Cinema

O homem que amou Cary Grant

Orry-Kelly, ganhador de três Oscar por seu trabalho como figurinista, foi parceiro do ator Sua história aparece agora em um documentário

Cary Grant, em uma imagem de 1955.
Cary Grant, em uma imagem de 1955.

Cary Grant, Tony Curtis, George Cukor e Billy Wilder levaram seu caixão em 1964. Jack Warner, o poderoso presidente da Warner Bros, leu seu panegírico. E, entretanto, hoje poucos conhecem o nome de Orry Kelly. Até mesmo dentro de Hollywood. Foi assim com Gillian Armstrong, que como veterana diretora (Adoráveis Mulheres) e australiana jamais havia ouvido falar de seu compatriota. “Quando comecei a ler sobre ele não podia acreditar: até o ano passado, quando Catherine Martin o superou, Orry-Kelly era o australiano com mais Oscar da história, três, ganhos pelo figurino de Um Americano em Paris, Les Girls e Quanto Mais Quente Melhor; foi o figurinista de Casablanca, O Falcão Maltês, trabalhou com Bette Davis, com Natalie Wood, com Jane Fonda”, conta Armstrong.

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A diretora apresentou essa semana no Festival de Toronto o documentário Women He´s Undressed, dedicado a essa figura de nome esquecido nos meandros da meca do cinema. “Fiquei curiosa para saber como ele fez, o que tinha de especial; e, ao mesmo tempo, queria mostrar essa arte, porque as pessoas não se dão conta de como o figurino é importante no cinema”, diz Armstrong. As grandes divas do cinema mantinham estreitas relações com seus figurinistas. “Orry e Bette Devis, por exemplo, eram muito próximos. Logo que se conheceram, se entenderam”, disse a diretora.

O desenhador Orry Kelly ajunstando o vestuário de Kay Francis em uma cena de 'Women Tenho's Undressed'.
O desenhador Orry Kelly ajunstando o vestuário de Kay Francis em uma cena de 'Women Tenho's Undressed'.

Olho artístico

Filho de um alfaiate, nascido em uma cidadezinha próxima a Sidney, em 1922, aos 24 anos, foi para Nova York ser ator. Depois de uma breve e desastrosa experiência na Broadway, na sequência começou a se destacar por seu olho artístico e seu instinto com a agulha. Logo depois de chegar, Orry-Kelly conheceu um jovem imigrante inglês que também perseguia o sonho de ser ator. Na época, se chamava Archie Leach, mas anos mais tarde seria conhecido como Cary Grant. Os dois se tornaram amantes; viviam juntos no Greenwich Village, com o dinheiro envidado pela mãe de Kelly, com o que Grant ganhava como acompanhante de mulheres ricas e com os primeiros empregos de ambos no mundo do espetáculo. Juntos, após uma breve passagem por Reno, perseguidos por mafiosos, chegaram a Hollywood, onde os dois obtiveram sucesso em separado. Grant seria o novo Clark Gable. E Orry-Kelly começou a trabalhar na Warner Bros. Criando o figurino de quase 60 filmes por ano, sua amizade com Davis e com o próprio Jack Warner o ajudaram a se transformar em um dos figurinistas mais bem pagos. Cary Grant, decidido a esconder sua homossexualidade, lhe deu as costas. “Orry foi um dos poucos naquela época a ser ele mesmo, que não fingiu um casamento como faziam atores e até mesmo outros figurinistas”, diz Armstrong.

“Só não se deu bem com Marilyn Monroe”, conta Armstrong. A atriz não gostou muito de ter sua bunda comparada com a de Tony Curtis e a de Jack Lemmon. Também não recuperou sua amizade e relação com Cary Grant. Com exceção do final dos anos cinquenta, quando o ator voltou a procurá-lo, com um único objetivo: proibir Kelly de contar qualquer coisa sobre ele nas memórias que estava escrevendo. Orry-Kelly morreu em 1964, deixando como último filme Irma La Douce; e suas memórias jamais publicadas. Supostamente impedidas por Cary Grant. Durante quase 30 anos permaneceram perdidas, até que Gillian Armstrong e sua equipe as encontraram.