeridade é uma política fracassada, e os gregos a rejeitaram repetidamente, mas acreditaram equivocadamente que é preciso conservar esse pedaço de papel, o euro, e eles aceitarão temos inaceitáveis para permanecer com ele. A troika não convenceu os gregos de que suas políticas funcionam, se a troika quer acreditar que se pode exercer o poder à base de ameaças, então esta é uma vitória da troika, mas é um fracasso. A menos que a troika mude de política, a depressão na Grécia vai continuar. Talvez agora melhore um pouco neste ano e no próximo, porque as restrições fiscais se reduziram, mas em 2018 há uma meta de 3,5% de superávit primário, e a depressão vai voltar. O terceiro resgate não poderá funcionar se a troika não mudar.

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