Copa América | Entrevista com a mão direita de Marcelo Bielsa durante 21 anos

Luis Bonini: “O Brasil pode ficar fora da próxima Copa do Mundo”

Mão direita de Bielsa durante 21 anos critica a falta de humildade do Brasil de Dunga

Luis Bonini, durante sua etapa no Athletic.
Luis Bonini, durante sua etapa no Athletic.

Pelo professor Luis Bonini (Buenos Aires, 1950) já passaram, nos últimos 35 anos, jogadores como Caniggia, Simeone, Verón, Aimar, Riquelme, Crespo, Ayala, Batistuta, Ortega, Mascherano, Alexis Sánchez, Vidal, Aránguiz, Valdivia, Fernando Llorente e Ander Herrera. Mão direita de Marcelo Bielsa durante 21 anos, este híbrido entre preparador físico (sua profissão original) e treinador formado em Ferrocarril Oeste sob a vitoriosa liderança de Carlos Griguol na década de 1980 voltou ao Chile quando concluiu a brilhante fase do Louco Bielsa no Athletic de Bilbao. “Todos meus exames estavam ruins, precisava parar um pouco”, brinca durante um dia de descanso da Copa América. É precisamente um compatriota admirador de seu trabalho, Jorge Sampaoli, que tem a oportunidade de acabar com um século de inferioridade e levar o Chile, finalmente, ao triunfo contra o seu maior inimigo.

Bonini treinava equipes de basquete (esporte ainda amador: dava aulas de educação física para viver) desde 1976. Mas em Ferro, conta, pediram que também se dedicasse ao futebol. “Isso mudou tudo. Eu me tornei assistente... Como sabia treinar basquete e conhecia a preparação física, começamos a montar um conceito de preparação física que não era apenas correr. Incluía todos os aspectos técnicos, táticos, um desenvolvimento em conjunto. Bielsa viu isso, e quando começou a trabalhar, ele me chamou”. Eles começaram no México em 1992, se separaram durante alguns anos e em 1998 responderam ao chamado do Español de Barcelona. Um palpite de Bonini convenceu Bielsa a colocar uma cláusula no contrato de que este poderia ser quebrado se fossem chamados pela seleção argentina. Depois do fracasso da Copa do Mundo de 1998 e da saída de Passarella, Julio Grondona pediu que eles assumissem o comando da equipe: uma Argentina que criou expectativas sensacionais, mas que não passou da primeira fase da Copa do Mundo da Coréia.

Pergunta. O que aconteceu com essa seleção tão forte na Copa do Mundo de 2002? A sorte é realmente tão importante no futebol?

Resposta. Não... Foi um pouco de tudo. Muito azar no desenvolvimento das coisas. A primeira é que os jogadores chegaram muito cansados. Em um campeonato como aquele, o fundamental é a primeira fase: as equipes vão se armando e se estabelecendo nas primeiras partidas. Veja o que aconteceu com o Brasil (campeão no final) no começo daquela Copa: um gol equivocadamente anulado contra Bélgica, um pênalti contra a Turquia que não existiu... E foi avançando, até ser campeão. Nós vencemos a Nigéria, contra a Inglaterra sofremos com uma arbitragem desastrosa de Collina (um pênalti que não aconteceu, que foi reconhecido pelos britânicos). Contra a Suécia tivemos 12 situações de gol e não fizemos... Era uma equipe brilhante, mas chegou com Verón machucado da final da Champions, Almeyda machucado, Aimar machucado...

P. Ele estava machucado? Jogou...

R. E Almeyda também. Simeone vinha de uma lesão nos ligamentos. Ayala se machucou no aquecimento, foi uma série de circunstâncias... O azar existe. No futebol a bola bate na trave, entra e a história é outra. Percebemos na preparação que a equipe estava perdendo gols, porque tinha perdido a pressão que Almeyda criava no campo do adversário e a roubada rápida da bola. Construíamos o jogo a partir da roubada rápida da bola. Almeyda não estava bem e nem Cholo, não estavam bem. Em esportes de alta competição, essa diferença final de forma, de desequilíbrio, é tudo. Isso é o que faltou. Mais um jogo e a equipe podia se acomodar. Foi eliminada por um pênalti que não existiu e uma falta. Antes da Copa do Mundo de 2002, os patrocinadores estavam disputando a Argentina e a França, que tinha os três melhores jogadores da Europa. E as duas equipes foram para casa. Tinham Zidane! Eu briguei com vários porque dizia que ele era o melhor jogador do mundo. E não levantaram a perna! Trezeguet me disse anos mais tarde: “Estávamos mortos”.

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P. Ou seja, um jogador muito cansado, mesmo que tenha 50 jogos nas pernas, se ficar 25 dias concentrado com sua seleção pode se recuperar?

R. Dá para equilibrá-lo. E você também tem que equilibrar a equipe. São jogadores que vêm da França, da Itália, da Inglaterra, da Espanha, competições totalmente diferentes... Quando jogou 52/53 partidas, mais uma começa a pesar. A partir de 54, 55 o desempenho físico começa cair. Por que James fez uma boa partida e no resto jogou mal? Porque não tem combustível, é como um carro!

P. Está achando decepcionante o nível de jogo nesta Copa?

R. Não... Achei interessante. Foi interessante exceto, talvez, o segundo tempo de Argentina contra Jamaica e a primeira partida do México. Fiquei surpreso com a ordem da Bolívia, o avanço da Venezuela. O Equador teve muito azar, é organizado. As eliminatórias para a Copa da Rússia serão muito complicadas aqui. O Brasil corre perigo se não despertar e voltar a ser humilde; pode ficar fora se não aceitarem que não têm mais uma geração de 4 ou 5 jogadores diferentes. Há muita igualdade. Serão eliminatórias muito complicadas. Gostei do Peru nas semifinais. Uma equipe muito agressiva, que não desiste, com um desdobramento da defesa no ataque que é impressionante, coloca quatro jogadores no ataque em um segundo.

P. A final de sábado é entre suas duas seleções mais queridas e mais conhecidas. Como vê a prévia?

R. O futebol é o único esporte onde Davi pode vencer Golias sem nenhum problema. O Chile está programado para atacar... Pode ganhar o jogo porque tem gol. Sempre teve. É muito versátil – Vargas, Alexis, os volantes Aránguiz, Vidal, Valdivia podem marcar. Porque avançam... Mas a chave é cortar a conexão Messi-Pastore-Agüero. Messi nunca pode receber cômodo e de cara para o gol. Um segundo elemento é o duelo fenomenal entre Isla e Di María, duelo entre dois corredores. Se Isla anular ou incomodar, tira da Argentina uma arma essencial para se aproximar de Bravo.

Juan Sebastian Verón escuta as indicações de Luis Bonini durante a Copa do Mundo da Coréia e Japão.
Juan Sebastian Verón escuta as indicações de Luis Bonini durante a Copa do Mundo da Coréia e Japão.

P. O destaque do seu tempo no Chile foi a derrota contra a Espanha na Copa do Mundo de 2010?

R. Sem dúvida. Fomos “muito quentes”. Até o gol de Villa estávamos iguais. E depois, no segundo tempo, o Chile com 10, a Espanha não chutou um tiro ao gol. Eram tão inteligentes que disseram, “estamos 11 contra 10, para que vamos dar a bola para eles, nos defendemos com ela”. Aí o Chile deu o resto. Depois já estávamos feridos na alma contra o Brasil. Naquele time, Suazo era fundamental e chegou machucado. Vadivia também não estava bem. E ambos eram centrais.

P. Está preocupado com o novo caso de indisciplina de Vidal?

R. Não gosto desse tipo de lição de moral das pessoas que o criticam e não conseguem suportar sua vida privada. Mas Arturo, como muitos outros, precisa de ajuda, não de punição. Está genuinamente arrependido, poderia ter matado alguém. É grave, mas isso é para a Justiça. O resto deve decidir a direção. Não aconteceu conosco. Sempre dissemos ao jogador: quem está na seleção deve querer estar. Mas Grullo é muito complicado. Implica aceitar as regras de convivência, não é fácil. Nós nunca impusemos multas nem nas seleções ou no Athletic, e estive tentado a fazer isso. Mas é melhor que os jogadores compreendam seus erros. Isso me ensinou Bielsa. Entender que trabalhamos na diversidade. E é mais simples do que parece, unir 20 jogadores muito diferentes atrás de um mesmo objetivo. É complicado quando você acha que todos são iguais e querem que façam o mesmo. É impossível.

P. Como é que se explica a queda de rendimento da Argentina nos segundos tempos (pelo menos até as semifinais)?

R. A grandeza ou a miséria de uma equipe não acontece por uma única razão. São pequenas razões que formam um todo. De um tempo para cá, na etapa de Checho Batista ou até Maradona, mas acho que mais de Batista, depois que conseguem o resultado os jogadores diminuem o ritmo. Eles têm boa técnica e se protegem atrás. Aconteceu inclusive com a Jamaica que, com todo o respeito, não consegue fazer dois passes consecutivos. O problema físico é relativo: há vários que estão muito bem (Mascherano, Messi, Zabaleta, Otamendi, Agüero). São eles mesmos, que são sábios, experientes, e quando conseguem o resultado relaxam naturalmente. Não é desobediência, não tem a ver com isso. Fazem uma pausa. Tampouco jogaram mal, porque sempre poderiam ter feito 3 ou 4 no primeiro tempo. A Argentina, hoje, tem uma seleção que mete medo.

P. Você gosta do Brasil de Dunga?

R. Dunga, que como jogador era um verdadeiro monstro, quer ordem acima de tudo. Ninguém consegue movê-lo do 4-2 em contenção. E isso pode funcionar em uma fase de dúvidas e instabilidade. Mas eu não gosto que os laterais ataquem menos, o que vai contra sua tradição. Eu o vejo muito estático, com jogadores que talvez poderiam crescer. Willian tem que aparecer... Esteve machucado e isso o prejudicou, é verdade, mas tirar atacantes e colocar centrais contra a Venezuela denuncia o que ele quer, e os grandes precisam jogar de forma grande. Não vejo o Real Madrid ou o Barcelona se defendendo... Mourinho é capaz de fazer isso no Madrid, mas de outra forma.

P. Está entre seus objetivos treinar um clube?

R. Não... Não está dentro das minhas capacidades. Posso ser um preparador físico, um assistente. Gostaria de me aposentar em um campo de futebol, tive ofertas, mas não sei...

P. Nesse papel de assistente?

R. Sim, mas dividir o futebol de hoje em áreas é um erro. Tudo deve se desenvolver em conjunto: você pode desenvolver, por exemplo, áreas específicas da parte física, porque não vai jogar bem futebol levantando pesos, mas as outras coisas devem se desenvolver dentro do jogo. Os treinamentos táticos também devem ter um componente físico. Devem sempre se complementar. Isso é o que pensávamos e desenvolvemos com Bielsa desde 1992. Por isso treinávamos em conjunto.

P. O que ficou da sua passagem pelo Athletic de Bilbao?

R. Um dia eu disse ao presidente: “Josu, por que não vendem Llorente e colocam o dinheiro nas divisões inferiores?” “Luis, nós não vendemos jogadores, formamos jogadores, jogamos com os nossos”, ele respondeu. E isso me matou. O sentido de pertencer ao Atlético é o máximo; me lembrou o Ferro de Griguol, quando disse: “Aqui não compramos jogadores porque não temos dinheiro, jogamos com o que temos”. Esse sentido de ser competitivo com o que têm é maravilhoso. Compare orçamentos com outros clubes. Fico emocionado, acho que o Athletic é um clube de futebol que resgata os valores do jogo. Ele é superprofissional, mas com alma amadora.

P. Durante a fase de Bielsa falavam do Athletic de Bilbao em toda a América do Sul...

R. Falo como Mascherano outro dia: “Fizemos nosso trabalho”. Eu choro todos os dias por Bilbao... Quando me levanto de manhã, choro um pouquinho.

P. Quais jogadores mais o impressionaram?

R. Maradona é o máximo que eu já vi. Fiquei doido com Cruyff e Zidane. Achei o máximo. Eles me mataram. Com Zidane, quando eu dizia aos meus colegas que era o melhor do mundo, eles me xingavam muito. Mas depois, com o tempo... Agora, por exemplo, você pode dizer, e como não vou falar de Baresi, de Passarella...? Ou um jogador completamente desconhecido que, para mim, foi extraordinário, o Beto Marcico? Ele começou a jogar futebol aos 19 anos! Nós o encontramos em uma praça em Buenos Aires. Jogou no Ferro, não no Boca ou no River, se jogasse teria ido para a seleção. Depois foi para o Toulouse. Um dos muitos que não triunfam muito, mas que são verdadeiros craques.