Pepetela | Escritor angolano

“As mulheres da África têm uma luta a travar pela real emancipação”

Nos 40 anos da Independência de Angola, escritor fala sobre o longo caminho a ser trilhado

O escritor angolano Pepetela.
O escritor angolano Pepetela.

Angola comemora, no próximo mês de novembro, 40 anos da sua independência, deixando de ser colônia de Portugal. Por ser um fato recente, grande parte da história do país africano foi escrita pelos europeus. Esse foi um dos fatores que motivaram Pepetela, escritor angolano, de origem portuguesa e que vive hoje em Portugal, a pesquisar mais profundamente sobre a história do país pré-colonial.

De suas pesquisas, surgiu Lueji, O Nascimento de um Império. Escrito em 1988, o livro acabou de ser relançado no Brasil pela editora Leya, e traz uma narrativa que mistura aspectos históricos com ficção, pelos olhos do povo angolano. No romance, Pepetela afirma ter tentado reconstruir um mito do país: O Império de Lunda e sua imperatriz, Lueji.

Lunda foi uma confederação africana existente na período pré-colonial, antes da chegada dos europeus ao continente, fundada no século 16. Situada onde hoje são a República Democrática do Congo, o nordeste de Angola e o noroeste da Zâmbia, o reino chegou a ser um dos grandes potentados da África. Foi derrubado no século 19, depois de ser invadido pelo povo Chokwe, segundo a versão 'oficial'. Mas há lendas muito mais fantásticas sobre a queda desse império, exploradas pelo escritor.

Lueji, a filha caçula do imperador, foi escolhida por seu pai para sucedê-lo, tornando-se a Rainha de Lunda. A história da imperatriz é narrada paralelamente à de outra personagem: Lu, que vive 400 anos depois da época de Lueji, na Luanda pós-independência. Ambas são unidas não pelo tempo, mas pela mesma trajetória, onde questões como o feminismo, colonialismo, tradições e poder são abordadas. Em entrevista concedida ao EL PAÍS, Pepetela trata dessas questões e das peculiaridades do seu livro.

Pergunta. Lueji foi escrito em 1988. Agora, em 2015, comemoram-se os 40 anos da independência de Angola. O que mudou no país desde então?

Resposta. Em primeiro lugar, se não tivesse havido a guerra civil que durou até 2002, a história seria outra. Mas ficamos muito condicionados pela guerra. O que mudou foi fundamentalmente a criação de uma nação, com os seus particularismos e algumas tensões territoriais, mas de fato uma nação. E um povo extremamente orgulhoso da identidade angolana, olhando de frente para qualquer um. Isso foi resultado da guerra pela Independência.

Desde a paz (em abril de 2002) tem havido um trabalho grande na criação e recuperação de infraestruturas - estradas e pontes ficaram todas destruídas -, grandes empreendimentos de energia, e construção de milhares de escolas e postos de saúde por todo o país. Em termos quantitativos há uma diferença abismal. Mas a qualidade dos serviços, da educação e da saúde ainda é muito deficiente. Fala-se hoje de corrupção e é verdade, ela é grande, mas não há diferença com a situação colonial, os primeiros corruptos de Angola registrados na História foram os portugueses que corromperam os príncipes do Congo para obterem escravos…

P. Há mudanças de cunho social ou avanços culturais perceptíveis?

R. Sim, há avanços e seriam maiores se por um lado não tivesse havido a guerra civil, alimentada por interesses exteriores, e se por outro lado tivéssemos sido mais rigorosos na governança e na luta contra os desvios do dinheiro público. Mas passamos em poucos anos de taxas de analfabetismo enormes para dados abaixo da média africana e a luta pela erradicação do analfabetismo é séria. Há conquistas na diminuição das mortes causadas por vetores facilmente combatidos, com uma diminuição dos índices de mortalidade infantil. Mas ninguém pode estar satisfeito. Poderia se fazer mais e melhor.

P. Você levanta algumas questões feministas em seu livro. Como é a realidade das mulheres na África? Qual é a maior peculiaridade em relação aos direitos das mulheres neste continente?

R. O continente africano é enorme e diversificado, em todos os pontos de vista. Não se pode generalizar sobre a mulher africana. Ela como tal não existe. Existem sim muitos tipos de mulheres africanas. Mesmo no caso angolano, que acaba por ser um dos países mais homogêneos, há diferenças entre mulheres urbanas e rurais, mulheres que vivem no litoral e no interior, na cidade ou no campo, etc. Temos uma Constituição e leis que tornam a mulher igual ao homem em todos os direitos. O problema nas leis é que nem sempre são cumpridas… Ou demoram tempo a serem integralmente cumpridas. Mas vale a intenção!

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P. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie diz que, ainda que haja uma diferença muito grande entre os gêneros em todo o mundo, na África as diferenças são mais perceptíveis. O senhor concorda?

R. Depende de que país africano se trata. Por exemplo, Ruanda é o país, de todo o mundo, onde a mulher está mais representada no Parlamento, compondo mais de 60% da bancada dos deputados. Quer dizer alguma coisa? Talvez. Mas no geral ela tem razão, as mulheres da África têm uma luta a travar pela real emancipação, sobretudo as pertencentes a sociedades onde a religião comanda a vida.

P. Aqui no Brasil, um assunto que tem sido muito discutido nesse âmbito é o problema do assédio às mulheres nas ruas e a disparidade salarial de gênero. Quais são os maiores problemas na África em relação ao gênero?

R. Violência doméstica, de grupo familiar ou individualmente. Problemas com partilhas quando o marido morre e as famílias do falecido querem ficar com tudo. Tentativas constantes dos homens de retomarem a poligamia, proibida por lei. Nas zonas rurais é comum os chefes de família tradicionais resolverem pacificamente os problemas. Mas nas cidades, em que a lei é baseada no direito europeu, o caso torna-se muito sério. Diferenças salariais também existem, no caso angolano para algumas profissões menos diferenciadas, mas ocorrem quando há um nível menor de instrução e trabalho. Em outros países, as diferenças salariais são comuns, mesmo para gente com formação superior. Isso aqui seria impensável.

P. Uma mulher na presidência faz alguma diferença no debate sobre gêneros?

R. Ter uma mulher na presidência comporta um peso simbólico muito grande e pode ajudar na luta das mulheres. Obviamente não é o suficiente. E há até mesmo casos em que mulheres que foram presidentes governaram bastante mal, como a Aquino das Filipinas [María Corazón Cojuangco-Aquino, presidenta das Filipinas entre 1986 e 1992], tendo fortalecido a visão machista do poder.

P. Sobre o seu novo livro, é difícil defini-lo como um ou outro gênero, já que ele trata de questões como tradições, poder, colonialismo e feminismo. Qual era a ideia quando você começou a escrever essa história?

R. A ideia era escrever sobre o mito da criação do chamado Império Lunda, existente no nordeste de Angola e parte da atual República Democrática do Congo. Depois compreendi que por se tratar de um mito e não de História documentada, com várias versões, isso poderia ser confuso para o leitor médio angolano. Então introduzi uma história paralela, passada em um tempo que seria um futuro próximo e também tive a ideia de complicar a vida (para mim e para o leitor) cruzando as histórias, mostrando que o nosso presente vem de um passado antigo que nos condiciona, de certa maneira.

P. Houve uma inspiração?

R. Houve de fato uma espécie de epifania quando conheci o mito de Lueji. Estava na Argélia, em 1966, trabalhando para o Movimento Popular de Libertação de Angola, e ao mesmo tempo em um centro que criámos lá, o Centro de Estudos Angolanos. Um dos trabalhos do Centro era escrever a História de Angola, numa visão nacional, pois até então o que havia sobre o assunto era escrito por europeus, entre os quais portugueses, que deturpavam os fatos para defenderem os seus interesses coloniais. A mim coube, entre outras coisas, tratar sobre a região de Lunda. Foi quando encontrei a primeira versão do mito de como Lueji se tornava rainha dos Lundas e criaria o Império. O que me marcou foi o fato de ser a primeira mulher a romper com as tradições milenares de endogamia tribal e casar com um estrangeiro que ela escolheu, uma aliança para reforçar o seu poder político e militar. Era um passo tremendo em relação à situação da mulher, sempre dependente do homem. E de tomar e conservar o poder até o filho ter idade de reinar. Aí eu disse aos amigos: “Um dia vou ter uma filha que se chamará Lueji e escreverei um romance sobre a Lueji da Lunda”.

P. E foi assim?

R. A filha veio primeiro. Depois, muitos anos depois, de 1986 a 1989, escrevi o romance. Entretanto, fui recolhendo tudo o que podia sobre o assunto, primeiro nos livros de estrangeiros, depois no terreno, em plena guerrilha, das diferentes etnias que se reconheciam no Império Lunda.

P. O que o senhor foi descobrindo ao longo de sua pesquisa?

R. Ao longo da pesquisa, particularmente na fala com os mais velhos que habitavam as regiões do Leste de Angola, notei que havia várias versões do mito. No fundo, cada etnia tinha polido e remodelado a história, passando de geração em geração por via oral, com um fim talvez não deliberado de explicar porquê eles eram o que eram. Como tinham tomado o poder, como se deixaram submeter, de que forma tinham tentado recuperar o poder perdido. Cada um dos personagens do livro acaba por dar, na ideia das pessoas, origem a um reino que participou do Império ou se rebelou contra ele, como é o caso dos Tchokwe que no século XIX destruíram o Império e passaram a dominar a maior parte da faixa oriental de Angola e ainda hoje são uma etnia em expansão. Descobri então, diferentes versões do mesmo mito, que na minha opinião e contrariamente às especulações dos historiadores portugueses, é milenar. Então me senti à vontade para navegar entre as várias versões e escrever a minha.

P. Você fala em criar uma nova versão do mito. Que mito é esse?

R. Encontrei diferentes versões do mito, como disse. Juntei os detalhes e as partes que mais de coadunavam à minha visão e criei portanto uma nova versão. Curiosamente, sempre foi muito aceito pelas populações em causa. Hoje existe em Lunda uma Universidade pública chamada Lueji A’Nkonde. Lueji também batiza o nome de algumas ruas, particularmente em Luanda. O livro ajudou a recuperar uma figura pouco conhecida para a transformar num elemento de autoestima e afirmação nacional. Tenho muito orgulho disso. Pouco interessa se Lueji existiu e se foi assim ou de outra forma. Se nunca existiu, foi uma criação de séculos da imaginação popular, o povo criou Lueji e nós hoje amamos essa nossa rainha. Existe, portanto, como diria Descartes.