'Rei do Blues'

B. B. King, a grande memória do ‘blues’, morre aos 89 anos

O músico estava internado morreu em Las Vegas, na madrugada desta sexta-feira Artista é essencial para compreender o desenvolvimento da música popular do século XX

O guitarrista, em uma foto de 2010, durante uma visita a Madri. Atlas / Claudio Álvarez (atlas)

Musicalmente falando, é como se o mundo ficasse, quase definitivamente, sem uma parte de sua memória. Foi embora um dos grandes pais fundadores do blues, um homem que criou uma nova linguagem com a guitarra elétrica, peça essencial na arquitetura da música popular do século XX. Vai embora algo mais do que um simples músico. Porque B. B. King, morto aos 89 anos, representava um modo de vida e de criação musical nos Estados Unidos.

B. B. King desmaiou em outubro durante uma apresentação e precisou cancelar o restante da turnê também pela desidratação e esgotamento causados pela diabete diagnosticada há mais de duas décadas. Desde então, seu estado de saúde só piorou.

Com sua voz aguda e o poder de sua guitarra, era o meio caminho perfeito entre Mississipi e Chicago, entre o rural e o urbano, entre o Gênesis e o Novo Testamento do blues

Nascido em uma família pobre, em uma diminuta cabana de um povoado do Mississipi, sua primeira experiência musical veio aos 12 anos quando fez parte de um grupo vocal de gospel e o pastor lhe ensinou os primeiros acordes com uma guitarra. Na época, colhia algodão em uma fazenda da cidade de Lexington. Depois, realizou o mesmo trabalho em Indianola, no começo dos anos quarenta.

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Com sua famosa Lucille – nome que deu a sua inseparável guitarra Gibson – e um punhado de dólares no bolso, B. B. King se mudou para Memphis em 1946, a cidade que pouco depois revelaria Elvis Presley, onde no final dos anos quarenta e começo dos anos cinquenta desenvolveu um estilo único: mesclava a sonoridade rural do campo com a vitalidade elétrica da cidade. Ali se transformou no rei da rua Beale e fez o blues avançar. Nesses primeiros anos ele deu ao estilo um caráter particular e espantoso. Canções como I’ve Got a Right To Love My Baby, Please Love Me, Three O’Clock Blues, Sugar Mama ou Gotta Find My Baby, são composições que mostram um blues nada convencional, com orquestra de metais que o afastavam do protótipo do músico primitivo do Mississipi, mas sem perder as raízes de sua terra. Com sua voz aguda e o poder de sua guitarra, era o meio caminho perfeito entre Mississipi e Chicago, entre o rural e o urbano, entre o Gênesis e o Novo Testamento do blues.

Foi o som do blues moderno, que explodiu mais tarde em Chicago e marcou toda a geração do rock'n'roll dos anos sessenta. Teve grandes discípulos brancos como Eric Clapton ou Mike Bloomfield. Os Rolling Stones, fascinados pelas músicas dos primeiros bluesmen originais, levaram B.B. King em turnê. Abrindo as apresentações dos Stones, fez com eles alguns dos milhares de shows que tinha em seu roteiro. Porque B. B . King, que pretendia conseguir a maior quantidade de dinheiro possível através do blues loquaz e contagioso de sua guitarra, acostumou-se a fazer mais de 250 shows por ano. Ele tocou no Brasil diversas vezes - sua última turnê no país ocorreu em 2012, quando passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.

De alguma forma, nas duas últimas décadas ficou marcado como o grande embaixador do blues clássico, desse som primitivo que soava mais real e absorvente do que em qualquer outro lugar naqueles homens e mulheres que viveram uma época específica. Muitos foram caindo enquanto ele continuava tão forte como em seus anos de juventude, ainda que com as doenças da idade: tinha problemas de vista e precisava tocar sentado durante toda a apresentação. Mas ali estava B. B. King, chamado por muitos de Rei do blues e com quem todas os astros da música queriam compartilhar o palco, e até mesmo Luciano Pavarotti foi seu discípulo. Era um artista essencial para compreender o desenvolvimento da música popular do século XX, o fascinante universo do blues original, nascido do mundo rural e eletrificado através de sua Gibson até moldar uma linguagem impactante. Era, definitivamente, B. B. King, memória de um tempo único, talvez o último guitarrista que nos lembrava de como tudo começou quando queríamos falar de blues.