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Quando um número não é só um número: a batalha das multidões

Discrepância entre dados da PM e do Datafolha sobre atos abre debate sobre métodos

Diferença nunca havia sido tão grande e provocou acusações sobre politização

Manifestação na avenida Paulista, em São Paulo.
Manifestação na avenida Paulista, em São Paulo. Getty Images

Quem acompanhou o noticiário no domingo e na segunda-feira pode ter ficado com a impressão de que a humanidade conseguiu colocar astronautas na lua, mas não encontrou um meio confiável de contar multidões. As manifestações favoráveis e contrárias a presidente Dilma Rousseff (PT) que aconteceram em São Paulo na sexta-feira e no domingo, respectivamente, evidenciaram isso. Entre a medição da Polícia Militar, dos organizadores e do instituto Datafolha houve uma distância de dezenas de milhares de pessoas. Soma-se a isso o fato de que a PM paulista responde ao governador Geraldo Alckmin, do PSDB, partido que faz oposição a Rousseff, e o resultado são acusações de politização dos números.

No dia 13 um ato convocado por centrais sindicais simpáticas ao Governo e em apoio à democracia levou para a Paulista 100.000 pessoas segundo a organização, 41.000 de acordo com o Instituto Datafolha, e 12.000 para a Polícia Militar. Apesar da disparidade entre as estimativas, os números não provocaram muita controvérsia: historicamente a polícia faz estimativas mais conservadoras que os organizadores – especialmente em se tratando de protestos de movimentos sociais.

No ato de domingo, uma surpresa: a PM estimou o número de manifestantes em um milhão, e o Datafolha em 210.000. Uma discrepância de quase 800.000 pessoas. Imediatamente militantes favoráveis ao Governo nas redes sociais começaram a acusar a polícia de inflar o ato. Por outro lado, simpatizantes da marcha tacharam o Datafolha de pró-Dilma, por estar ‘ocultando’ o real tamanho do ato.

A discrepância entre a estimativa da PM e do Datafolha não costuma ser tão gritante, se analisados os dados recentes disponíveis. Durante os dois maiores protestos de junho de 2013 em São Paulo, os dois apontaram números semelhantes: na marcha de 17 de junho a polícia estimou o público em 60.000 pessoas e o Datafolha em 65.000, e no ato de 20 de junho a PM falou em 100.000 pessoas, ante 110.000 do instituto.

Segundo o Datafolha, área de 135,5 mil m² da avenida Paulista suportaria 950 mil pessoas (sete por metro quadrado). Isso em sua aglomeração máxima, o que equivaleria a uma situação de confinamento como a encontrada nos trens e no metrô em horários de pico. Levando em conta que o canteiro central estava interditado para obras nas ciclovias, a concentração apontada pela PM se mostra ainda mais difícil de ser alcançada.

Os métodos usados diferem. Em nota, a PM diz se valer de uma “ferramenta tecnológica chamada Copom Online, que utiliza recursos de mapas e georreferenciamento”. Estas imagens aéreas são colhidas por helicópteros, “determinando a extensão principal da manifestação, bem como, a ocupação das ruas adjacentes”. Assim, a polícia calculou que haviam 5 pessoas por metro quadrado no ápice do protesto, às 15h40, considerando toda a extensão da avenida Paulista, contabilizando um total de um milhão. Durante a manifestação, a polícia informou em sua conta no twitter que também usou dados repassados pelo Metrô sobre o número de pessoas que desembarcava na avenida a cada minuto, para chegar ao valor final.

Especialistas ouvidos pela reportagem questionaram o método de inclusão de dados coletados pelo Metrô na conta da PM. "Não tenho a menor ideia de como ele pega o quantitativo do metrô, que é preciso, porque é uma medição feita na roleta, e incorpora no cálculo. É preciso saber como ele combina essas informações", afirma Moacyr Duarte, coordenador do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Questionada sobre a incorporação dos dados do Metrô, a polícia não quis se pronunciar.

Já o Datafolha dispõe de método próprio. Pesquisadores do instituto divididos por setores percorrem a manifestação a cada hora, registrando o número médio de participantes em cada metro quadrado. Terminada esta contagem, ele retorna pelo mesmo caminho indagando aos participantes há quanto tempo estão na manifestação. Esta nova contagem aponta quantas novas pessoas chegaram ao ato e quantas foram embora.

“Nosso método é racional, nós o desenvolvemos e aperfeiçoamos há 30 anos. Queremos eliminar qualquer traço de ideologia na medição”, afirmou Mauro Paulino, diretor do Datafolha. “Não consideramos a imagem aérea para fazer estimativa, já que ela distorce a percepção da multidão, favorecendo uma leitura enviesada.” Segundo ele, a densidade de pessoas em um ato só pode ser medida com uma equipe treinada em terra.

De acordo com Paulino, “quando você consegue caminhar na multidão, ainda que esbarrando em alguém, você tem uma densidade de menos de três pessoas por metro quadrado”. Ele afirma que em diversos trechos da Paulista era possível ver pessoas com cachorros e andando de bicicleta, o que seria impossível caso a estimativa da polícia, de cinco pessoas por metro quadrado, fosse verdadeira. “É uma questão de física e matemática. Não cabe um milhão de pessoas lá, a menos que estivessem todos muito espremidos e empilhados.”

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