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Naufrágio da Europa

UE deve assumir que a emigração é o principal problema e agir agora

Membro da guarda-costeira recolhe o cadáver de uma criança nesta quarta-feira na costa de Bodrum (Turquia).
Membro da guarda-costeira recolhe o cadáver de uma criança nesta quarta-feira na costa de Bodrum (Turquia).AP

As fotos – distribuídas na quarta-feira pela Reuters – de uma criança de dois ou três anos, morta em uma praia da cidade turca de Bodrum e recolhida pouco depois por um policial turco, abalaram todas as consciências da Europa e do mundo, agitaram as redações dos meios de comunicação e as redes sociais. A criança era parte de um grupo de refugiados que fugiam da guerra na Síria e tentavam chegar à ilha grega de Kos; 12 deles morreram, dos quais cinco eram menores de idade.

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As imagens são a gota d’água que faltava no gravíssimo problema dos refugiados que chegam à Europa fugindo das guerras na Síria e no Iraque, ou dos emigrantes que procuram uma vida melhor, arrastados pela pobreza e pela violência. Mais de 300.000 pessoas já desembarcaram nas costas da Europa neste ano e vários milhares de corpos ficaram pelo caminho. Até esta quarta, as fotos publicadas eram dramáticas: agora, o corpo sem vida da criança na areia da praia – que este jornal decidiu não publicar por sua extrema crueldade – lembra que chegamos a um limite. São as crianças que mais sofrem com as guerras e a pobreza. Segundo o UNICEF, um terço dos refugiados que procuram asilo na Europa são mulheres e crianças e já existem mais de dois milhões de refugiados pela crise síria que são menores.

A tragédia, juntamente com a que aconteceu há poucos dias na Áustria, levou a deputada trabalhista Yvette Cooper a afirmar que “quando pessoas morrem sufocadas em caminhões e corpos de crianças chegam na costa, o Reino Unido precisa agir”. Nas redes sociais turcas surgiu uma hashtag (= kiyiyavuraninsalik), que significa “a humanidade se quebra na costa”. Um título muito explícito que deixa explícito que a UE, que foi criada para defender a paz e a solidariedade e soube organizar o Estado de Bem-Estar, é incapaz de enfrentar o maior problema na sua frente; que a Europa está naufragando frente à emigração.

Durante todo o verão foi colocado o debate em termos de segurança versus solidariedade. Mas até esse momento, os principais líderes europeus parecem não ter percebido que não se trata de encontrar soluções conjunturais levantando muros ou distribuindo fundos a quem criar abrigos. O problema é muito maior e exige soluções globais, estruturais e que cheguem até raiz. É hora de fazer uma reflexão profunda sobre o papel que a UE precisa jogar com as milhões de pessoas que procuram a terra prometida.

A primeira coisa que os políticos devem fazer é reconhecer essa dimensão e falar em voz alta que a onda de emigrantes exige soluções novas e ambiciosas. E não há remédio possível se o diagnóstico correto não for feito. É imprescindível que uma cúpula de líderes europeus – e não apenas os ministros do Interior e da Justiça que vão se reunir no próximo dia 14 – avaliem a situação e atuem o mais rapidamente possível a curto e médio prazo, com medidas econômicas e geoestratégicas para chegar às causas do problema. A Europa pode reencontrar o seu caminho e parte da legitimidade e liderança global perdida se for capaz de enfrentar esse desafio. É a única saída possível.

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