Extinção de espécies

Sexta grande extinção está em curso

Ritmo de desaparecimento de espécies é 100 vezes maior desde o século XX

A superexploração dos recursos é um dos fatores que estão acelerando a extinção. Na imagem, montanha de crânios de bisões norte-americanos.
A superexploração dos recursos é um dos fatores que estão acelerando a extinção. Na imagem, montanha de crânios de bisões norte-americanos.Detroit Public Library/Wikimedia Commons

Uma criança que nascer por estes dias verá, quando deixar este mundo, cerca de 400 espécies de animais indo junto com ela. Segundo estudo feito com dados dos últimos cinco séculos, a taxa de extinção de espécies por multiplicou por mais de 100. O ritmo, além disso, foi acelerado nas últimas décadas pela ação do homem. Bem-vindos à sexta extinção em massa da vida neste planeta.

Não é a primeira vez que a Terra sofre uma grande extinção de espécies. No imaginário coletivo está a dos dinossauros, há 65 milhões de anos. Desapareceram cerca de 75% das espécies. Mas antes dela houve outras quatro, ainda mais mortíferas. Aquelas cinco extinções em massa foram provocadas por fenômenos naturais – meteoritos, supervulcões ou até a explosão de uma supernova. Mas agora, sem dúvida, é uma das espécies, a humana, que provoca o desaparecimento acelerado das demais.

Um grupo de pesquisadores do México e dos EUA usou a base de dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) para calcular a taxa atual de extinção das espécies. Concentraram-se nos vertebrados porque há mais dados sobre eles, nos registros fósseis e nos históricos.

Sem o ser humano seriam necessários 10.000 anos para o desaparecimento das espécies extintas em 100 anos

Descobriram que, desde 1500, existem provas do desaparecimento de 338 espécies. Outras 279 agora só existem nos zoológicos ou, pela falta de observações, possivelmente já se extinguiram. Ao todo, desapareceram 617 espécies de vertebrados. E, conforme publicado na revista científica Science Advances, a maioria das extinções ocorreu no último século.

“Nosso trabalho indica que já entramos na Sexta Extinção em Massa, sem dúvida nenhuma”, diz Gerardo Ceballos, pesquisador do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autônoma do México e autor principal do estudo. E esta grande extinção é diferente das cinco anteriores. “A diferença é que todas as anteriores foram provocadas por fenômenos naturais, e esta está sendo causada pelo ser humano. Outra diferença é o período muito curto em que está acontecendo”, acrescenta.

Talvez o número de 600 espécies não seja muito eloquente. Fazia falta um referencial para poder avaliar o ritmo atual de desaparecimento, uma espécie de taxa natural de extinção. Em 2011, outro grupo de pesquisadores, encabeçados pelo paleontólogo da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) Anthony Barnosky, que participa do atual estudo, fizeram uma análise intensiva dos registros fósseis dos últimos dois milhões de anos. A partir disso calcularam que a taxa natural de extinção estivesse na casa de 1,8 por 10.000 espécies a cada 100 anos.

Gráfico mostra porcentagem acumulada de espécies de vertebrados (mamíferos, aves, anfíbios, peixes e répteis) extintas desde 1500. A linha pontilhada é a taxa natural de extinção.
Gráfico mostra porcentagem acumulada de espécies de vertebrados (mamíferos, aves, anfíbios, peixes e répteis) extintas desde 1500. A linha pontilhada é a taxa natural de extinção.Ceballos et al.

Na atualidade, considerada como os últimos séculos, a taxa de extinção é até 100 vezes maior que a taxa natural. Para dar uma ideia, num cenário em que prevalecesse a taxa natural, desde 1900 teriam sido extintas nove espécies de vertebrados. Só que 477 espécies foram extintas. Seriam necessários cerca de 10.000 anos para acabar com a vida que desapareceu em apenas um século.

Além disso, o processo está se acelerando. Os anfíbios são a classe mais afetada de vertebrados. Desde 1500 tinha sido constatado o desaparecimento de 34 espécies de anfíbios, e desde 1980 outras 100 desapareceram. E não se pode descartar que muitas outras tenham sofrido extinção sem que haja testemunhos humanos para confirmar. Os pesquisadores, que insistem que suas estimativas são muito conservadoras, lembram que em seus cálculos não são consideradas as muitas espécies que se tornaram mortas-vivas, com populações tão pequenas que sua função nos ecossistemas é quase nula.

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Para Ceballos, os fatores que explicam as extinções são a destruição do habitat, a superexploração de espécies, a contaminação e a mudança climática. “Tudo deriva do tamanho da ação humana: o tamanho da população, que continua crescendo, a desigualdade social, a ineficiência tecnológica. São esses os fatores fundamentais deste enorme problema, que ameaça a humanidade”, declara.

Em suas conclusões, os autores alertam que a janela de oportunidade para reverter a situação está se fechando: “Se permitirmos que o atual ritmo elevado de extinção continue, logo os humanos (em tão pouco tempo quanto três períodos de vida) ficarão privados dos muitos benefícios da biodiversidade. Na escala temporal humana, esta perda será definitiva, porque, após as extinções em massa anteriores, a vida precisou de centenas de milhões de anos para voltar a se diversificar”. Até lá, já não estaremos por aqui.

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