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A melhor decisão

Yellen acerta ao manter os juros; a recuperação global ainda é incerta

Operadores da Standard & Poor's reagem à decisão do Federal Reserve.
Operadores da Standard & Poor's reagem à decisão do Federal Reserve.SCOTT OLSON (AFP)

O Federal Reserve (Fed) decidiu manter as taxas de juros em seu nível atual e adiar a esperada elevação para o momento em que se produzam circunstâncias mais favoráveis. A decisão do banco central norte-americano é uma resposta prudente à complexa situação tanto da economia dos Estados Unidos como global.

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Com precaução, mas com clareza, é preciso dizer que essa é a melhor decisão que o Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed poderia tomar, apesar das pressões para que as taxas de juros voltassem a uma tendência de alta, porque, em resumo, o dano que uma elevação dos juros causaria é notavelmente superior aos benefícios derivados, que se reduzem a um controle rígido do risco inflacionário que, por sua vez, é muito baixo nesse momento.

Em primeiro lugar, a situação da economia norte-americana, objeto principal das preocupações do Fed, dá margem a interpretações contraditórias. É evidente que nos próximos trimestres há expectativa de crescimento sustentado, como não param de proclamar as instituições internacionais e os bancos e empresas do país. Mas essa é uma evolução que se pode subscrever a uma certa distância.

Quando se cava alguns metros, a percepção não é tão boa. A taxa de desemprego caiu, mas continua sendo significativamente alta para alguns segmentos da força de trabalho; e ainda não se conseguiu uma aproximação tranquilizadora com a faixa do pleno emprego. Além disso, a inflação continua constituindo um fator de preocupação. A política de ampla expansão monetária não conseguiu fazer com que os preços se situassem no entorno de um crescimento saudável (2%), e esse é um argumento de muito peso para manter a política monetária em seu nível (excepcional) do momento.

Não é fácil sintetizar em uma única fórmula a razão definitiva que justifica a decisão de Yellen; mas, se fosse preciso, poderia se dizer que o desemprego ainda precisa cair bastante para que o risco de inflação chegue a justificar uma intervenção monetária.

Mas acontece que, além disso, a vacilante evolução da economia mundial é um fator que também deve preocupar o Fed. A OCDE apresentou um prognóstico claro: a zona do euro terá um crescimento baixo — apesar do petróleo barato e das taxas de juros baixas — que impede a geração de emprego de forma satisfatória; a China não encontra uma solução para o enfraquecimento do crescimento (provavelmente novas turbulências vão aparecer nos próximos meses) e os países emergentes enfrentam vários trimestres de recessão ou crescimento insuficiente.

Nessa situação, uma alta dos juros na área do dólar causaria um refluxo de capitais em alguns países emergentes, com consequências imprevisíveis para a estabilidade financeira na América Latina (particularmente o Brasil) e na Rússia, ainda que provavelmente estimulasse as exportações europeias. O risco de convulsões financeiras seria mais elevado com uma mudança significativa da política monetária de Washington. Somando todos os fatores, o Fed decidiu com responsabilidade.