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Tensão política levanta dúvidas sobre a nota de risco do Brasil

Equipe econômica se reúne com representantes da agência de classificação S&P

Especialistas não acreditam que o país perderá seus grau de investimento

Fachada da Bovespa, em São Paulo.
Fachada da Bovespa, em São Paulo. Fotos Públicas

Em meio à turbulência com a segunda etapa das investigações da Lava Jato, a equipe econômica da presidenta Dilma se reuniu nesta quarta-feira com integrantes da agência da classificação de risco Standard & Poor’s. Depois que a Petrobras teve a nota rebaixada pela agência Moody’s, e com o barulho que a investigação do esquema de corrupção da petroleira tem gerado no país, crescem as especulações sobre a possibilidade de o país perder seu grau de investimento. A tensão também aumentou após o presidente do Senado, Renan Calheiros, devolver, nesta terça-feira, a medida provisória que aumentava tributos pagos por empresas de 56 setores, anunciada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy como parte importante do pacote de ajuste fiscal.

Para a economista da Capital Markets, Camila Abdelmalack, ainda é cedo para falar em um rebaixamento da nota brasileira, pois as agências devem acompanhar a condução da execução das medidas fiscais, pelo menos neste primeiro trimestre antes de tomar qualquer atitude. “A intenção da nova equipe econômica, conduzida por Levy, foi bem compreendida tanto pelo mercado como pelas agências. Não há dúvidas que os entraves políticos e a própria perda de grau de investimento da Petrobras trazem preocupações, mas não definem o cenário econômico. É preciso esperar os resultados. Existem outras medidas que não dependem do Congresso”, afirma Abdelmalack.

Abdelmalack destaca que a reunião do Governo com integrantes da S&P, e outro possível encontro com representantes da Fitch Ratings nos próximos dias, são necessários para que essas agências acompanhem melhor as expectativas para este ano. “É algo de rotina. Claramente o objetivo do encontro é reunir dados do desempenho das contas públicas para definir futuramente se a classificação brasileira deve ser mantida”, explica.

Na opinião do economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, apesar do clima de tensão no país ter sido agravado pela divulgação da lista de políticos envolvidos na Operação Lava Jato, o Brasil ainda mantém a imagem de um país que honra seus compromissos financeiros. “Existe um clima muito ruim em Brasília, uma preocupação com a dificuldade de negociação política, mas de certa forma, o país ainda mostra capacidade de honrar as obrigações. As agências de risco devem olhar o conjunto das medidas, não vão considerar apenas uma delas”, explica Perfeito.

Menos otimista, Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, avalia que com a perspectiva de uma retração maior do Produto Interno Bruto, e o nível de confiança do consumidor muito baixo, essa hipótese não está descartada. “Pelas indicações que as agências estão dando, isso vai acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde”, explica Vieira. Segundo ele, a constante volatilidade da bolsa no último mês e a subida da taxa de longo prazo também sinalizam a insegurança dos investidores.

Juros sobem a 12,75%

Impulsionado pelas incertezas políticas, o dólar disparou nesta quarta-feira e chegou a ser negociada a 3,001 reais, maior patamar desde agosto de 2004. Às 12h42, o dólar comercial avançava 2,13% frente ao real, cotado a 2,9705 reais. Mas nas casas de câmbio, o dólar já era vendido a 3,08 reais.

Os negócios na Bolsa também refletem as tensões no ambiente político. O Ibovespa, principal índice do mercado acionário local, fechou em queda de 1,63%, aos 50.468 pontos. Os papéis preferenciais da Petrobras operavam, em queda de 2,39%, cotados a 9,37 reais, enquanto os ordinários caiam 2,41%, a 9,28 reais. Na terça-feira, as ações da estatal chegaram a subir 3%, após a petroleira anunciar a decisão de vender ativos no valor de 13,7 bilhões de dólares (perto de 40 bilhões de reais) ao longo de dois anos. Esta era uma iniciativa esperada pelo mercado como alternativa para que a Petrobras retome fôlego depois que a nota da companhia foi rebaixada pela agência de risco Moody's.

A melhora do humor dos investidores foi revertida, porém, com o imbróglio da lista maldita que foi entregue ao Supremo, com o nome de 54 envolvidos do mundo político na Operação Lava Jato.

“Para completar, ainda foi divulgado números ruins sobre a produção industrial no país, e o Banco Central anunciará hoje a decisão sobre a taxa básica de juros. Definitivamente é um dia de turbulência e incertezas”, explica Perfeito, da Gradual.

Apesar do avanço de 2% em janeiro, na comparação com dezembro, a produção industrial encolheu 5,2% em relação ao primeiro mês de 2014, de acordo com dados do IBGE. Dos 79 grupos pesquisados, 60 tiveram queda no período, puxado principalmente pela retração de 18,2% na produção de veículos automotores, reboques e carrocerias.

Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) definiu o rumo da taxa básica de juros, a Selic. Foi a quarta alta seguida para tentar conter a inflação. A nova taxa agora é de 12,75% ao ano.

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