Copa América

Brasil e o “sambinha de uma nota só”

Seleção brasileira ainda vive o trauma dos 7x1 sofridos contra a Alemanha

Jogadores comemoram gol de Douglas Costa.
Jogadores comemoram gol de Douglas Costa. Fernando Bizerra Jr. (EFE)

Apesar das frases de autoajuda do técnico Dunga e de alguns jogadores, a seleção brasileira ainda vive o trauma dos 7x1 sofridos contra a Alemanha. O pior é que o futebol pentacampeão do mundo, como um adulto teimoso e psicologicamente desequilibrado, rejeita até agora o divã ou, no mínimo, a terapia de grupo.

O gol do Peru logo aos 2 minutos de jogo –com ato falho de David Luiz que só Freud explica– mostrou que autoajuda não cura nada. Foi o primeiro embate em competição oficial desde o Mineirazo. O time peruano, um adversário eternamente goleado, agora também joga de igual para igual contra os canarinhos.

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O que salvou foi a estratégia do “samba de uma nota só”, como na música de Tom Jobim e Newton Mendonça, clássico da Bossa Nova. O sambinha brasileiro consistiu, diante da falta de esquema tático do Dunga, em passar a bola para Neymar, único craque de uma equipe que, historicamente, sempre exibiu um chão de estrelas.

Foi o atacante do Barcelona, óbvio, que empatou a partida, antes dos cinco minutos. Foi o cavaleiro solitário da camisa 10 que deu o gol da raquítica vitória para Douglas Costa, já nos acréscimos.

No dia em que Neymar sofrer uma marcação mais rigorosa e for anulado –isso aconteceu até com o Pelé, o Puskas, o Maradona e o Messi–, só nos restará pedir piedade a Deus ou aos céus blasfemar, como no samba do gênio Cartola. Um exército não pode depender de um homem só. Se não tem mais aquela fartura de craques, que tenha pelo menos um “samba esquema noise” –aqui já escuto o disco da banda Mundo Livre S/A inspirado na obra de Jorge Ben Jor. Se não tem Bossa Nova, pelo menos um samba do barulho.

Não é com autoajuda que o futebol brasileiro vai resgatar a sua história

Não é com autoajuda que o futebol brasileiro vai resgatar a sua história ou estilo. Nossa história, aliás, é nosso estilo. A ilusão apenas do resultado pelo resultado, como na peleja contra o Peru, pode nos levar a novas tragédias. Ou o Brasil recupera sua ideia de jogo ou seguirá medíocre.

Sigo na vitrola, com o “samba de uma nota só” na voz incomparável de João Gilberto. Dividi a narração do jogo entre o Milton Leite (canal Sportv), meu locutor predileto na televisão, e o disco de vinil do João Gilberto. Viva João Gilberto: “Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada. Ou quase nada.”

O futebol canarinho vive uma crise técnica, existencial e moral –o ex-presidente da CBF (Marin) está preso no escândalo da Fifa e o atual (Del Nero) sob suspeita. Além de cadeia, a máfia dos cartolas precisa também de divã, como no filme.