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O frescor assombroso de Gil e Caetano

Ambos demonstram nesta terça uma contagiante energia juvenil no Teatro Real de Madri

Caetano Veloso y Gilberto Gil Ampliar foto
Caetano Veloso e Gilberto Gil no Teatro Real de Madri.

Contam os especialistas em Tropicalismo, esse movimento que abalou a música brasileira e depois a mundial entre a metade e o fim dos anos 60, que, entre os líderes daquela mina de talento, Caetano Veloso era a cabeça e Gilberto Gil, o coração. Ao completar 50 anos de carreira e de amizade, ambos embarcaram numa turnê internacional que terça-feira à noite chegou ao Teatro Real de Madri. E a partir da segunda metade de agosto, se apresentarão em seis capitais brasileiras.

Eles demonstraram ser cabeça e coração, mas também, já completados os 70 anos de idade, deram mostra de um frescor assombroso, uma contagiante energia juvenil a quem, no público, esteve atento. Uma coisa ficou clara: a viagem do Tropicalismo colocou o Brasil num ecletismo global aberto ao que se fazia fora de suas fronteiras que continua plenamente vigente, meio século depois.

A pontualidade dos dois artistas não evitou que continuasse a chegar público meia hora depois. E o pior é que pessoas também não deixaram de sair. Mais de 200 euros (695 reais) pela poltrona de plateia e não ser capaz de sentar-se tranquilamente para desfrutar de duas horas de grande música? Melhor ficar em casa. Claro que, se fizessem isso, teriam perdido, primeiro, o desfile de VIPs, com cineastas amigos de Veloso à frente, atores, músicos... E depois, o que é mais grave, não poderiam contar sobre a forma contagiosa em que se encontram essas duas lendas.

Shows no Brasil

  • 20, 21, 22 e 23 de agosto - São Paulo
  • 26 de agosto - Curitiba
  • 28 de agosto - Porto Alegre
  • 26 de setembro - Belo Horizonte
  • 03 de outubro - Brasília
  • 16 e 17 de outubro - Rio de Janeiro

Entradas: http://premier.ticketsforfun.com.br/

De Back in Bahia a Filhos de Gandhi, em 25 canções, Gil e Caetano, violão em punho, seduziram com sua límpida musicalidade e sua maneira rica e poliglota de entender a música. Caetano admitira, numa entrevista no ano passado a Carlos Galilea, do EL PAÍS, que, se algo o fazia lamentar a desdenhosa velhice, é ter perdido a elasticidade da juventude. Não se referia à voz, porque não perdeu sua flexível amplitude, unida a um fraseado cristalino em quatro idiomas (português, espanhol, italiano e inglês), e que ambos demonstraram ter elevado a graus de maestria brincalhona.

Gil, Caetano e Almodovar, em Madri.
Gil, Caetano e Almodovar, em Madri.

O público atento, não o ansioso, celebrou com profundos momentos de ternura, como os transmitidos em Coração Vagabundo assim que começou, ou a simples, mas intensa e arrepiante conversa com a morte que Gil nos agraciou em Se Eu Quiser Falar com Deus. Os dois músicos também se mostraram entregues ao ritmo em Expresso 2222, dançantes e cúmplices em É Luxo Só, com suingue em Nine out of Ten, carnavalescos em Desde que o Samba É Samba, irônicos e distantes com a masculinidade superestimada em Super Homem e profetas de um mundo melhor em Terra. Grande noite a dois, Veloso e Gil, cabeça e coração, numa herança comum, aquele movimento decisivo do Tropicalismo, hoje tão vivo.

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