Seleccione Edição
Login

Obama audaz

Presidente aposta em corte drástico das emissões de poluentes

Poluição em uma avenida de Pequim, em julho de 2015.
Poluição em uma avenida de Pequim, em julho de 2015.

Subitamente, começou a se desanuviar o caminho para um acordo mundial de redução das emissões de carbono na atmosfera durante a Conferência de Paris, em dezembro. Primeiro foi o papa Francisco, com sua encíclica ecológica sobre o meio ambiente, agora é Obama com sua proposta de redução de emissões de carbono para 2030, em um terço em relação aos níveis de 2005. Fica evidente que em ambos os casos, tanto na encíclica de Francisco como no plano de Obama, parte-se de uma aposta clara em favor de energias alternativas.

Se no caso do Sumo Pontífice é a autoridade moral e espiritual o que pesa na extraordinária repercussão de sua encíclica verde, no do presidente dos EUA é sua autoridade política em duas direções: no cenário internacional, complementa o acordo bilateral já alcançado com a China, garante o êxito multilateral em Paris e estimula os novos grandes poluidores, que são os países emergentes; e na política doméstica lança um desafio às posições negacionistas e reacionárias dos candidatos republicanos, que pesará nas primárias a ainda mais na campanha presidencial de 2016.

Com apenas 18 meses de mandato pela frente, o presidente dos EUA fez a aposta mais forte e arriscada adotada por seu país –o maior emissor de dióxido de carbono do planeta até 2006, quando foi superado pela China– em relação à política energética, com uma proposta de substituição das atuais usinas de geração de eletricidade que utilizam carvão por energias alternativas, solar e eólica, fundamentalmente, a qual vem complementar a política de independência energética já em andamento no fornecimento de petróleo e gás.

O plano apresentado nesta segunda-feira pela Agência de Proteção do Meio Ambiente, e anunciado pela Casa Branca, afeta interesses industriais dos Estados mais dependentes do carvão, como Wyoming e Virgínia Ocidental, e constitui também um desafio aos poderes estatais. Por essa razão, encontrará uma oposição muito forte no Congresso e terminará bem provavelmente no Supremo Tribunal, como já aconteceu com a reforma de Obama no âmbito da saúde. Em última análise, sua aplicação dependerá do próximo presidente, embora ao fazer a aposta às portas das eleições primárias Obama vá conseguir um certo efeito para o seu legado, completando sua agenda reformista interna e externa com um plano que o posiciona na liderança em ambos os campos.

Essa é uma das melhores notícias surgidas em relação aos esforços de redução de emissões na atmosfera, como foi estabelecido pelo Protocolo de Kyoto em 1992, pelo menos desde o fracasso da Conferência de Copenhague, em 2009, na qual Obama estreou com pouca sorte e a União Europeia desapareceu como ator global nos debates sobre o clima. E é também boa para o presidente Obama, que está subvertendo a regra sobre os segundos mandatos presidenciais estéreis ou negativos. Assim é no que diz respeito à sua liderança mundial e às perspectivas de uma melhor governança mundial em um assunto que, como ressaltou Obama, afeta o futuro das economias, a saúde e a segurança das pessoas.

MAIS INFORMAÇÕES