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Lula sugere disputar em 2018 e testa educação como mote de campanha

Alvo de adversários, ex-presidente retoma ruas em defesa do PT e de seu legado

Lula discursa em evento em Brasília. Ampliar foto
Lula discursa em evento em Brasília.

Em meio à grave crise de popularidade que atinge a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu pela primeira vez nesta sexta-feira que poderá se candidatar à presidência do Brasil em 2018. A declaração foi feita em uma entrevista à Rádio Itatiaia, uma emissora do interior de Minas Gerais, quando questionado se seria ou não candidato. “Não posso dizer que sou, nem que não sou. Sinceramente, espero que tenha outras pessoas para serem candidatas. Agora, uma coisa pode ficar certa. Se a oposição pensa que vai que vai ganhar, que não vai ter disputa e que o PT está acabado, ela pode ficar certa do seguinte: se for necessário, eu vou para a disputa e vou trabalhar para que a oposição não ganhe as eleições”, afirmou ele.

As aventuras do Pixuleco inflável

Integrantes da polícia metropolitana removem boneco inflável que satiriza Lula.
Integrantes da polícia metropolitana removem boneco inflável que satiriza Lula. REUTERS

O clima de campanha vivido pelo ex-presidente nos últimos meses o colocou de vez no foco dos ataques da oposição. Na última manifestação que pedia o impeachment de Dilma Rousseff, em 16 de agosto, um gigante boneco inflável de Lula vestido de prisioneiro, com uma bola imitando ferro em seu pé, começou a circular em Brasília e logo virou meme na internet. Mereceu menção até do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tripudiou do adversário considerando a sátira um símbolo da crise do PT.

Apelidado de Pixuleco, em referência a última fase da Operação Lava Jato, ele reapareceu na manhã desta sexta-feira na Ponte Estaiada, na Marginal Pinheiros, depois de ter passado por uma revisão que tapou um buraco em seu peito. Era o início de um tour pelo país, prometiam seus pais, os membros do Movimento Brasil, de militantes anti-Dilma.

Mas o périplo do boneco foi interrompido nesta sexta em São Paulo mesmo. Sem sorte, ele recebeu uma facada no viaduto do Chá, no centro da cidade, onde acabou murcho após uma confusão entre apoiadores e contrários ao impeachment da presidenta. Pixuleco segue agora para uma nova revisão. Depois, a promessa é de que pegue a estrada.

A declaração mereceu comentário de Fernando Morais, o escritor próximo de Lula que prepara biografia sobre sua vida política. “Estou acompanhando o ex-presidente de perto há alguns anos. Até onde minha memória alcança, é a primeira vez que ele admite que pode ser candidato em 2018”, disse Morais em sua página de Facebook.

A candidatura de Lula para a sucessão de Rousseff é um dos assuntos mais debatidos pelos adversários do Governo, mas, até o momento, ainda é uma incógnita. Considerado o “salvador” do partido pelo seu enorme carisma e habilidade política, o ex-presidente é a “carta na manga” do PT para os momentos de maior aperto. Foi dele, por exemplo, a função de circular pelo país ao lado de Rousseff quando as eleições de 2014 começaram a se mostrar mais complicadas do que o previsto. Neste sentido, seria lógico esperar a presença do ex-sindicalista na próxima disputa presidencial, caso a popularidade de seu partido e de sua afilhada política continuem a naufragar.

A de Rousseff atingiu em agosto o pior índice de todos os presidentes brasileiros desde a redemocratização, segundo pesquisa Datafolha —8% dos entrevistados disseram considerar o Governo de Rousseff bom ou ótimo, ante os 65% que o aprovavam em março de 2013. O PT, que sempre apareceu como o partido mais popular também tem sofrido em meio a crise política e econômica do país: no mesmo período, deixou de ser o preferido de 29% das pessoas para ser o mais citado apenas por 9% dos entrevistados.

Há, entretanto, uma outra ala do partido que defende que Lula se afastasse para preservar sua imagem. Seria a hora de o PT entregar o bastão para algum partido aliado, para tentar reorganizar suas bases. Mas o nome que era apontado como ideal para a função era o do ex-candidato à presidência Eduardo Campos, morto em um acidente de avião durante as eleições. O próprio ex-presidente parecia corroborar com essa tese. No evento de comemoração dos 35 anos do PT, em fevereiro deste ano, ele afirmou que o “exercício do poder acaba fragilizando um partido” e disse que a militância, responsável por levar as bandeiras petistas para as ruas, acabou cooptada pela disputa por “cargos em gabinete”. "Ao invés de irem para a porta da fábrica, vão para uma repartição pública", afirmou ele, na época.

Mas desde o começo do ano, quando a declaração foi feita, a situação tem piorado para a legenda que Lula ajudou a criar. Com o avanço das investigações da Operação Lava Jato, que envolveu ainda mais nomes petistas no escândalo de corrupção da Petrobras, e a piora da economia, que chegou à recessão, as ruas começaram a externar sua insatisfação com mais força. Além das manifestações multitudinárias que pedem o impeachment de Rousseff, a própria esquerda, que sempre foi a defesa nas horas mais críticas, já não esconde suas críticas às políticas de austeridade tomadas pela presidenta para tentar conter a crise. Manifestação organizada por movimentos sociais na semana passada atacou com veemência o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy e os cortes em direitos trabalhistas e no Orçamento de pastas responsáveis pela educação e por políticas habitacionais.

A queda generalizada nas preferências também parece ter atingido a imagem de Lula. Segundo uma pesquisa Ibope, divulgada nesta quinta pelo jornalista José Roberto de Toledo no jornal O Estado de S. Paulo, em um segundo turno com Aécio Neves, Lula hoje perderia com 31% dos votos ante 50% do tucano. Em junho, o ex-presidente aparecia em segundo também, mas com quatro pontos a mais. Se a eleição fosse hoje, ele perderia também se disputasse com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (41% contra 37%), ou com o senador José Serra (43% a 36%).

Educação como mote

Nos últimos meses, principalmente após o recrudescimento da crise, o ex-presidente tem saído em defesa do Governo Rousseff, do PT e de seu próprio legado. Ele já havia anunciado, durante o Congresso do PT em junho, que voltaria a percorrer o país. Neste sábado, o ex-presidente estrela, ao lado do ex-mandatário uruguaio José Mujica um debate em São Bernardo sobre participação popular. Nesta sexta-feira, afirmou em um seminário organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro ter realizado uma “revolução democrática” no país.

Chama atenção seu empenho especial no tema educação, eleito slogan do segundo mandato de Dilma, o Pátria Educadora. Ele se reuniu algumas vezes com o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, para discutir o tema. Em 14 de agosto, vestido com uma camisa polo vermelha com a estrela do partido em um ato organizado pelo PT em defesa da Educação em Brasília, ele pediu aos prefeitos presentes que fornecessem ao partido uma lista de escolas bem-sucedidas para que se desse publicidade. “Estamos aqui para assumir um compromisso de que é possível fazer a revolução na educação”, afirmou um Lula, em tom de campanha. O local estava coalhado de material gráfico específico para o evento, com grande pôsteres de Lula ao lado de crianças. Ele comparou a educação com o mote contra a fome, que o levou ao poder em 2002. "Eu disse que, ao terminar o meu mandado, se a gente tivesse garantido o café da manhã, o almoço e uma janta para todos os brasileiros, eu já tinha cumprido a missão da minha vida. Eu quero começar a utilizar as mesmas palavras para a questão da educação. A educação é a única coisa que garante efetivamente igualdade e chance de oportunidade."

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