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Copa América, uma trégua futebolística em meio à corrupção

O Chile se prepara para receber o torneio e esquecer os escândalos por alguns dias

Estádio Nacional de Chile
Estádio Nacional de Chile

O Chile chega à Copa América em estado de choque. Este país acostumado à calma política, que viveu anos de crescimento sustentado e tranquilidade, sobretudo se comparado a seus vizinhos latino-americanos, está imerso na maior crise política desde a recuperação da democracia devido aos escândalos de corrupção e sobretudo de financiamento ilegal que afetam todos os partidos.

“É um clima insustentável, não afeta apenas o Governo mas também a oposição, o Parlamento, os empresários. O ambiente está contaminado e todas as pesquisas detectam um grande mal-estar, raiva e frustração que vão muito além do Executivo”, destaca Marta Lagos, pesquisadora que dirige o Latinobarómetro. Nesse contexto, a Copa América chega como um grande respiro para toda a classe política e empresarial, que vive um de seus momentos mais difíceis, e a sociedade chilena em geral. “Vai representar uma trégua. O futebol para tudo. No momento, vai ocupar todo o espaço, mas depois a batalha voltará”, sentencia Lagos.

O ruído que o esporte mais popular produzirá na América do Sul se justifica por uma óptica puramente esportiva. Argentina, Brasil, Colômbia, Chile e Uruguai reúnem vários dos melhores jogadores do planeta. Sete dos participantes da última final da Champions se reencontrarão no torneio: Pereyra, Tévez, Vidal, Bravo, Messi, Mascherano e Neymar. Os rapazes abrem parênteses em suas carreiras para chegar ao encontro com espírito mais amador do que profissional. A maioria joga fora do continente. O que está em disputa é o torneio de seleções mais antigo do futebol. A Copa América tem mais valor para os sul-americanos do que a Eurocopa para os europeus. A crise judicial que abala a FIFA atingiu especialmente os dirigentes da Conmebol, acusados de pagar subornos para ceder os direitos de retransmissão. A corrupção infecta quase todas as federações. Mas a realização da Copa América não se discute. No Chile, assim como na Argentina, será um respiro no vendaval político.

Em uma recente entrevista ao EL PAÍS, a presidenta chilena, Michelle Bachelet, admitiu que desde que chegou ao governo viveu uma “tempestade completa”. Os escândalos foram o arremate final, um deles afetando inclusive seu próprio filho. Mas antes, explicava Bachelet, viveu 14 meses de desastre: um terremoto, incêndios de grandes proporções, enchentes, dois vulcões em erupção... E principalmente uma questão de fundo que marca o estado de ânimo dos chilenos: uma desaceleração econômica comum a outros países da América Latina, que no Chile se amplifica por ser um dos países com maior desigualdade. Bachelet, apesar de sua queda nas pesquisas, tenta aproveitar todo o seu caudal político para recuperar o Chile. Trocou quase todo o Governo e conseguiu reduzir um pouco a pressão.

Nesse contexto, a Copa América pode alterar muitas coisas. O Chile vive muito em função de suas estrelas na Europa: Arturo Vidal, Claudio Bravo e, sobretudo, Alexis Sánchez, o jogador do Arsenal. Sánchez acabou eleito melhor jogador da Premier pelo público inglês em uma pesquisa com 200.000 fãs e a notícia foi capa de todos os jornais do país. A publicidade na televisão nesses dias evoca o chute na trave de Pinilla que impediu o Chile de eliminar o Brasil na Copa do Mundo, e transforma a Copa América em uma segunda oportunidade. Os chilenos estão entusiasmados. Uma pesquisa do Centro de Estudos da Universidade San Sebastián detectou que 61% acreditam que o Chile pode chegar à final.

Euforia chilena

O otimismo em relação à seleção contrasta com o pessimismo na política e na economia. Alguns economistas acreditam que um bom resultado da seleção poderia até melhorar o ânimo dos consumidores. “Os escândalos vão continuar porque a política chilena foi mal financiada, todos estão envolvidos. A Copa América pode ser um veranito de San Juan”, ironiza Lagos, referindo-se ao fenômeno meteorológico que causa picos de calor durante estações frias. “Espero que, depois da trégua, os atores principais voltem à batalha com mais sabedoria. Mas vão voltar sobretudo porque o Governo está disposto a fazer mudanças muito profundas e as resistências, especialmente dos empresários, são muito fortes”, resume. Bachelet está empenhada em reformar aspectos essenciais, como o sistema tributário e a educação, para garantir mais igualdade de oportunidades, com a universidade gratuita, por exemplo. À espera da tempestade, o Chile se resguarda no futebol, pelo menos durante duas semanas.

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